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JOÃO LOUROThe HustlerCAV - CENTRO DE ARTES VISUAIS Pátio da Inquisição 10 3001-221 Coimbra 21 NOV - 28 FEV 2010 O Diabo espreita a cada esquina. O que não é necessariamente mau. À entrada do Centro de Artes Visuais, João Louro (n. 1963) expõe, em néon vermelho, a palavra tridimensional “Diablo”, directamente saída do universo do jogo de Las Vegas. È neste universo que o artista nos convida a entrar. Bem-vindos ao casino. A curadoria é de Albano da Silva Pereira e de Miguel Amado. “The Hustler” é igualmente o título do filme de Robert Rossen (1961), no qual o “pool player”, Eddie Felson/“Fast Eddie” – interpretado por Paul Newman –, pretende vencer o imbatível “Minnesota Fats” – Jackie Gleason –, a troco de glória e de um bom punhado de notas. Newman representa um “gambling man” obstinado com a vitória, porque só esta o faz sentir vivo. Nos trabalhos “Subtitles (The Hustler)”, João Louro apresenta precisamente diálogos – que funcionam como citações – do filme sobre um fundo negro, isto é, legendas ironicamente sem imagens para legendar. Tanto no filme como na exposição somos envolvidos por um universo masculino, directo, competitivo, cru e astucioso. Não quer dizer que as mulheres não joguem, mas não neste universo, não deste modo. Quase se pode ouvir alguém oferecer: “Wanna drink? Wanna girl?” E o clássico conjunto ficaria assim completo: jogo, bebida e mulheres. Aliás, “Hustler” é também o nome de uma conhecida revista masculina norte-americana. O universo do jogo é aproximado ao universo cinematográfico, não apenas na exposição em questão, mas no nosso próprio imaginário colectivo. Este imaginário da cultura “pop” contemporânea é, de resto, uma constante na obra de João Louro, tratado muitas vezes de modo insólito. Em “Blind image # 166” – um “still from a film”, aqui em branco, sem imagem, delimitado conceptualmente na parede –, surge reproduzido um diálogo de um outro filme sobre a arte de jogar, “The Cincinnati Kid” (1965), realizado por Norman Jewison, tendo como protagonista Steve McQueen. A história repete-se. O jogador de “poker” mais jovem e ambicioso – Eric Stoner /“The Kid" – procura destronar o jogador veterano – Lancey Howard /“The Man” – Edward G. Robinson. E repare-se na dicotomia “The Kid” e “The Man”. Na legenda da peça em causa da exposição, Howard nota precisamente esta dicotomia com uma “memorable quote”: “Like life, I guess. You’re good, Kid, but as long as I’m around you’re second best. You might as well learn live with it”. Dramático, de facto. No jogo é suposto ganhar, testar os limites e superá-los. Um verdadeiro jogador joga para a vitória. No “poker”, importa ter a melhor “mão” ou fazer “bluff”. Os jogos de cartas aparecem representados de diversas maneiras nesta mostra. A primeira peça que nos é ostensivamente exibida é justamente os quatro ases do baralho de cartas, com o título directo “Hearts, Spades, Diamonds, Clubs” – com o pormenor de um “B” inscrito no interior do coração negro de espadas. Mas também somos confrontados com cartas perfuradas por balas no lugar supostamente correspondente ao coração humano – de facto, nem sempre as coisas correm bem… –, ou ainda com um castelo de cartas colocado sobre uma mesa de jogo invertida. João Louro assume-se como um “metteur en scène”, que recria, de modo consideravelmente depurado, ícones provenientes de um mundo imagético e conceptual, o qual acreditamos já ter, de algum modo, vivenciado, independentemente de ter, na realidade, acontecido. E este aspecto torna-se, de certo modo, emblemático.
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