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EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Fonte Santa, “Un de ces longs bras se glissa par l’ouverture”. Acrílico sobre tela. 190 x 146 cm


Vista geral da exposição


João Fonte Santa, “Und wer’s nie gekonnt der stehle weinend sich aus dem bund”, 2006. Acrílico sobre tela. 190 x 230 cm


João Fonte Santa, “Und wer’s mie gekonnt der stehle seinend sich aus dem bund #2”, 2008. Acrílico sobre tela. 230 x 160 cm


Vista da exposição

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JOÃO FONTE SANTA

Pintura para uma nova sociedade




MUSEU DO NEO-REALISMO
Rua Alves Redol, nº 45
2600-099 Vila Franca de Xira

19 NOV - 31 JAN 2010


Explorar como Marlon Brando (o Coronel Kurtz do Coração das Trevas de Joseph Conrad e em Apocalipse Now de Francis Ford Coppola) os espaços em branco num mapa, chamá-lo sociedade e preencher-lhe os interstícios com pintura cromada em vez de napalm foi a aventura encetada nos últimos anos por João Fonte Santa. Fazer e ouvir história, a partir de e contida nesse conjunto de trabalhos, como aquela que os Sex Pistols fizeram e apenas quarenta e duas pessoas testemunharam na “Madchester” de 1976, foi a tarefa que o Museu do Neo-Realismo soube, à escala de Vila Franca de Xira, invocar e cumprir com a exposição “Pintura para uma nova sociedade”, a única individual institucional e a mais importante do percurso artístico de Fonte Santa.

Inserida em “The return of the real”, o ciclo de exposições de Arte Contemporânea comissariado por David Santos, a série de trabalhos de João Fonte Santa propõe um historicismo figurativo alternativo que, numa análise subversiva, anula a preponderância cronológica do Museu que a recebe. A nostalgia, longínqua e ficcional, da sua estrutura conceptual defende um olhar muito mais recuado que os anos 40, 50 ou mesmo 60, e protagoniza uma ultrapassagem, em salto divergente, desses períodos históricos. É ao século XIX que o conjunto das pinturas se abre no final da primeira década do século XXI. Ucrónica, a obra de João Fonte Santa especula: e se o século XX nunca tivesse existido?

O steampunk é o ambiente literário referencial da obra de Fonte Santa, confirmado, por exemplo, na apropriação imagética de ilustrações das obras Vinte Mil Léguas Submarinas (1870) e Dois anos de férias (1888) de Júlio Verne, um dos pioneiros da ficção científica. Postula que o desenvolvimento das soluções tecnológicas modernas fundamentais, como sejam o computador, o carro ou o avião, ou as grandes transformações políticas e económicas que se vieram entretanto a verificar, detinham já, muito embora avançados e cerzidos em meios evidentemente diferentes, a maturidade filosófica e processual que apresentam hoje, não obstante a realidade socioeconómica diferentemente vivida. Decorre, em género, do cyberpunk, em relação ao qual mantém a linhagem e o carácter anti-autoritário, mas pretere a complexidade da cibernética às conquistas do vapor.

Coerente com o seu enquadramento científico e temporal, corpus materializado em fichas de madeira, alavancas, rodas dentadas ou outras tecnologias e instrumentos de época, o trabalho de João Fonte Santa é mecânico, fabril, virtuosista e lento. Contraria a imediatez e urgências contemporâneas com a paciência, o rigor micro-especialista e a fisicalidade do trabalho. Delineia uma utopia conspirativa e fantasista que acolhe programaticamente a ideia (e a imagem) da viagem ao passado para nele intervir de forma a anular a possibilidade da ocorrência trágica do futuro presente.

A exposição é composta por oito telas prateadas e cromadas, de grandes dimensões, que espelham e reflectem, por contaminação cromática voluntária, a cor de cobre aplicada, em máxima saturação, às paredes. A actualização, através da aplicação do cromado, da tecnologia da gravura inibe-lhe, paradoxalmente, a sua reprodutibilidade intrínseca, considerando o excessivo espelhamento decorrente da qualidade expressiva da tinta. O conjunto encontra-se confortável, como não podia deixar de ser, numa despretensiosa encenação salonística. O conjunto é completado por um black vídeo funcional que apresenta o registo áudio de “Como vender a história do Capitalismo”, texto retirado às Capital Rules de Noam Chomsky, traduzido pelo próprio João Fonte Santa após a sua incorporação, simultaneamente teórica, linguística e musical, no arquivo revisitável do projecto manifesto que aqui se encerra, quatro anos depois.


Lígia Afonso