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EXPOSIÇÕES ATUAIS


John Wood e Paul Harrisson, “The only other pointâ€, 2005. Cortesia dos artistas, Ikon Gallery e fa projects


John Wood e Paul Harrisson, “Shelfâ€, 2007. Cortesia dos artistas, Ikon Gallery e fa projects


John Wood e Paul Harrisson, “Shelfâ€, 2007. Cortesia dos artistas, Ikon Gallery e fa projects


John Wood e Paul Harrisson, “Shelfâ€, 2007. Cortesia dos artistas, Ikon Gallery e fa projects


John Wood e Paul Harrisson, “Night and Dayâ€, 2008. Cortesia dos artistas, Ikon Gallery e fa projects

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ARQUIVO:


JOHN WOOD E PAUL HARRISON

Some words. Some more words




IKON GALLERY
1 Oozells Square, Brindleyplace
Birmingham, B1 2HS

08 ABR - 25 MAI 2009

Num mundo perfeito

“Hamm – Era bom que chovesse.
Clov – Não vai chover.
(pausa)
Hamm – Para além disso, tudo bem?
Clov – Não me lamento.
Hamm – Sentes-te no teu estado normal?
Clov ( irritado) – Já te disse que não me queixava.
Hamm – Eu sinto-me algo cómico.â€

Samuel Beckett_extracto livremente traduzido de Fin de Partie, Ed. Minuit, Paris


Onde é a saída de um mundo perfeito? Um mundo com que o meio artístico sonhou nos anos 80, encerrado num cubo branco, entre quatro paredes e onde circulam dois personagens que parecem depurados sósias dos personagens Vladimir e Estragon de Beckett.Dois personagens, porém mudos. Um mundo horizontal pode ser uma longa prateleira, um paralelo terrestre onde num travelling sem início nem fim, camiões TIR, refrigerantes, maçãs azuis e gira-discos com girafas miniatura passam frente aos nossos olhos hipnotizados. Tudo sem som, mas por vezes, com algumas palavras.

John Wood e Paul Harrison trabalham como dupla artística há cerca 10 anos. Conheceram-se quando eram colegas da mesma escola superior de belas artes e confessaram-me que só agora, durante a realização de “Night and Day†(2008) é que atingiram o momento em que a colaboração artística funciona de forma empática, sem palavras. Em termos de parcerias artísticas, a arte contemporânea dos últimos anos não oferece exemplos abundantes mas os que existem são bons, caso de artistas como Peter Fischli e David Weiss e mesmo os jovens João Maria Gusmão e Pedro Paiva.

O suporte por excelência do trabalho de Wood e Harrison é o vídeo; medium que lhes permite criar obras de grande complexidade artística, onde a coreografia, a dança, o teatro, a mímica, a escultura e a arquitectura se juntam em composições de uma rara perfeição formal.

Falei de Beckett como exemplo da relação com o Outro, patente em todas as peças do dramaturgo britânico, e presente de forma intrínseca nos trabalhos desta dupla de artistas. O Outro como a outra voz, que ouvimos quando nos separamos do egocêntrico super-homem. É de uma forma epistemológica que a abertura ao outro salva o ser humano. Permite-lhe a existência plural. No caso de alguns filmes destes artistas existe ainda um terceiro que é o narrador universal que vive nas legendas que acompanham alguns dos seus vídeos.

Volto ao universo beckettiano para referir que é no espaço fechado que vivem as ficções de Wood e Harrison e num trabalho como “Night and Day†(2008) faz-se um resumo de toda a história de arte dos últimos anos, desde o minimalismo ao eterno pressentimento do Zeitgeist: contemporâneo é o que vive entre a escuridão. Claro que no tempo em que foram escritas as peças de Beckett o mundo não estava tão sobrecarregado de imagens e de objectos consumíveis, o retorno ao essencial fazia-se numa praia onde uma cabeça enterrada na areia pensava poder cortar as unhas dos pés. Hoje o mundo é uma prateleira onde os refrigerantes são tantos que poderiam voltar a encher os rios no Sudão.

O eu e o seu outro colocam-se a si mesmos em jogo, como actores mudos que exploram as regras deste mundo interior onde vivem – o estúdio (ou atelier). As obras presentes na retrospectiva patente na Ikon constituem pela sábia ocupação em diálogo com o espaço (mérito do curador Nigel Prince), uma entrada privilegiada neste universo: começámos com “Some words. Some more words†(2009) e “Of Knowing Where you are†(2009), vimos depois as obras em que a palavra é o fio condutor de acções mínimas como uma fotocopiadora que continua a imprimir a linha do horizonte (“Photocopierâ€, 2007) e entrámos numa estrutura em madeira onde se encontra fechado a noite e o dia interior de “Night and Day†que considero a obra-prima desta dupla.

Numa sala ao lado podemos ver a incrível coreografia de “The Only Other Point†( 2005) e noutra “Shelf†(2007). São obras de uma grande depuração e simplicidade que porém permitem reler imensos autores da cultura ocidental literária desde Mallarmé a Roland Barthes. Os personagens encarnados pelos artistas são como pequenos hamsters que correm em busca de uma saída para um mundo horizontal que desliza como as imagens, uma após a outra. Imaginamos que a tecla play fica eternamente activada e o mundo como o imaginamos encontra-se dentro de um atelier, já não dentro da eterna caverna, com tudo o que é essencial à luz e às trevas.


NOTA

Ikon Gallery, até 25 de Maio 2009

Musée Départemental d’Art Contemporain de Rochechouart de 10 de Junho a 21 de Setembro 2009

As obras de Wood e Harrison poderão ser vistas em Lisboa na Agência Vera Cortês de 29 de Maio a 25 de Julho 2009.


Sílvia Guerra