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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Dan Graham, “Homes for Americaâ€, 1966–67. Detalhe. 35 mm slides e projector de carrossel dimensões variáveis. Cortesia do artista e de Marian Goodman Gallery, Nova Iorque e Paris


Dan Graham, “Homes for Americaâ€, 1966–67. Detalhe. 35 mm slides e projector de carrossel dimensões variáveis. Cortesia do artista e de Marian Goodman Gallery, Nova Iorque e Paris


Vista da exposição “Dan Graham: Beyond†no The Museum of Contemporary Art, Los Angeles (MOCA), 2009. Fotografia: Brian Forrest


Dan Graham, “Performer/Audience/Mirror†no P.S.1 Institute for Contemporary Art, Long Island City, NY, 1977. Fotografia: cortesia do artista


Dan Graham, still de “Rock My Religionâ€, 1982–84. Vídeo, preto-e-branco e cor, som, 55:27 min., Whitney Museum of American Art, adquirido com fundos do Film and Video Committee, 2000.170. Imagem: cort


Dan Graham, “Skateboard Pavilionâ€, 1989. Estrutura arquitectónica, espelho bidireccional, alumínio escovado, aço, madeira, graffiti, 55 x 57 x 51 3/8 in. Cortesia Marian Goodman Gallery, Nova Iorque e


Dan Graham, “Two-Way Mirror Triangle with One Curved Sideâ€, 1996. Espelho bidireccional e aço inoxidável. Instalação permanente, Lofoten islands, Norway, 99 x 118 in. Colecção VÃ¥gan County, Noruega

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ARQUIVO:


DAN GRAHAM

Beyond




WHITNEY MUSEUM OF AMERICAN ART
99 Gansevoort Street
New York, NY 10014

25 JUN - 11 OUT 2009

Para além do subúrbio

Apresentado como o “blockbuster†de Verão pelo Whitney Museum, “Beyond†não desilude aqueles que esperavam a oportunidade de ver naquele espaço uma mostra retrospectiva da obra de Dan Graham. A exposição – patente apenas no 4º andar do museu desenrola-se de forma não linear, demonstrando a actualidade e intemporalidade do corpo de trabalho do artista... ou em última análise o recurso inerente às limitações do próprio espaço museológico.

A obra de Graham revela-se complexa e densa. Em parte pelo carácter experimental em que trabalha várias formas de expressão e meios – ora com uma aproximação mais popular, ora com uma base mais abstracta e conceptual (racional, matemática e diria mesmo científica).

O “subúrbioâ€, o modelo de organização residencial que se impôs nos Estados Unidos durante o período pós II Guerra Mundial é o “laboratório†de Graham e encontra-se omnipresente na sua obra. Em perspectiva e de um ponto de vista generalizado à luz dos nossos dias, o trabalho deste artista é quase um estudo ou observação empírica da geração “Baby Boomer†norte-americana. Um documento que descreve a vida de uma geração surgida da classe média emergente e que alimentou várias subculturas. Não é de estranhar, portanto, que a exposição comece por “Homes for America†e não se preste total atenção às várias peças que se distribuem de forma entrópica pela sala principal do piso do Whitney.

Uma projecção de slides apresenta várias notas fotográficas reunidas por Graham entre 1966 e 1967, de várias cidades-subúrbio (fortemente industrializadas) de Nova Jérsia, como Bayonne e Jersey City, por exemplo. Para além da captura de vários detalhes do subúrbio, como o aparecimento de habitações geminadas, a reunião da família em dinners à beira da estrada (os pioneiros do que mais tarde viriam a ser as cadeias de fast-food); este trabalho de Graham é também apresentado em formato de cartaz (com a intenção de ser publicado numa revista). O cartaz é composto por várias dessas imagens, alternadas com pequenos excertos de texto, onde Graham discorre sobre a organização do espaço desde a descrição dos vários modelos de casas pré-fabricadas (“tract housesâ€) disponíveis, assim como as cores passíveis de ser escolhidas; intercalando entre uma análise qualitativa da distribuição das preferências destas opções por ambos os sexos, até culminar numa reflexão das combinações possíveis com as variáveis “modelo de casa†e “cor†– utilizando para isso princípios de análise (matemática) combinatória. O trabalho revela assim a intensidade das várias fases do processo de pesquisa e reflexão de Graham sobre o seu “objecto de estudoâ€. A sua aproximação quase matemática apresentada enquanto estudo de combinação de padrões denúncia também alguma proximidade conceptual com o trabalho de Donald Judd e Sol LeWitt (lembrando por exemplo, deste último, a peça “Drawing Series – Composite, Part 1–IV, #1–24 A + Bâ€, que pode ser actualmente visitado no Dia:Beacon, no Estado de Nova Iorque).

