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JOHN WOOD E PAUL HARRISONSome words. Some more wordsIKON GALLERY 1 Oozells Square, Brindleyplace Birmingham, B1 2HS 08 ABR - 25 MAI 2009 Num mundo perfeito“Hamm – Era bom que chovesse. Clov – Não vai chover. (pausa) Hamm – Para além disso, tudo bem? Clov – Não me lamento. Hamm – Sentes-te no teu estado normal? Clov ( irritado) – Já te disse que não me queixava. Hamm – Eu sinto-me algo cómico.†Samuel Beckett_extracto livremente traduzido de Fin de Partie, Ed. Minuit, Paris Onde é a saÃda de um mundo perfeito? Um mundo com que o meio artÃstico sonhou nos anos 80, encerrado num cubo branco, entre quatro paredes e onde circulam dois personagens que parecem depurados sósias dos personagens Vladimir e Estragon de Beckett.Dois personagens, porém mudos. Um mundo horizontal pode ser uma longa prateleira, um paralelo terrestre onde num travelling sem inÃcio nem fim, camiões TIR, refrigerantes, maçãs azuis e gira-discos com girafas miniatura passam frente aos nossos olhos hipnotizados. Tudo sem som, mas por vezes, com algumas palavras. John Wood e Paul Harrison trabalham como dupla artÃstica há cerca 10 anos. Conheceram-se quando eram colegas da mesma escola superior de belas artes e confessaram-me que só agora, durante a realização de “Night and Day†(2008) é que atingiram o momento em que a colaboração artÃstica funciona de forma empática, sem palavras. Em termos de parcerias artÃsticas, a arte contemporânea dos últimos anos não oferece exemplos abundantes mas os que existem são bons, caso de artistas como Peter Fischli e David Weiss e mesmo os jovens João Maria Gusmão e Pedro Paiva. O suporte por excelência do trabalho de Wood e Harrison é o vÃdeo; medium que lhes permite criar obras de grande complexidade artÃstica, onde a coreografia, a dança, o teatro, a mÃmica, a escultura e a arquitectura se juntam em composições de uma rara perfeição formal. Falei de Beckett como exemplo da relação com o Outro, patente em todas as peças do dramaturgo britânico, e presente de forma intrÃnseca nos trabalhos desta dupla de artistas. O Outro como a outra voz, que ouvimos quando nos separamos do egocêntrico super-homem. É de uma forma epistemológica que a abertura ao outro salva o ser humano. Permite-lhe a existência plural. No caso de alguns filmes destes artistas existe ainda um terceiro que é o narrador universal que vive nas legendas que acompanham alguns dos seus vÃdeos. Volto ao universo beckettiano para referir que é no espaço fechado que vivem as ficções de Wood e Harrison e num trabalho como “Night and Day†(2008) faz-se um resumo de toda a história de arte dos últimos anos, desde o minimalismo ao eterno pressentimento do Zeitgeist: contemporâneo é o que vive entre a escuridão. Claro que no tempo em que foram escritas as peças de Beckett o mundo não estava tão sobrecarregado de imagens e de objectos consumÃveis, o retorno ao essencial fazia-se numa praia onde uma cabeça enterrada na areia pensava poder cortar as unhas dos pés. Hoje o mundo é uma prateleira onde os refrigerantes são tantos que poderiam voltar a encher os rios no Sudão. O eu e o seu outro colocam-se a si mesmos em jogo, como actores mudos que exploram as regras deste mundo interior onde vivem – o estúdio (ou atelier). As obras presentes na retrospectiva patente na Ikon constituem pela sábia ocupação em diálogo com o espaço (mérito do curador Nigel Prince), uma entrada privilegiada neste universo: começámos com “Some words. Some more words†(2009) e “Of Knowing Where you are†(2009), vimos depois as obras em que a palavra é o fio condutor de acções mÃnimas como uma fotocopiadora que continua a imprimir a linha do horizonte (“Photocopierâ€, 2007) e entrámos numa estrutura em madeira onde se encontra fechado a noite e o dia interior de “Night and Day†que considero a obra-prima desta dupla. Numa sala ao lado podemos ver a incrÃvel coreografia de “The Only Other Point†( 2005) e noutra “Shelf†(2007). São obras de uma grande depuração e simplicidade que porém permitem reler imensos autores da cultura ocidental literária desde Mallarmé a Roland Barthes. Os personagens encarnados pelos artistas são como pequenos hamsters que correm em busca de uma saÃda para um mundo horizontal que desliza como as imagens, uma após a outra. Imaginamos que a tecla play fica eternamente activada e o mundo como o imaginamos encontra-se dentro de um atelier, já não dentro da eterna caverna, com tudo o que é essencial à luz e à s trevas. NOTA Ikon Gallery, até 25 de Maio 2009 Musée Départemental d’Art Contemporain de Rochechouart de 10 de Junho a 21 de Setembro 2009 As obras de Wood e Harrison poderão ser vistas em Lisboa na Agência Vera Cortês de 29 de Maio a 25 de Julho 2009.
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