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CECÍLIA COSTATeoria de cordasGALERIA PEDRO OLIVEIRA Calçada de Monchique, 3 4050-393 Porto 06 MAR - 30 ABR 2009 O Roer da cordaA Física, se bem que não tanto como a Psicologia, demonstra ser um campo fértil para a plasticidade da criação artística. Já a Psicologia, de tão intimamente ligada à história da arte do século XX, parece demonstrar agora uma certa saturação na aceitação generalizada dos seus mecanismos de produção simbólicos. Ainda assim, seria errado ver uma erradicação do interesse nela do panorama da produção artística actual, que neste momento, e sobre a agenda da crise, vive um exponencial aumento de incursões e inflexões no campo do político e onde, e isso não é novidade alguma, encontramos amplamente activos: os efeitos de uma irrisão e ilustração de situações estimuladas por ou num qualquer ridículo. O trabalho de Cecília Costa (1971, Caldas da Rainha) tem vindo a ser anunciado (1) como respondendo a um interesse da autora por áreas onde a investigação artística é contaminada por posicionamentos e questões oriundas das ciências e das suas pesquisas. Mas enganamo-nos se pensamos que um propósito bastante conceptual (pela própria limitação da área: uma espécie de limbo ou zona indefinida entre ciência e arte, e onde Cecília Costa se vem colocando para desenvolver o seu trabalho artístico) possui um reflexo significativo, em termos conceptuais, no seu trabalho aqui apresentado. Nesta exposição patente na Galeria Pedro Oliveira é bastante visível que a intenção da autora é limitar-se, daquele enunciado: teoria das cordas; apenas a reconhecer o símbolo “corda” e a pneumatizar esse symbalon, para criar uma série de desenhos com especial incidência nas representações do corpo, que assim se transforma no lugar privilegiado e esperado, para a inscrição desse símbolo. Símbolo este, que aflorado na sua forma de utensílio técnico dificilmente remete para além do exercício de uma dominação. Um corpo enlaçado está manietado: tolhido e constrangido na sua espontaneidade e liberdade. É o que verificamos na série de desenho “Penelopes” e na série “Cordas” sendo que na primeira assiste-se a um coração envolto por uma corda, e onde uma mão (2) segura uma das pontas fazendo-o parecer-se, por vezes, com um aperto auto-infligido e, noutras com um pião prestes a ser jogado (o coração, ele próprio um símbolo para vários reconhecimentos). Já na série de desenhos “Cordas” assistimos a uma mumificação feita pelo desenho de sucessivas cordas que formam silhuetas de corpos que se prostram em diversas posições. A única peça escultórica de Cecília Costa, chamada “Narcisos”, consiste numa mesa com dois espelhos de mão, onde a parte destinada aos olhos encontra-se recortada numa alusão directa a uma cegueira que o Mito de Narciso tão bem sintetiza. Semelhante dispositivo já havia sido mostrado, pela autora, na exposição “Vestígio”, realizado em Janeiro deste ano no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos, e que pelo menos nesse local o trabalho ganhava mais em intencionalidade ao confrontar-se com a instituição que o acolhia. No contexto da exposição “Teoria das Cordas” é de todo difícil ver uma relação entre aquele bloco escultórico e a restante exposição. Mesmo conhecendo as anteriores incursões (3) da autora com recurso a material idêntico. Talvez seja um momento para acreditar que tudo está ligado a tudo na unicidade harmónica da teoria das cordas. Uma terceira série de desenhos completam o itinerário da exposição de Cecília Costa. Aí, é-nos apresentado diversas representações de um acumular de cordas dispostas de maneiras e em perspectivas diferentes. São formas enoveladas que tem como característica comum não desvelarem um princípio ou término no seu enrolamento. Aqui a ideia central é coerente com a teoria de cordas, que na sua proposição para uma teoria total e final vem colmatar uma brecha estabelecida entre a teoria geral da relatividade e a mecânica quântica (entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, e onde a procura do elemento elementar: a substância única não composta por nenhuma outra – seja Deus ou as mónadas de Leibniz) atam um fim ao princípio numa mesma materialização – terminando assim, com a disparidade e o estranhamento entre o universo macroscópico, sempre forçado a uma ordenação cosmológica, e o universo do micro: caótico e onde nenhuma forma parece capaz de o fazer caber. Para haver uma maior acessibilidade à teoria das cordas esta tem vindo a ser transformada num lugar comum ou num cristal, que uma apropriação, pelos teóricos do dom tem alastrado para fazer aceitar as suas doutrinas vinculares: de um papel para cada um no desígnio já preestabelecido. Doutrinas essas, que obtiveram um importante reforço com o falhanço da modernidade, e onde o efeito desse fracasso teve um impacto significativo foi por exemplo no conceito de livre arbítrio. Movimentos aleatórios, movimentos Brownianos (4), o bom e o mau encontro revela-nos a dimensão acidental de tudo o que no universo existe. É difícil admitirmos isto, até porque soa a um regresso ao trágico. Porque é que existe alguma coisa quando podia muito bem não existir nada? – Esta pergunta tão teimosa e cosmológica e que um simulado Baudrillard com a ajuda de Nietzsche inverteu para: Porque é que há nada em vez de alguma coisa? (5) Baudrillard tem razão: não é estranho o micro ser caótico, o que é realmente estranho é o macro ser forçado a não o ser: a ter um sentido. É por isso que o anúncio de uma zona entre a ciência e a arte onde Cecília Costa se inspira faz, também, pouco sentido. Talvez o uso de nomes como “Penélope” e “Narciso” para os seus trabalhos seja já um indício de quanto isto é bem mais Trágico. Apetece pegar na resposta de Kierkegaard quando Hegel disse: Que todo o real é racional e o que todo racional é real. Kierkegaard respondeu: Isto já não é racional mas pessoal. NOTAS (1) Ver texto de Filipa Oliveira em www.parangole.es/textosinglespt/CeciliaCosta.pdf (2) “(...) Que é o homem? E como é que ele chegou a ser homem? / A resposta é: o homem se fez homem graças à mão.” Oswald Spengler, O Homem e a Técnica, Guimarães Editores, Lisboa, 2ªed., 1993, p. 61. (3) Exposição “Les sept machines à plier” (2001-2004), Espaço ArteContempo, Lisboa, 2004. (4) Descoberto pelo botânico Robert Brown em 1827. (5) BAUDRILLARD, Jean, O Crime Perfeito, Relógio D’Água, Lisboa, 1996.
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