Na mesma pequena sala encontra-se ainda “Project for Slide Projectorâ€, trabalho que também tem por base imagens de slide criadas entre 1966 e 2005 e que é um conjunto maior das imagens que compõem “Homes for Americaâ€. Talvez por isso, e devido à proximidade física que tem desse trabalho, “Project for Slide Projector†perde a sua força.

Numa sala interior e contígua, mas onde é difícil fazer a ligação com os trabalhos referidos encontra-se um pequeno modelo – “Cinemaâ€, onde Graham, através de um sistema de vidros semi-espelhados explora a relação entre os espaços interior e exterior, numa sala de cinema com características especiais: o vidro semi-espelhado permite aos transeuntes ver o filme sem som e invertido horizontalmente durante a projecção do mesmo; e ver a plateia, quando o filme não está a ser passado. Este modelo apresenta-se enquanto simulação de uma proposta para um cinema de um edifício de escritórios, não havendo nenhuma informação relativa à sua efectiva implementação. Voltamos à sala principal, onde modelos-arquitectónicos-maquetes se misturam com modelos-arquitectónicos-escultura. O espaço é dominado por três modelos-escultura, como “Project for Argonne†e “Triangle Solid with Circular Insertâ€, embora o mais interessante seja “Three Linked Cubes – Interior Design for Space Showing Videosâ€.

Se os dois primeiros parecem apenas e inicialmente revelar experiências-jogo com o material vidro nas suas diversas variantes: transparente, opaco, espelhado e semi-espelhado; já este último modelo-escultura combina o jogo evidente dessas várias formas do material com uma procura na percepção do indivíduo relativamente ao colectivo e vice-versa. Segundo afirma Dan Graham: “I think museums are great places. I realized that a museum could be a social space and I fell in love with the empty lobbies, the gift shop, coffee shop, areas where people could relax. So I did work like ‹Three Linked Cubes/Interior Design for Space Showing Videos›, 1986, where teenagers could lie on the floor. I think what I did was to discover the tradition of the museum instead of pursuing the stupid idea of Institutional Critiqueâ€. Mais do que um jogo de ver, ser visto ou estar protegido (ou na falsa ideia de estar protegido por uma parede de vidro espelhada), Graham demonstra uma preocupação sobre outro dos usos dos não-espaços do museu, enquanto geradores de formas de socialização. Esta aproximação não causa espanto, quando se pode considerar o próprio subúrbio como um não-espaço, urbano. Não se entende portanto a separação entre este espaço-peça, com a vídeo performance “Performer/Audience/Mirrorâ€, projectada numa pequena sala à parte. No entanto torna-se menos estranha a proximidade com o modelo-maquete, “Alteration to Suburban Houseâ€, onde Graham fazendo um uso literal do elemento mínimo do subúrbio – a casa pré-fabricada, altera-a, tornando esta questão evidente.

A procura das funções sociais dos não-espaços está ainda patente no projecto “Children’s Pavilion†(desenvolvido em colaboração com Jeff Wall sendo representado por um modelo-maquete) ou num trabalho com um carácter mais sociológico, como o vídeo “Minor Threatâ€, onde Graham assume o seu lado de documentarista filmando um produto de uma subcultura, neste caso o concerto da banda punk hardcore, Minor Threat, no desaparecido CBGB, em Nova Iorque. No vídeo é perceptível o tipo de audiência desta banda, que Graham identifica como igualmente “filhos do subúrbio†(os produtores e destinatários): uma audiência “jovem, violenta e brancaâ€.

