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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Eduardo Matos, “O planoâ€, 2009. Fotografia 35 mm


Eduardo Matos, “Expediçãoâ€, 2008. Diaporama. Slide 35 mm


Eduardo Matos, “Mesa II - Jardimâ€, 2007/2008. Vários materiais, vídeo, desenho e fotografia. 130 x 120 x 250 cm


Eduardo Matos, “Mesa II - Jardimâ€, 2007/2008. Vários materiais, vídeo, desenho e fotografia. 130 x 120 x 250 cm


Cartaz da exposição

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ARQUIVO:


EDUARDO MATOS

Mesa




GALERIA QUADRADO AZUL (ANTIGO ESPAÇO EM LISBOA)
Largo dos Stephens, 4
1200-457 Lisboa

19 MAR - 30 ABR 2009

A Arqueologia das cidades utópicas

A mesa enquanto objecto do quotidiano está longe de exercer o fascínio fetichista que é protagonizado por outras peças que povoam a nossa vivência diária. Apesar de eventuais complementaridades com a mesa, a cadeira foi sendo sempre mais autonomizada enquanto corpo, capitalizando em si a representação e o experimentalismo da arquitectura e do design, dos quais alguns exemplos nos povoam a memória. Basta pensar em Alvar Aalto, Gerrit Thomas Rietveld, Warhol e a série “Electric Chairâ€, Kosuth (“One and Three Chairsâ€, 1965), e até mesmo em Joseph Beuys e a “Fat Chair†ou nas inúmeras cadeiras de Van Gogh.

Eduardo Matos (n.1972) veio devolver protagonismo à mesa, na Galeria Quadrado Azul em Lisboa, onde nos apresenta entre outras peças “Mesa II – Jardim†que assume a centralidade do espaço físico, revelando-se enquanto campo e corpo magnético que agrega em si desenho, vídeo, escultura e fotografia. Juntos, estes parecem evocar os vestígios de uma grande cidade onde as imagens projectadas em loop sobre acrílico escuro rodeado de madeira poderiam fazer parte de um exercício de arqueologia onírica que remete para as cidades futuristas de Enki Bilal, ou para um cenário de caducidade progressiva e inevitável que é recorrente no trabalho de Eduardo Matos.

O discurso visual de Eduardo Matos privilegia a ideia de simulacro na ambiguidade encontrada e fabricada entre autenticidade e ficção, onde a preocupação com o rigor cénico e técnico parece ficar por breves momentos em segundo plano face à relação longa, demorada e intimista que mantém com os seus objectos, e o cuidado em estudá-los e observá-los detalhadamente. Quando em “Expediçãoâ€, diaporama em dupla projecção de slides, nos damos conta que as imagens que vemos são a consequência da estadia e observação prolongada num terreno baldio na cidade do Porto, quase que nos arriscamos a comparar o modus operandi de Eduardo Matos com a da metodologia etnográfica. No entanto o seu discurso estará mais próximo, e novamente, de uma arqueologia das cidades de agora e dos seus despojos mais ou menos recentes, das quais Eduardo Matos vai subtraindo as camadas que nos dará a ver.

Em “Mesa†temos presente dois tipos de lugares. Os lugares de “Expediçãoâ€, “O planoâ€, “Longos dias numa viagem†que se caracterizam por um registo mais documental e quasi etnográfico, lugares à margem das grandes cidades e dos seus centros, e temos também “Mesa II – Jardimâ€, ilusão de cidade, proposta ou manifesto urbano. Ao mesmo tempo a cor e o som fazem também parte de “Mesaâ€, num bricolage cuidado, onde o ritmo mecânico de algumas peças é gerido minuciosamente e a presença da cor é-nos dada através de estudos do corpo do artista, dos elementos que o rodeiam, entre a pele, a mesa, o jardim e a galeria.
Mas voltemos à metodologia de trabalho de Eduardo Matos. Nela podemos encontrar algumas pistas que nos levam a inverter o conceito de “site-specificâ€, e pensar o seu trabalho não a partir de peças concebidas em função de um lugar, mas de lugares que dão origem a peças, onde a partir da observação dos mesmos a peça se vai construindo e adquirindo corpo. Podemos então falar de um trabalho que tem uma relação privilegiada com os espaços e com os tempos, tomando-os com centralidade total, e representando-os através das leituras intimistas que o artista mantém com os sítios que escolhe observar: “Uma notícia de jornal dava conta de um terreno baldio, existente na cidade, um espaço encravado entre edifícios urbanos e uma via rápida de automóveis, falava de um lago e de uma intensa flora que tinha crescido espontaneamente à sua volta; arbustos, plantas e flores que formavam uma espécie de barreira ao exterior e que dava a ideia de se tratar de um micro-ambiente. Curioso com o local, por lá fui passando e, sem guião e sem pressas, por lá estive à espera que desse trabalho surgisse então o trabalho.†(1)

É a partir de parcelas da realidade que Eduardo Matos constrói algo que se pode assemelhar a uma utopia urbana, utilizando fragmentos das cidades, desterritorializando os lugares, erigindo ruínas e vacilando entre o caos e a tranquilidade subterrânea das metrópoles: ora somos bombardeados com a omnipresença excessiva das imagens, ora nos deparamos imersos no silêncio fantasmagórico de um túnel.

Ao mesmo tempo, está omnipresente a procura de lugares de limbo, longe no entanto dos “não-lugares†de Marc Auge (2), que Eduardo Matos procura “preservar†através do seu trabalho. É desta forma que a sua obra adquire uma certa propensão documental, que encontramos também na prática arqueológica: registar e representar os lugares de hoje de forma mais ou menos distorcida ou ficcionada para que no futuro nos possamos questionar sobre a sua veracidade ou autenticidade. É no fundo um falso documentarismo, assente no discurso e no pressuposto do simulacro.

Se os consumidores do espaço contemporâneo são solicitados a contentar-se com palavras, felizmente Eduardo Matos dá-nos as imagens.



NOTAS

(1) in www.localworlds.org/pt/participantes/eduardo-matos/
(2) AUGÉ, Marc (1994), Não-lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade. Bertrand Editora.



Joana Lucas