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André Guedes, "Olimpo"

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ANDRÉ GUEDES

Olimpo




MAD WOMAN IN THE ATTIC
Rua Alves Redol, 407, 5º Dto
4050-043 PORTO

13 MAI - 04 JUN 2006

Olimpo in the Attic?

O alto e o baixo. O alto, segundo a configuração religiosa, foi definido na pintura como o lugar das citações transcendentais e, o baixo, como o lugar da performance humana. No alto está o céu, no baixo a terra, as vísceras, a realidade próxima. A idealidade, como entidade de controlo, habitava num lugar inacessível ao homem-comum e editava uma matriz que o sobrepunha. O sótão é o sítio no alto de um edifício, no entanto, é um sítio subversivo: não é lugar de eminência, mas antes lugar do resíduo, esconderijo moderno, cave num alto. O espaço “Mad Woman in the Attic”, comissariado pelo artista André Sousa, é mesmo um sótão/arrecadação de um prédio habitacional que enclausura temporariamente uma entidade artística. O último convidado foi André Guedes, que apresenta “Olimpo” até 4 de Junho.

É referência deste espaço a expectativa, a convocação ao alto, no convite antecipado ao topo do prédio onde se guardam amálgamas. Os visitantes esperam na confraternização habitual do apartamento: come-se, bebe-se, ri-se, conversa-se, perto dos prazeres terrenos antes de se experienciar esse outro espaço. É também aqui que se inicia o trabalho de André Guedes confrontando-nos com um texto e um cartaz/desenho pouco elucidativos, que conscientemente silenciam o episódio. Desta vez subimos de elevador até ao sétimo piso e foi-nos entregue as chaves da arrecadação: uma para abrir a porta conjunta, a outra para abrir os arrumos restritos ao 5º D. Mais uma vez o trabalho do artista pede a participação do espectador, pede o olhar ampliado ao corpo: “Ver é abertura, é estar atento e receptivo com o corpo todo ao mais ínfimo e/ou evidente elemento ou acontecimento”, escreveu Nuno Faria sobre a “amplitude semântica do ver” na obra de André Guedes. Este projecto exige desde logo atenção estética no reiterado lugar de convívio. Dirige-se ao pormenor, às “pontas que se deixam soltas” que perpetuam a expectativa: a transposição de árvores e plantas esquecidas, no caso da intervenção do artista no Museu de Serralves, de naturezas mortas, e referências que se entendem de arrecadação, neste caso, déjà vu, sobretudo, por manterem ainda a memória do seu desígnio inicial. O domínio é o da re-criação, sublinhando uma expressão do autor.

Não vou contar o que se passa naquele sótão, não podemos retirar da obra o que lhe pertence em exclusivo, o acontecimento. André Guedes ironiza o espaço do Olimpo e aproveitando a configuração do sótão, devolve a medida humana à transcendência, sendo que, o acontecimento se actualiza no corpo, no vivido. Receber o Olimpo como deve ser, num alto, mas no exacto sítio onde o “lixo”, o indesejável, as memórias residem. E isso é o mesmo que dizer: hoje o alto não confere referências, pode bem ser um lugar convertido em albergue de um outro abstracto. Para Sísifo, o alto era o eterno esforço, o alto não era nada e, por mais que entregasse a pedra, ela cairia no baixo para de novo ser trazida ao alto. Motivo de uma profunda decepção com as referências e os modelos — religiosos, modernos- —, aquele espaço foi de certo habitado, não por uma divindade, mas por uma espécie de plano virtual que prolonga a realidade, isto se pensarmos o virtual como um pano impresso que coincide com cada ponto da realidade. O abstracto é isto: o banal, o depósito de coisas, o medo do outro, a violência, etc. Mais do que sótão mental necessariamente composto, este trabalho é um virtual consciente.

Assim como fez o autor, deixo as chaves como pistas, o acontecimento como obra.



Fontes:
FARIA, Nuno, “O óbvio e o obtuso — ideias quase soltas sobre o apagamento”in “Outras árvores, outro interruptor, outro fumador e uma peça preparada”: Catálogo da exposição de André Guedes no Museu de Arte Contemporânea de Serralves.










Aida Castro