|
|
PHILIPPE PARRENOPhilippe ParrenoCENTRE POMPIDOU Place Georges Pompidou 75191 Paris 08 JUN - 07 SET 2009 Que horas traz marcadas o coelho do tempo de Philippe Parreno?“O grau de resolução das nossas ideias depende de uma escolha económica, que decidimos ou que nos é imposta. Por exemplo em arquitectura, começa-se com um projecto que muitas vezes é simplificado no final, esta é a baixa resolução do projecto. Mas a mim interessa-me mais o processo do que a sua resolução. Começando pela imagem, ou por um momento considerado como imagem, podemos ler um mundo inteiro de trás para a frente encontrando todas as ligações e cadeias, tal como se pode ler um livro do fim para o inÃcio.†Entrevista a Philippe Parreno in Hans Ulrich Obrist, Interviews, 2003, Edições Charta, Milão. Que horas traz marcadas o coelho do tempo de Philippe Parreno? Entramos num espaço escuro ao som de uma locomotiva. Num ecrã que divide o espaço vemos um filme em que habitantes e transeuntes olham para um comboio que não sendo fantasma, nunca se vê. Atravessa uma paisagem americana de cidades e subúrbios. Nos rostos existe um sinal de pesar, um homem faz a sua última viagem através do paÃs, sem pertencer ao mundo dos vivos. Subitamente as cortinas levantam-se e o filme termina sem nos levar ao destino, sem nos prevenir do seu fim... À medida que os nossos olhos se habituam à claridade vemos que estamos dentro de uma sala de exposição, no primeiro andar térreo do Centre Pompidou. Através das paredes de vidro observamos os sem-abrigo e os músicos saltimbancos que se abrigam junto aos muros do edifÃcio e os comuns transeuntes. A cidade, à s 11 horas da manhã, apresenta-se em pleno ritmo de trabalho, com numerosos turistas. Estamos em Paris. Dentro desta enorme sala, de 1200 metros quadrados encontra-se também uma grande árvore de Natal em alumÃnio, “Fraught Times, c’est une oeuvre d’art pendant onze mois de l’année et en décembre c’est Noelâ€, ( 2008) que difunde uma partição dos Monroe Transfer. Ao fundo estão algumas imagens de crianças com marionetas ou máscaras na cara. No tecto balões como os da banda desenhada assinalam pensamentos esparsos. Na entrada encontram-se letras luminosas que nos recordam a entrada de um cinema de quarteirão em Nova Iorque. Curiosa retrospectiva esta que evoca a morte de um dos mÃticos irmãos Kennedy, sobretudo no ano em que o presidente Barak Obama é o novo e polémico mito dos Estados Unidos. Poderemos dizer que esta exposição faz uma leitura cruzada do tempo e este é colhido, com um simbolismo pessoal para o seu autor. O filme em 70 mm, “8 June, 1968†( 2008) de Phillippe Parreno retrata a viagem póstuma do senador Robert Kennedy, o irmão mais novo de J.F.K., dois dias após a sua morte, de Nova Iorque a Washington D.C., sua cidade natal. Segundo o relato centenas de pessoas compareceram junto à linha de comboio para fazerem a última homenagem ao segundo malogrado da famÃlia Kennedy. A exposição é cadenciada pelo filme num loop de dez minutos. Pela abertura das cortinas ao exterior do Centro e pelos altifalantes espalhados pela sala podemos ouvir a cidade devido a microfones que captam os sons de fora. O diálogo estabelece-se entre o público e os transeuntes, reais e fictÃcios, entre personagens de um filme e pessoas normais que são por nós observadas dentro da redoma de uma sala de exposição. Philippe Parreno nasceu em 1964, em Oran na Algéria, fez os seus estudos entre Grenoble e Paris e começou a sua carreira artÃstica nos anos 90, com obras como “Welcome to Twin Peaks†(1990), “Facteur Temps†(1994) ou “Snowdancing†( 1995). Phillippe Parreno nunca ambicionou criar objectos, defende-se por vezes desta incapacidade pela sua alergia ao pó. A sua prática artÃstica centra-se na pós-produção como definiria Nicolas Bourriaud, nos fluxos e diálogos originados pela produção, criando obras multiformes que procuram explorar mais o tempo do que o espaço. Tal como na sua criação colectiva, “Il tempo del Postino†(2007), co-produção que desenvolveu com Pierre Huyghe ou Dominique Gonzalez Foerster, recriando o conceito de Vicinato criativo. Ambicionou mesmo criar uma escola dirigida por artistas um pouco na linha do Black Montain College nos Estados Unidos. Parreno é um artista que insere a sua prática nos resultados das sociedades de consumo como a americana ou japonesa que glosou com o projecto “No Ghost just a Shell†a partir de Ann Lee, personagem manga adquirido por si e por Pierre Huyghe, que foi emprestada a diversos artistas para recriar diversas histórias. Em 2006, realiza com Douglas Gordon, “Zidane, um retrto do século XXâ€, a minha obra preferida de Parreno, não esquecendo o ascendente de Douglas Gordon. Num campo de futebol, olhando para o rosto de um jogador, multiplicado em ecrãs gigantes (obra a ver no seu dispositivo de instalação e não no cinema) conseguimos abstrair-nos e pensar em toda a história cacofónica da sociedade de massas. Rauschenberg e Godard são dois dos personagens que percorreram o século e que servem de directa inspiração para algumas das suas criações artÃsticas. Philippe Parreno gostaria de se converter num personagem de ficção cientÃfica, mas glosa-se num hipotético coelho que dita as horas a Alice, como todas as crianças que insere nas suas exposições. No caso do Centre Pompidou paralelamente ao catálogo monográfico coordenado pela curadora Christine Macel, foi editado um livro infantil, “Parade?â€, sobre os monstros que povoam o imaginário do artista, com ilustrações de Johan Orlander. Não obstante ser bem conseguida esta obra total de Parreno, saio insatisfeita, tal como aconteceu em “Il Tempo del Postinoâ€. As referências são múltiplas e por vezes criam uma amnésia que apaga a própria noção de tempo que o autor procura dilatar. Would you like to be Einstein, Mr. Parreno ?
|
