Esta exposição mostra ainda o mais célebre filme de Dan Graham, “Rock My Religionâ€. Este filme-documento criado durante a mesma altura do anterior (e que tem algumas imagens desse outro vídeo) faz a analogia entre a música rock e os costumes religiosos da comunidade Shaker, que no passado foi uma das mais importantes comunidades religiosas da Costa Leste dos Estados Unidos. A analogia, vai uma vez mais para além do simples dar voz aos adolescentes americanos dos anos 80, através da música da sua preferência, procurando pela música e outros meios de comunicação populares (como a TV, sem dúvida) analisar as relações complexas, que medeiam a produção de arte com o seu consumo. De novo, nota-se a identificação desta análise sociológica, com a organização urbana deste período – o subúrbio. À promessa da vida pacata entre o campo com o seu grande espaço relvado e a garagem para os dois carros, longe das problemáticas cidades com os seus pequenos apartamentos, Graham mostra um outro lado dos efeitos do suburbanismo: o da juventude destes não-espaços urbanos, que se gere por relações tribais, com algum carácter violento e carregado de frustração.

Também não é por acaso que o artista tem em exposição “Skateboard Pavilionâ€, de 1989, um outro modelo-maquete de uma “pool†coberta, que mostra alguma conivência e identificação com essa mesma juventude suburbana, de onde ele é igualmente originário.

Ainda que seja fácil ao visitante perder-se pelas várias referências às culturas mais populares, Graham lembra a sua legitimidade para estar no Whitney, associando o seu nome a outros artistas e arquitectos que diz admirar – como Donald Judd, Sol LeWitt e Bruce Nauman. “Artists’ and architects’ works that influenced meâ€, peça recente de Graham (de 2009) é uma projecção que reúne vários trabalhos de artistas e arquitectos, em conjunto com uma justificação escrita, mais uma vez em formato de cartaz, onde Graham expressa a sua admiração por esses criadores.

A exposição continua por outras salas, mas dada a referida complexidade e densidade da obra deste artista; em conjunto com o “peso†do próprio espaço museológico torna-se difícil seguir algum fio condutor, não se entendendo muito bem algumas das opções feitas pela equipa de curadores. Na realidade não existe um, mas vários fios condutores. Ainda que pudessem ser facilmente identificáveis devido a uma base comum (o subúrbio), tornam ainda mais evidente o carácter caótico (ou dir-se-ia experimental) da diversidade da obra deste artista.

“Body Pressâ€, por exemplo, é mostrado numa sala contígua à que exibe o(s) trabalho(s) escrito(s) e conceptual(ais) mais emblemáticos da obra de Graham, “Schemaâ€, não havendo uma relação directa entre eles; que poderia ser mais facilmente atingível com outros trabalhos igualmente em vídeo, como por exemplo, “Opposing Mirrors and Video Monitors on Time Delayâ€, que se encontra noutra sala completamente distinta.

A exposição é uma oportunidade quase única para se apreciar a obra deste artista, mas no entanto, a organização do espaço e a disposição das obras não é de facto a melhor, sentindo-se uma certa ausência de diálogo mais inclusivo entre a obra e o espectador. Pelo contrário, a forma como os trabalhos estão dispostos amplifica ainda mais o caos que está intrinsecamente presente na obra de Graham e que não sendo exactamente o mesmo do modelo residencial (eficientemente organizado por motivos económicos) em que se baseia, o da urbanização suburbana, vem a ser o seu produto social.

Paralelamente à exposição, o Whitney organizou a partir do mês de Julho alguns concertos, demonstrações de skate, projecção de filmes e conversas (uma com Dan Graham), numa tentativa de adicionar uma mais-valia ao projecto do MOCA (Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles), instituição museológica que pensou originalmente esta retrospectiva. No entanto, não se entende se foi essa transferência de recursos humanos e financeiros para essas actividades extra-exposição (às quais não quero retirar importância), que acabou por desviar a atenção dos curadores para o lado mais permanente da obra.


Pedro dos Reis