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IVO MOREIRAGifts from where I’ ve beenGALERIA JORGE SHIRLEY Largo Hintze Ribeiro, 2E/2F 1250-122 Lisboa 06 AGO - 30 AGO 2009 Galeria Jorge Shirley 06.08.2009 a 30.08.09 Sala do Veado – Museu Nacional de História Natural 12.08.09 a 30.08.09 O Ivo Moreira (Lisboa, 1979) é um artista com uma apetência social não condicente com as exigências do circuito da arte contemporânea. Não é, como tantos outros o são apenas, um profissional inteligentemente integrado nas redes de mercado e de divulgação. Não constrói as suas amizades com base no retorno mediático que estas lhe possam, hipoteticamente, devolver. Não é imediatista e não abdica da sua urgência e determinismo criativos a favor do facilitismo da semelhança, enquadramento e pertença. Não é um artista emergente porque muito embora a sua inquestionável juventude expõe há já mais de dez anos. Não é académico e, talvez também por isso, não se preocupa com a assertividade teórica, temporal ou espacial das obras que produz. O trabalho vem-lhe de dentro, é motor de si próprio e caminha tortuosamente sob a égide de uma hipersensibilidade maior, antiga como a dos grandes pintores que a história da arte reificou de mestres. Este texto é um ensaio para a cegueira que tolda o seu necessário reconhecimento artístico. Agosto, que é o mês de ninguém, foi o mês que Ivo escolheu para si. Eu também prefiro o Verão em Lisboa. E gosto mais dele desde que posso alternar entre o meu trabalho e as exposições do Ivo. Foi assim em 2008 com a exposição “I want to go with you” na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural, onde apresentava uma série de nove pinturas de grande formato com a ambiência afectiva importada ao Brasil, à Índia e a todos os pequenos mundos em Portugal experimentados nos três anos anteriores. Ali, entre cavalos alados, visões do paraíso, paisagens silenciosas, cabeças totémicas, peixinhos voadores e outros sonhos coloridos sonhados ao som da poesia dita de Laurie Anderson, surgiram também os “salões” cuja seriação se transforma, adensa e conquista agora em “Gifts from where I’ve been”. A nova exposição divide-se em duas partes, uma primeira na galeria Jorge Shirley e a segunda, inaugurada uma semana depois, novamente na Sala do Veado. A economia da simultaneidade é bem sucedida dada a proximidade geográfica dos espaços expositivos, separados apenas pelo atravessar de uma passadeira. No pequeno espaço da galeria Ivo apresenta um conjunto de telas de verticalidade acentuada, justapostas umas às outras como pedaços de película cortada, com ligeiras variações de escala e de nuances no cromatismo claro do fundo, já que o desenho é todo realizado a preto. São habitadas por seres extraordinários com pontuações de naturezas primitivas e exóticas definidas em contornos com uma qualidade gráfica que lembra a escultura de Dubuffet. Constituem, em separado ou no seu conjunto, narrativas livres e de interpretação variável, simbólicas de uma possibilidade romântica de entendimento e simbiose perfeita, de qualidade universal, entre o homem e o cosmos. Os salões, jantares ou banquetes são preenchidos de signos sobejamente reconhecíveis no trabalho de Ivo. A sua arquitectura de espaços é profícua em mobiliário barroco como lustres, candelabros ou reposteiros por entre os quais transitam frívolas criaturas híbridas, inventivas miscigenizações entre deuses, animais e humanos. Os novos salões introduzem, para além de algumas mudanças radicais na perspectiva espacial e sensorial apresentada, uma simplificação atípica: espaços amplos e minimalistas devedores da arquitectura nova-iorquina dos anos quarenta; monocromatismo dos fundos a aproximá-los do registo menos monumental dos desenhos e das pinturas expostas na galeria; e um progressivo intimismo e delicadeza na passagem do retrato colectivo para a representação de casais isolados de criaturas do mesmo bestiário. Lembro-me, ao mesmo tempo, do Pedro Proença, da Paula Rego, do David Hockney e do Keith Haring. Vejo brotarem-lhe pétalas das mãos, pássaros delicados, ícones bizantinos, Tom Waits, anjos e demónios, padrões minuciosos, cores feéricas, palavras e citações autobiográficas (como uma de si como Frida Kahlo). Vejo coelhos frenéticos e não me consigo lembrar, na sequência distanciada da visita à exposição “Fare Mondi” comissariada por Daniel Birnbaum em Veneza, noutro artista que tão espontânea, genuína, livre e inventivamente crie ou construa mundos segundo um imaginário que é só seu. E acho que isso diz tudo sobre a relatividade do lugar simbólico que as pessoas ocupam. A viagem é um estado interior.
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