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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Joaquim Rodrigo, “C 9”, 1954. Óleo sobre tela, 73 x 60,5 cm. Museu do Chiado – MNAC / depósito de Sofia Agrela

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COLECTIVA

Os Anos 40 e 50 na Colecção do Museu do Chiado




MNAC - MUSEU DO CHIADO
Rua Serpa Pinto, 4
1200-444 Lisboa

30 MAR - 18 JUN 2006

Tempos Difíceis

Em torno dos valores intrínsecos da sua colecção, o Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea apresenta-nos desde Março e até meados de Junho uma exposição antológica sobre a produção artística portuguesa das décadas de 40 e 50. Esses foram tempos difíceis, marcados pelo isolamento do regime de Salazar, pelas notícias da Guerra Civil espanhola ou ainda pela ameaça tenebrosa da II Guerra Mundial, mas essa foi igualmente uma época de esperança política e social, em particular, o imediato segundo pós-guerra que trouxe à oposição política portuguesa uma oportunidade de intervenção que rapidamente se diluiria nas falsas promessas de uma abertura democrática que servira apenas para, no quadro da vitória Aliada, assegurar a sobrevivência do próprio regime.

Marcada desde logo pela grande apoteose nacionalista da “Exposição do Mundo Português” (1940), a arte portuguesa desses vinte anos foi, na verdade, bastante heterogénea, ousada, comedida, oficial e antagónica, mas fecunda o suficiente para desenvolver algumas referências teóricas e também práticas das vanguardas internacionais da época, da abstracção geométrica ao surrealismo, passando pela recuperação de uma figuração de valor social com o empenho do neo-realismo. Os anos 40 marcam, com efeito, uma forte tentativa de recuperar os valores experimentais e mais ousados da primeira geração modernista, bem como algum do seu espírito de agitação e compromisso.

Por isso, esta exposição começa por nos mostrar, na sala das furnas, um acervo de grande qualidade de desenhos e pinturas de Almada Negreiros, o sobrevivente de “Orpheu” e do “Portugal Futurista” que se manteve até muito tarde como a grande referência nacional de uma prática artística experimental (mesmo quando não vanguardista) e permanentemente polémica. Aí podemos observar alguns trabalhos preparatórios para as Gares Marítimas de Lisboa, ou ainda desenhos de figuras populares que são evocadas através de uma síntese formal e linear simultaneamente moderna mas de valor classicizante, sobretudo evidente no trabalho suavizado dos efeitos luz-sombra.

Na sala do piso superior, iniciamos a viagem pelo esforço das Exposições Independentes do Porto em mostrar os exercícios abstracto-geométricos de Fernando Lanhas (com um conjunto de trabalhos da colecção do crítico Fernando Guedes que está agora em depósito no Museu do Chiado) ou Nadir Afonso. Vemos depois alguns dos melhores trabalhos dessa mesma fase mas de Joaquim Rodrigo, como esse “C9” (1954). Segue-se o curto espaço dedicado ao investimento engagée dos neo-realistas, de um tríptico de Manuel Filipe a alguns óleos de Querubim Lapa recentemente doados à instituição, passando ainda, obrigatoriamente diríamos, por esse panfletário “Gadanheiro” de Júlio Pomar (1945).

Numa leitura mais ou menos consensual, temos depois a diversidade estilística e de grupo do surrealismo português, juntando na mesma sala Cesariny e António Pedro, Vespeira e Jorge Vieira. Aí somos confrontados com alguns de melhores exemplares desse imaginário onírico que também entre nós marcou uma época de forma indelével.

Porém, o momento mais surpreendente desta mostra panorâmica é a revelação de uma série de grandes telas de Jorge de Oliveira, importante artista que percorreu de um modo singular as referências abstractas de uma gestualidade de inspiração surrealista, que lembra por exemplo o chileno Roberto Matta, mantendo aí o paralelo com alguns trabalhos de Fernando Azevedo, Vespeira, Vieira da Silva ou Manuel D’Assumpção.
Esta é uma exposição importante, resultado do esforço de uma investigação coerente e consolidada num trabalho continuado, que reforça a urgente necessidade de conhecermos todos, de um modo mais profundo, as raízes da nossa própria identidade cultural.



David Santos