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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Mikael Levin, “Feira da Ladra, Lisboa”, 2004


Mikael Levin, “Alfama”, Lisboa, 2004


Mikael Levin, “Bissau. Baixa, Guiné-Bissau”, 2003


Mikael Levin, “Bairro Quelele. Casas de emigrantes, Guiné-Bissau”, 2003


Mikael Levin, “Imagem da rua, no antigo bairro judeu, Zgierz”, 2005


Mikael Levin, “Paragem do eléctrico para Lodz, no antigo bairro judeu, Zgierz”, 2005


Mikael Levin, “Mercado no centro da cidade, Zgierz”, 2005

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ARQUIVO:


MIKAEL LEVIN

A História de Cristina




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

31 AGO - 08 NOV 2009


O Museu Colecção Berardo tem o privilégio de existir num espaço generoso onde podem acontecer várias exposições em simultâneo, com ou sem ligação entre elas – sendo que a primeira é a hipótese que mais me agrada enquanto curadora mas também enquanto visitante. Neste artigo, vou falar apenas da exposição patente de 31 de Agosto a 8 de Novembro, o trabalho inédito em Portugal do fotógrafo franco-americano Mikael Levin (n. 1954, em Nova Iorque, viveu em Israel e em França), realizado entre 2003 e 2005 – “Cristina’s History” (A História de Cristina).

Na cave (piso -1) do Museu, “A História de Cristina” apresenta-se numa tentativa de contar a dita história pelo espaço. À primeira vista, parece tarefa fácil: paredes brancas, percursos que podem ser criados, ausência de personalidade do espaço, não colidindo com possíveis imagens (leia-se histórias). No entanto, confesso que me senti algo perdida na “História de Cristina”, contada por Mikael Levin, por imagens fotográficas mas também em movimento acompanhadas pela voz do artista, em francês.

“A História de Cristina” é contada numa instalação de três projecções correspondentes a três lugares onde as personagens existem: Zgierz (Polónia), Lisboa (Portugal) e Guiné-Bissau (África Ocidental). Nas salas dedicados à Polónia e a Guiné-Bissau, dois projectores estão montados no centro do espaço, encostados de costas um para o outro de modo a projectarem imagens em sentidos opostos. As imagens nunca estão fixas, os projectores insistem em rodar em torno de si próprios e as fotografias são apresentadas num movimento circundante, como, nas palavras de Mikael Levin, “luzes de um farol”. Assim, as imagens sucedem-se num ritmo ondulante e distorcido pela projecção no espaço, com as suas arestas de parede para parede. Na sala dedicada a Lisboa, três projectores, também no centro do espaço, projectam imagens alternadamente em cada uma das quatro paredes, mas desta vez, de um modo fixo. Cada ciclo demora cerca de quinze minutos e apresenta sessenta imagens, acompanhadas de uma voz, em narrativa, contada em francês pelo artista, Mikael Levin. Sendo a duração dos relatos mais curta do que aquela dos ciclos de projecção, as correspondências entre texto e imagens evoluem constantemente e criam-se várias possibilidades para interpretação.

Descrevo aqui o aspecto formal da exposição não só para descrever o que é possível ver mas essencialmente porque, apesar da confusão óbvia no espaço causada ao espectador, a forma nesta exposição é mesmo função. Ou, usando as palavras de Marshall McLuhan ao limite, “o meio é a mensagem”. “A História de Cristina” evoca a história feita de múltiplas pequenas histórias individuais e acontecimentos, duma parte da família de Mikael Levin, durante quatro gerações, da qual Cristina é descendente. Esta história desenrola-se desde meados do século XIX até aos nossos dias, com cruzamentos e acontecimentos inesperados, de Zgierz, na parte central da Polónia, passando por Lisboa e chegando até Guiné-Bissau. No espaço de circulação, que permite aceder às salas sem uma ordem obrigatória, encontram-se expostas trinta fotografias em molduras brancas, que misturam os três territórios sem cronologia, criando uma multiplicidade narrativa que é um dos objectivos do artista.

A cada um desses três lugares, fotografados entre 2003 e 2005, corresponde uma história que cruza a biografia das personagens e os acontecimentos históricos aos quais ela se encontra ligada. Como a trajectória de uma família judia através da história europeia moderna, numa viagem em que cada nova esperança se une com uma invariável decepção, “A História de Cristina” desafia a ideia de progresso contínuo num tom claramente não linear. Por essa razão, não há nela lugar para a nostalgia e ainda menos para a afirmação de uma identidade judaica. Pelo contrário, esta história atesta a possibilidade de se inventar a personalidade individual a partir de uma tradição colectiva.

“Encontrei Cristina da Silva-Schwarz em 2003, na Guiné-Bissau.” – conta Mikael Levin. Este é o mote para esta história sobre uma família judia que passou, em quatro gerações marcadas pela dispersão e migrações, por diferentes países e continentes. A relação entre o próximo e o longínquo é cara e também o centro da narrativa de Mikael Levin.

Apesar da relação óbvia da apresentação rotativa, com distorções, com a História e as histórias pessoais desta família, também repleta de uma riqueza de ciclos, momentos confusos mas sempre nítidos, parece-me desnecessária esta apresentação que causa mais confusão do que fortalece a mensagem. A História e as histórias contadas são, sem dúvida, interessantes. As imagens são, também sem dúvida, ricas em detalhe atento (a imagem da Feira da Ladra, em Lisboa, onde uma “Bíblia de Jerusalém” se apresenta no canto superior esquerdo da fotografia) e clareza. A dúvida é se precisamos de artifícios para ler uma história rica em imagens, sons e memórias. Mikael Levin escolheu levar a máxima de McLuhan, “o meio é a mensagem”, ao extremo. Como espectadora da “A História de Cristina”, preferia que a máxima aplicada fosse a do arquitecto Ludwig Mies van der Rohe, “less is more”.


Luísa Santos