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DAAN VAN GOLDENRed or BlueCULTURGEST EdifÃcio Sede da Caixa Geral de Depósitos, Rua Arco do Cego 1000-300 Lisboa 20 JUN - 06 SET 2009 Por volta de 1963-64, Jasper Johns apontou num bloco de notas a seguinte frase: One thing working one way/Another thing working another way/One thing working different ways at different times. Depois de Marcel Duchamp, Johns foi provavelmente um dos primeiros artistas do pós-guerra a retomar, em meados dos anos 50, as investigações sobre a estrutura linguÃstica dos signos e a articulá-la com a produção artÃstica. Ao implicar diversos jogos de linguagem no seu trabalho, como citar um objecto para evocar outro ou colidir signos de várias ordens ou até mesmo diferentes nÃveis de sentido, contrariava a ideia de uma intenção prévia ao próprio sentido, já que este passava então a ser lido como uma construção. Mas já que esses mesmos signos eram também elementos da vida quotidiana (bandeiras, alvos), Johns atribuÃa assim novas possibilidades à relação arte-vida. Ora tais estratégias, assentes na arbitrariedade do signo, vieram marcar profundamente as práticas artÃsticas desenvolvidas pelas gerações seguintes que fizeram a pop arte ou a arte conceptual, das quais o artista holandês Daan van Golden (n. Roterdão, 1936) faz parte ao lado de outros nomes europeus como Sigmar Polke, Gerhard Richter, Richard Hamilton ou Daniel Buren. Decididamente menos conhecido do que qualquer outro dos seus pares, Daan van Golden, nem por isso, deixou de participar em importantes exposições como a Documenta 4, em 1968 e a 48ª Bienal de Veneza, em 1999, onde representou o seu paÃs, estando a sua obra amplamente representada nos principais museus da Holanda. Actualmente, van Golden é alvo de uma grande exposição individual com itinerância internacional organizada pelo Camden Art Centre de Londres em colaboração com o MAMCO de Genebra e a Culturgest de Lisboa. Dando continuidade a um trabalho de programação e curadoria em torno da produção artÃstica contemporânea holandesa levado a cabo por Miguel Wandschneider, a Culturgest acolhe agora a obra deste artista com praticamente 50 anos de actividade, revistos pela curadora Anne Pontégnie. Sob o tÃtulo “Red or Blueâ€, a exposição reúne um conjunto vasto de trabalhos desde o inÃcio da década de 1960, altura em que Daan van Golden abandona o expressionismo abstracto que explorara, até ao presente. Um trabalho singular na obra do artista, intitulado “Wales Pictureâ€, 1967, introduz então o percurso desta mostra que se estende por mais 4 salas. Trata-se de uma fotografia a preto e branco, segmentada em 56 partes, de um riacho envolto de pequenos rochedos e árvores, que coloca em jogo duas acções as quais, de modos distintos, atravessam os outros trabalhos expostos. Por um lado, a fragmentação da obra motivada pelos contÃnuos desvios e ambiguidades que ela própria estabelece pela linguagem e na relação com o observador (veja-se como “Wales Picture†tanto actua reversivelmente como uma paisagem integral ou paisagens isoladas diferentes entre si) e, por outro lado, a atenção dada ao pormenor que de súbito assalta uma imagem (um olhar atento encontrará certamente uma figura despercebida em “Wales Pictureâ€) ou o quotidiano. Na primeira sala podemos ver alguns dos trabalhos que o artista desenvolveu no Japão, entre 1963 e 1964, nomeadamente “One Paintingâ€, ou “Composition with Blue Squareâ€, todos eles resultantes da reprodução em esmalte de motivos que o próprio encontrava em papéis de embrulho e em lenços de papel, ou que por exemplo em Portugal revestiam as gavetas da cozinha. Os mais recorrentes, nesta exposição, são grelhas e padrões florais, que ao serem inscritos na superfÃcie da tela ganham novos sentidos tornando-se de uma só vez signos da vida diária e de pinturas abstractas. Esta indicibilidade entre as noções de abstracção e representação reaparece pois noutro núcleo de trabalhos mais recentes, desenvolvidos a partir dos anos 1990 e centrados na prática do dripping. Em “Studie Pollockâ€, 1991, van Golden isola, amplia e copia um detalhe de uma pintura de Pollock sob um fundo monocromático branco que faz realçar aspectos antropomórficos da composição abstracta. Tal como os objectos que encontra no mundo, também a própria história da arte se tem revelado uma ferramenta de trabalho recorrente para o artista. Assim, outros nomes da arte moderna têm constituÃdo o ponto de partida de várias obras suas. São disso exemplo “Blauwe Studie naar Matisseâ€, 1982 e “Studie A.G.â€, 2007, duas pinturas de linguagem gráfica que transformam um periquito de Matisse e uma mulher de Giacometti em puros signos já quase sem relação com o referente. Esta série de deslocações imprime todavia uma noção de tempo no espaço da pintura de van Golden que emerge não apenas das referências da história da arte, como dos diferentes sentidos em jogo e das memórias sugeridas. É este tempo intricado, entre a factualidade e a subjectividade, que faz dialogar as suas pinturas com as duas séries fotográficas intituladas “Golden Yearsâ€, 1988-2006 e “Youth is an Artâ€, 1986, que complementam a exposição. A primeira consiste num conjunto de 70 imagens recortadas da imprensa que traçam a história ocidental dos últimos 70 anos, ano após ano em episódios sobre a vida polÃtica (II Guerra Mundial ou o 11 de Setembro), o desporto (os espectáculos de ginástica feminina russa dos anos 1930 vistos por Rodchenko), a música pop (de Presley a Cobain), a arte (Oldenburg, Bas Jan Ader ou Keith Haring) ou a moda (modelo – Dior/Hedi Slimane). A segunda reúne momentos fotográficos desde o nascimento da sua filha, em 1978, até aos seus 18 anos, passados em várias zonas geográficas do mundo. Ambas funcionam então como cronologias. Mas se “Golden Years†aparentemente diz respeito à esfera pública e só depois à pessoal, já que aqueles 70 anos são a própria idade de van Golden, “Youth is an Art†inverte o processo ao mostrar-se primeiro como espaço biográfico, sem, contudo, deixar de se constituir como espaço comum e provavelmente já visitado por quem o observa. É para esse espaço intersticial entre a experiência da arte e a experiência da vida que a obra de Dan van Golden parece apontar, desdobrando-se até hoje em continuados fluxos de signos.
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