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PAUL THEKPaul ThekMUSEO NACIONAL CENTRO DE ARTE REINA SOFÃA Santa Isabel 52 28012 Madrid 06 FEV - 20 ABR 2009 Uma paisagem de carne“L’éros est une plaque archaïque, préhumaine, totalement béstiale, qui aborde le continent émergé du langage humain acquis et de la vie psychique volontaire sous les deux formes de l’angoisse et du rire. L’angoisse et le rire, ce sont des cendres épaisses qui retombent lentement de ce volcain†Pascal Quignard, Avertissement à Le sexe et l’effroi, Éditions Gallimard, Paris, 1994. Jamon Jamon, é o tÃtulo do filme realizado em 1992 pelo cineasta catalão Bigas Luna, com uma cena final memorável: os dois adversários matam-se a golpes de presuntos inteiros; a carne na sua plenitude humana e bestial associa-se de uma forma hiper-realista à Espanha dos anos que marcaram o apogeu da renovação da sua identidade. Passaram-se mais de 15 anos sobre este florescimento criativo, marcado pelo kitsch e pela movida madrilena que se caracterizou pela procura da intensidade das experiências com o máximo de excitantes possÃveis. Vivia-se também a consolidação da economia capitalista. No princÃpio deste século os ânimos acalmaram-se mas a apetência do público espanhol por obras onde a materialidade humana se encontra presente é ainda notável. Com um universo pessoal muito diferente do de Bigas Luna mas com a mesma atracção pelo choque emocional suscitado no público, e ambos com uma reflexão sobre a alteração de duas sociedades em rota livre para o hiper-consumo, encontramos a obra do artista americano Paul Thek (1933–1988). Uma retrospectiva com 350 obras deste artista encontra-se aberta ao público no Museu Reina Sofia de Madrid e é uma das boas novidades desta Primavera. São apresentados, entre outros, os famosos “Technological Reliquaries†(1964 - 1967), ex-votos contemporâneos realizados pelo artista após uma visita à s catacumbas de Palermo, e que ele também apelidava de “Meat Piecesâ€, que constituem uma espantosa colecção de relicários onde lÃnguas com piercing, braços, partes do corpo em cera se encontram expostas em magnÃficas urnas em plexiglas, verde fluorescente. Surpreendem pela sua contemporaneidade e remetem à s palavras de Georges Didi-Huberman sobre os ex-votos: “ As formas votivas têm a dupla capacidade de desaparecer durante longos perÃodos de tempo e de reaparecer quando menos esperamos. São igualmente capazes de resistir a toda a evolução perceptÃvel†(em Ex-Voto, image, organe, temps, Ed. Bayard, 2006). Mas como diria uma das melhores amigas de Paul Thek, Susan Sontag, talvez ele não gostasse que a sua obra fosse interpretada, pelo menos de forma fria, mas sim apaixonada como toda a obra carnal o deseja. A exposição realizada segundo uma linlha cronológica, ocupa uma das galerias do EdifÃcio Sabatini (antigo hospital) e começa com um retrato de Paul Thek realizado pelo fotógrafo e companheiro do artista, Peter Hujar. Depois encontramos a “Television Analizations†(1962-63), pinturas de grande formato em que explorava a forma como a câmara e a técnica televisiva registavam a realidade. Duas grandes salas estão dedicadas aos “Small Paintings†(1979 –1980) desenhos e colagens do artista e alguns dos trabalhos escultórios como “The Personal Effects of the Pied Piperâ€, que realizou no final dos anos 70; de entre as obras que restam dos seus famosos ambientes artÃsticos encontramos o “Dwarf Parade Table†(1969). Paul Thek nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, metrópole que frequentemente detestou devido à falta de idealismo que a seu ver era contrário ao espÃrito livre dos anos 60. Pressentia a alteração da sociedade de consumo americana, dividida entre a Pop art e o minimalismo artÃstico, entre o movimento hippie e a mobilização de uma geração de jovens para a guerra do Vietname. Viveu um exÃlio voluntário na Europa (Ponza, Roma, Amesterdão, Essen, Paris) e considerava o nomadismo uma das chaves para a arte na sua relação com o mundo. Criou o Artists Co-op em 1969, uma cooperativa de artistas em Amesterdão, com o objectivo de lutar contra o individualismo e participou nas principais manifestações culturais europeias como a Documenta de Kassel (1968 e 1972) e a Bienal de Veneza (1973 e 1980). Colaborou com Robert Wilson enquanto performer em Overture for Ka Mountain e The Life and Times of Joseph Stalin em 1973. Grande parte das suas obras de ambiente e instalação desapareceram, por vezes por falta de fundos do artista. A paradigmática obra “The Tomb – Death of a Hippie†(1967), uma escultura em cera representando o corpo do artista, vestido de rosa, com bolbos de cebola a crescerem em torno da sua cabeça, foi destruÃda numa alfândega por falta de pagamento. Em Dezembro de 1973, Harald Szeemann fez-lhe uma das poucas entrevistas que chegaram até nós, revelando que à época, a carreira do artista estava no seu perÃodo apolÃneo. Desapareceram também as suas famosas procissões como “Ark/ Pyramid†(1973), “Fishman†nas suas diversas versões (1968) e “The Procession/ Easter in a Pear Tree†(1969), entre muitas outras. Porém, a perecibilidade das suas instalações e o carácter efémero das suas performances que não chegaram até nós, pode ser uma das causas que propiciam o seu relativo desconhecimento junto do público. Assumir a própria transitoriedade é colocar o espectador perante a sua própria morte, um dos fantasmas que mais perseguem a humanidade. Da herança grega adaptada pelo cristianismo romano à teogonia egÃpcia, Paul Thek assumiu na sua prática artÃstica referências cristãs sobressaindo as manifestações festivas da natalidade e do renascimento pascal. Na fase final da sua vida fez muitas pinturas, boas e más, como ele próprio dizia, mas que eram sempre manifestos pela arte sensÃvel, entre a angústia e o riso que fazem parte do homem real. A retrospectiva é uma feliz cooperação entre o Museu Reina Sofia, o ZKM de Karlsruhe e o Sammlung Falckenberg de Hamburgo, onde a obra deste artista integra a colecção do importante coleccionador e historiador de arte bruta, Harald Falckenberg.
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