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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Paul Thek, “Our Mother, Who Artâ€, c. 1985. Acrílico sobre cartão. 48,5 x 63, 5 cm. Sammlung Falckenberg, Hamburgo. Fotografia: Oliver Klassen.


Paul Thek, “Susan Lecturing on Neitzscheâ€, 1987. Acrílico sobre cartão, moldura e pintura. 33 x 43 cm. Watermill Center Collection, Nova Iorque. Fotografia: Alexander and Boni, Nova Iorque.


Paul Thek, “Chrysler Buildingâ€, 1983. Acrílico sobre tela. 46,5 x 61 cm. Sammlung Falckenberg, Hamburgo.

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Paul Thek, S/Título - série “Technological Reliquariesâ€, #75/#79, 1964. Cera, aço e plexiglas. 23x23x13 cm (cada uma). #75 Watermill Center Collection /#79 Collezione La Gaia.Foto: Joaquín Cortés


Paul Thek, “Peça de carne com dois tubosâ€, 1964. Cera, plástico, vidro, aço inoxidável e cabelo. Kolumba, Colónia. Foto: Joaquín Cortés.

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ARQUIVO:


PAUL THEK

Paul Thek




MUSEO NACIONAL CENTRO DE ARTE REINA SOFÃA
Santa Isabel 52
28012 Madrid

06 FEV - 20 ABR 2009

Uma paisagem de carne

“L’éros est une plaque archaïque, préhumaine, totalement béstiale, qui aborde le continent émergé du langage humain acquis et de la vie psychique volontaire sous les deux formes de l’angoisse et du rire. L’angoisse et le rire, ce sont des cendres épaisses qui retombent lentement de ce volcainâ€

Pascal Quignard, Avertissement à Le sexe et l’effroi, Éditions Gallimard, Paris, 1994.



Jamon Jamon, é o título do filme realizado em 1992 pelo cineasta catalão Bigas Luna, com uma cena final memorável: os dois adversários matam-se a golpes de presuntos inteiros; a carne na sua plenitude humana e bestial associa-se de uma forma hiper-realista à Espanha dos anos que marcaram o apogeu da renovação da sua identidade. Passaram-se mais de 15 anos sobre este florescimento criativo, marcado pelo kitsch e pela movida madrilena que se caracterizou pela procura da intensidade das experiências com o máximo de excitantes possíveis. Vivia-se também a consolidação da economia capitalista. No princípio deste século os ânimos acalmaram-se mas a apetência do público espanhol por obras onde a materialidade humana se encontra presente é ainda notável.

Com um universo pessoal muito diferente do de Bigas Luna mas com a mesma atracção pelo choque emocional suscitado no público, e ambos com uma reflexão sobre a alteração de duas sociedades em rota livre para o hiper-consumo, encontramos a obra do artista americano Paul Thek (1933–1988). Uma retrospectiva com 350 obras deste artista encontra-se aberta ao público no Museu Reina Sofia de Madrid e é uma das boas novidades desta Primavera.

São apresentados, entre outros, os famosos “Technological Reliquaries†(1964 - 1967), ex-votos contemporâneos realizados pelo artista após uma visita às catacumbas de Palermo, e que ele também apelidava de “Meat Piecesâ€, que constituem uma espantosa colecção de relicários onde línguas com piercing, braços, partes do corpo em cera se encontram expostas em magníficas urnas em plexiglas, verde fluorescente. Surpreendem pela sua contemporaneidade e remetem às palavras de Georges Didi-Huberman sobre os ex-votos: “ As formas votivas têm a dupla capacidade de desaparecer durante longos períodos de tempo e de reaparecer quando menos esperamos. São igualmente capazes de resistir a toda a evolução perceptível†(em Ex-Voto, image, organe, temps, Ed. Bayard, 2006). Mas como diria uma das melhores amigas de Paul Thek, Susan Sontag, talvez ele não gostasse que a sua obra fosse interpretada, pelo menos de forma fria, mas sim apaixonada como toda a obra carnal o deseja.

A exposição realizada segundo uma linlha cronológica, ocupa uma das galerias do Edifício Sabatini (antigo hospital) e começa com um retrato de Paul Thek realizado pelo fotógrafo e companheiro do artista, Peter Hujar. Depois encontramos a “Television Analizations†(1962-63), pinturas de grande formato em que explorava a forma como a câmara e a técnica televisiva registavam a realidade. Duas grandes salas estão dedicadas aos “Small Paintings†(1979 –1980) desenhos e colagens do artista e alguns dos trabalhos escultórios como “The Personal Effects of the Pied Piperâ€, que realizou no final dos anos 70; de entre as obras que restam dos seus famosos ambientes artísticos encontramos o “Dwarf Parade Table†(1969).

Paul Thek nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, metrópole que frequentemente detestou devido à falta de idealismo que a seu ver era contrário ao espírito livre dos anos 60. Pressentia a alteração da sociedade de consumo americana, dividida entre a Pop art e o minimalismo artístico, entre o movimento hippie e a mobilização de uma geração de jovens para a guerra do Vietname. Viveu um exílio voluntário na Europa (Ponza, Roma, Amesterdão, Essen, Paris) e considerava o nomadismo uma das chaves para a arte na sua relação com o mundo. Criou o Artists Co-op em 1969, uma cooperativa de artistas em Amesterdão, com o objectivo de lutar contra o individualismo e participou nas principais manifestações culturais europeias como a Documenta de Kassel (1968 e 1972) e a Bienal de Veneza (1973 e 1980).

Colaborou com Robert Wilson enquanto performer em Overture for Ka Mountain e The Life and Times of Joseph Stalin em 1973. Grande parte das suas obras de ambiente e instalação desapareceram, por vezes por falta de fundos do artista. A paradigmática obra “The Tomb – Death of a Hippie†(1967), uma escultura em cera representando o corpo do artista, vestido de rosa, com bolbos de cebola a crescerem em torno da sua cabeça, foi destruída numa alfândega por falta de pagamento. Em Dezembro de 1973, Harald Szeemann fez-lhe uma das poucas entrevistas que chegaram até nós, revelando que à época, a carreira do artista estava no seu período apolíneo.

Desapareceram também as suas famosas procissões como “Ark/ Pyramid†(1973), “Fishman†nas suas diversas versões (1968) e “The Procession/ Easter in a Pear Tree†(1969), entre muitas outras. Porém, a perecibilidade das suas instalações e o carácter efémero das suas performances que não chegaram até nós, pode ser uma das causas que propiciam o seu relativo desconhecimento junto do público. Assumir a própria transitoriedade é colocar o espectador perante a sua própria morte, um dos fantasmas que mais perseguem a humanidade. Da herança grega adaptada pelo cristianismo romano à teogonia egípcia, Paul Thek assumiu na sua prática artística referências cristãs sobressaindo as manifestações festivas da natalidade e do renascimento pascal.

Na fase final da sua vida fez muitas pinturas, boas e más, como ele próprio dizia, mas que eram sempre manifestos pela arte sensível, entre a angústia e o riso que fazem parte do homem real. A retrospectiva é uma feliz cooperação entre o Museu Reina Sofia, o ZKM de Karlsruhe e o Sammlung Falckenberg de Hamburgo, onde a obra deste artista integra a colecção do importante coleccionador e historiador de arte bruta, Harald Falckenberg.



Sílvia Guerra