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HEIMO ZOBERNIGHeimo Zobernig e a Colecção do CAMCAM - CENTRO DE ARTE MODERNA Rua Dr. Nicolau de Bettencourt 1050-078 Lisboa 11 FEV - 24 MAI 2009 Considero a exposição de Heimo Zobernig, patente no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, uma das mais interessantes e importantes que poderemos ver em 2009. Zobernig dispõe das colecções da Gulbenkian e da Tate e diverte-se a recriar um museu com o seu próprio trabalho e as colecções em apêndice. A exposição é comissariada por Jürgen Bock, ainda a convite de Jorge Molder. A linguagem historicista de Zobernig, ao mesmo tempo seca e directa, revela uma visão singular sobre um período extenso – o modernismo, onde nos incluímos – e sobre ele cria uma teatralidade desprovida de efeitos, onde os exercícios repensam todo um legado não só geográfico, mas também cultural e literário. Interessa a Zobernig usar esse legado e métodos modernistas tão actuais como os contemporâneos para transitar ilusoriamente entre o passado e o presente. A separação entre as pinturas históricas e o seu trabalho de pintura, escultura, vídeo e instalação é uma criação fictícia que nos leva a ver o seu próprio trabalho como falso, numa justaposição que causa esse efeito psicológico, talvez voluntário. Zobernig é como um falsário. Sendo esse o jogo da arte, podemos entrar. Interessou-me sobretudo a instalação do seu trabalho nas galerias centrais do CAM, onde o aspecto velado, de performance, revela uma exposição menos convencional e o espaço arquitectónico é aberto, valorizado. As pinturas e esculturas do artista austríaco abordam assuntos como a rapidez ou a concretização sem rodeios de uma ideia simples – tanto mais simples o resultado, quanto mais complexa a origem. Nesse acto e procura, cada peça é deixada crua, sem compensação. As pinturas e esculturas de Zobernig falam de minimalismo, conceptualismo ou arte povera, mas são outra coisa – são exercícios que levam ao limite a herança já digerida dessas ideias, sem lhes sobrepôr o excesso maneirista. A sobriedade formal e de estilo no trabalho de Heimo Zobernig é uma virtude. Apesar de não assistirmos a uma performance em tempo real quando visitamos a exposição, a instalação funciona como reminiscência dessa performance. O facto de as paredes da exposição anterior terem sido rebatidas e deixadas assim para constituírem a base onde assentam muitas cadeiras pintadas de dourado, que lembram um museu de design, ilustra a acção da performance. As monumentais cortinas RGB – vermelhas, verdes e azuis – substituem as paredes e cortam o espaço com a displicência própria do tecido, que intensifica o efeito cenográfico. As obras de Zobernig falam de outras obras e são pesquisas românticas, falam de autenticidade e autoria e tentam a anulação que as faz emergir no processo. Os trabalhos de Zobernig escondem, e é essa a sua génese, o que a exposição revela. A exposição mostra peças que Zobernig seleccionou das colecções da Gulbenkian e da Tate, peças que estavam como que arquivadas e são agora mostradas por ordem cronológica nas galerias laterais, como se de salas de arquivo ou de investigação se tratasse. E revela, como esculturas, objectos do museu que não costumam interessar. As gruas para instalação de peças museológicas ficam nas galerias e são colocadas para melhor iludir e misturar os bastidores do museu com o seu aspecto habitual. Tudo isto é modernismo: gruas são esculturas, a actualidade é uma herança, a crítica uma ferramenta. A instalação de Zobernig faz uma retrospectiva do seu trabalho – podemos ver obras de décadas diferentes agora remisturadas no CAM e colocadas em lugares fora do comum, como é o caso duma pintura pendurada em frente a uma janela sobre o jardim. As obras estão por todo o lado, saem das paredes e tocam no chão. Há uma recriação do espaço do museu que talvez passe pela crítica institucional mas é mais do que isso, é uma boa possibilidade de produção artística. Os trabalhos de Zobernig são duma grande simplicidade, misturam o excesso e o mínimo. Há, entre muitas peças, uma pintura que utiliza uma pequena quantidade de restos, lixo, sobre uma superficíe branca; uma peça no chão é apenas esponja pintada de negro; uma escultura sob um plinto, de aparência estilizada, é feita de rolos de papel higiénico; um monolito negro, ao pé, revela penas de pássaro; uma tela quase branca mostra uma estrutura de fita cola sob a tinta; uma peça é feita de estantes e um monocromo verde é feito de pinceladas; e dois vídeos mostram Heimo Zobernig numa acção de performance. A apresentação das colecções de museu interessa enquanto ponto de vista do artista, diferente do ponto de vista institucional, e porque cria as relações imaginárias com o trabalho de Zobernig. O círculo encerra-se.
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