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PETER KOEGLERPeter KoeglerMUSEU COLEÇÃO BERARDO Praça do Império 1499-003 Lisboa 17 MAR - 31 MAI 2009 Como poderá ser repensado o papel da técnica num contexto marcado pela celebração do digital e pela disseminação de tecnologias que invadem não só a vida, como a percepção, a memória ou a comunicação? Não havendo experiência possÃvel fora de uma relação mediada com o mundo, de que modo essa mesma relação pode gerar processos de subjectivação? Ora, esta parece-me ser uma questão central que atravessa a obra de Peter Kogler (n. 1959, Innsbruck) e que, por sua vez, é-nos dada a considerar quando visitamos a sua exposição antológica apresentada pelo Museu Berardo. Organizada em regime de co-produção com o MUMOK – Museum Moderner Kunst Stiftung Ludwig Wien, a exposição reúne uma criteriosa selecção de trabalhos que remonta aos finais da década de 1970, estendendo-se até ao presente, pelo que possibilita um olhar sobre os vários aspectos do percurso do artista. Ao entrar na exposição o visitante é, desde logo, confrontado com um enorme desenho em vinil preto que abruptamente preenche as paredes do museu. A sua forma apesar de abstracta não deixa, por isso, de ser inquietante aos olhos do público que nela tenta vislumbrar um sentido. Para quem conhece a obra de Kogler, facilmente se recorda da sua participação na Documenta X, em 1997, onde o artista revestiu o espaço da Documenta-Halle com um papel de parede cujo motivo era um entrelaçado de tubos. Várias foram as referências atribuÃdas, na altura, a estes tubos, que lidos como signos de modernidade, traziam à memória fábricas de refinaria, Fernand Léger ou a arquitectura do Centre Pompidou. Tal como estes tubos, também os que vemos na exposição do Museu Berardo são de dimensões e espessuras diferentes e formam um emaranhado tubular, cuja trajectória cria uma ambiguidade na percepção e orientação do visitante. No entanto, são transparentes e revelam o seu interior, em rede. Ora, aqui a rede actua, já não como signo de modernidade, mas como a sua actualização numa era que, não estando de costas viradas para o passado, vê a tecnologia analógica substituÃda pela digital. Passagem esta, aliás, testemunhada pela imagem digital de um mundo desenhado em rede sobre uma superfÃcie monocromática branca, de 2008, e que nos espreita da sala seguinte. Do presente saltamos, então, para o ano de 1979, que ficou marcado por uma das exposições mais curtas da história da arte. “Five-minute exhibition†é o tÃtulo de uma performance, que Kogler realizou nesse ano na Galeria Naechst St. Stephan, em Viena, e da qual resta uma pequena fotografia documental a preto e branco. Esta prova, incluÃda na presente exposição, mostra uma palmeira num vaso e o artista nu, de pernas cruzadas, com a cabeça virada para baixo, enterrada num balde, mimetizando a forma da planta. Apesar da performance, enquanto prática artÃstica reportável ao accionismo vienense dos anos sessenta, ser uma caracterÃstica das primeiras obras, podemos extrair desta fotografia, três aspectos que, desde então, têm sido recorrentes: a repetição, os signos não linguÃsticos e a relação entre corpo e obra de arte. A exposição apresenta uma série de trabalhos da década de 1980, dos quais se destacam uma instalação, de 1984, e um conjunto de cinco pinturas, de 1986. O primeiro é composto por várias pinturas e desenhos a carvão e guache, sobre cartão, de diferentes dimensões, que integrados num todo formam uma grande composição. Nele habitam elementos figurativos e abstractos, como signos de uma linguagem gráfica, que aparecem e reaparecem pontualmente, tal é o exemplo de uma casa, materializada numa escultura de estrutura modular que completa a instalação. As cinco pinturas de 1986, com cabeças gráficas desfiguradas sobre fundos vermelhos, adquirem também uma singularidade no conjunto da exposição, pois não só correspondem aos primeiros trabalhos do artista gerados por computador, como introduzem uma nova direcção na sua obra, já que daà para a frente o computador tornou-se uma ferramenta imprescindÃvel para Kogler. A complexidade daquelas formas pictóricas alcançadas apenas com o computador contrastam com o resultado final de simplicidade visual. Todavia, o uso de imagens isoladas impressas não tem continuidade, pelo que, na transição para os anos noventa, a técnica de serigrafia é redireccionada para povoar superfÃcies com um motivo que se multiplica em série. Este princÃpio de repetição mecânica é aplicado nos vários papéis de parede que, dada a sua reversibilidade, tanto cobrem as paredes do museu com fortes padrões, como sobre eles são penduradas pinturas. Mas, apesar do seu aparente efeito decorativo, estamos perante trabalhos que comportam uma dimensão reflexiva. Se, por um lado, a imagem de uma formiga ao ser repetida incessantemente se torna um padrão, por outro, funciona como alegoria de um modelo de organização e ordem sociais que reveste outra ordem, isto é, a da arquitectura do espaço expositivo. A imagem da formiga volta pois a surgir numa outra instalação de 2007 readaptada para este contexto. Trata-se de uma dupla projecção que nos devolve o percurso de várias formigas. Como as paredes têm um revestimento fotosensÃvel e a projecção é em loop, aquele percurso sobrepõe-se a si mesmo podendo apenas ser interrompido pela acção corporal do visitante que, deste modo, é convidado a interagir directamente com o dispositivo. Uma animação vÃdeo computadorizada de 2005 encerra a exposição, mas ao contrário da anterior, esta instalação tenta gerar algum incómodo ao projectar ratos gigantes no chão que se vão acumulando e de um modo ameaçador se aproximam dos pés do visitante. Será que este trabalho tenta então repor a ideia de dispositivo como algo de terrÃfico? Creio que a estratégia de Peter Kogler e que esta exposição também enfatiza é, aliás, outra que recusa o entusiasmo optimista da técnica, mas que encontra também nela uma potencialidade, a devolução ao uso comum da experiência e da acção.
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