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EXPOSIÇÕES ATUAIS

S.N.Pathé Cinéma - Gray Film / ident" data-lightbox="image-1">
Anita Ekberg e Marcello Mastroianni, La Dolce Vita, 1960. Fotografia de cena. Collection Fondation Jérôme Seydoux-Pathé. © 1960 La Dolce Vita - Riama Film - S.N.Pathé Cinéma - Gray Film / ident


Anita Ekberg, La Dolce Vita,1960. Fotografia de cena. Collection Christoph Schifferli, Zurich, DR


Desenho de Federico Fellini – Sonho do dia 1de Abril, 1975. Livre des Rêves. © Fondazione Federico Fellini, Rimini


Federico Fellini, 8 ½,1963. Fotografia de cena de Tazio Secchiaroli. © David Secchiaroli


Anita Ekberg e Marcello Mastroianni, Intervista, 1987 Fotografia de cena. Collection Fondation Fellini pour le Cinéma, Sion, DR


Federico Fellini. Março de 1955. Colecção particular, DR

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ARQUIVO:


FEDERICO FELLINI

Fellini, la Grande Parade




JEU DE PAUME (CONCORDE)
1, place de la Concorde
75008 Paris

20 OUT - 17 JAN 2010


L’engagement, à mon avis, empêche le développement de l’individu. Mon “antifascisme†est d’ordre biologique. Je ne pourrai jamais oublier l’isolement dans lequel l’Italie a été enfermé pendant vingt ans. Aujourd’hui j’éprouve une profonde aversion – et sur ce point je suis même très vulnérable – pour toutes les idées qui peuvent se traduire en formules. Je me suis engagé dans le désengagement.

Federico Fellini, Fellini par lui-même, Collection L’ARC, Librairie Duponchelle, Paris, 1990



“Fellini, la Grande Parade†é a mais recente exposição realizada sobre um dos maiores cineastas do século XX. Uma vasta exposição que ocupa os dois andares das galerias do Jeu de Paume, em Paris, e apresenta cerca de 400 documentos e 30 extractos de filmes. Foi realizada no âmbito das comemorações dos 50 anos do filme La Dolce Vita entre outros eventos promovidos nesse sentido pela Cinemateca Francesa. É também a mais recente tentativa de “fazer entrar o cinema no museuâ€, após a colectiva “Le Movement des Images†no Centre Pompidou (2006), ou de “Manoel de Oliveira†no Museu de Serralves (2008) e a par de iniciativas como o convite feito a Pedro Costa (não aceite) para representar Portugal na Bienal de Artes Visuais de Veneza de 2009. Todas estas diferentes experiências se subordinam ao mesmo princípio museográfico: tentar capturar o cinema fora da sala escura e mostrá-lo numa vitrina.

Neste caso, e sob a curadoria de Sam Stourdzé, recentemente nomeado curador do Musée de l’Elisée pour la Photographie em Lausanne, (Suíça), o exercício é feito de forma nostálgica, sentimentalista e sem rasgos de grande imaginação. Nela são realçados todos os clichés normalmente atribuídos ao cineasta italiano: inventor do termo paparazzi, cantor da mulher polimorfa, exímio caricaturista, criador inspirado por uma cultura de raiz popular. Contrariamente às recentes exposições dedicadas às “outras artes†de cineastas reconhecidos como David Lynch (na Fundação Cartier em 2008), aqui não se focaliza a “outra arte†de Fellini que é o desenho; e apesar de ter sido dado algum relevo aos seus desenhos e fotografias, a exposição centra-se no universo que circunda os filmes de uma forma temática.

As secções que normalmente integram este género de incursão através da obra de um autor, neste caso, cineasta são:
- Filmes, em curtos extractos para dar a conhecer a obra;
- Material de pesquisa do cineasta, fotografias de filmagens;
- Documentação de época: jornais, revistas, registos audiovisuais.
Aqui não fugimos à regra sendo a surpresa ver, na sua integralidade, todos os anúncios publicitários que Fellini realizou para a televisão, entre “pasta Barilla†e a Banca de Roma e os seu magníficos cadernos de desenho de sonhos. Porque ainda que Fellini se tenha formado sob o neo-realismo cinematográfico italiano, sendo assistente em filmes de Roberto Rossellini), no seu cinema, o sonho (descobriu as teorias de Jung nos anos 60) e o surrealismo que ele transporta são inerentes à obra.

No paradigmático 8 ½ (1963) o realizador coloca em questão a sua própria carreira cinematográfica e o que irá fazer após o filme que marcou decisivamente a sua viragem artística – La Dolce Vita (1959) – e nele existe uma irrefutável continuidade entre sonho e realidade, em geral nos seus filmes não conseguimos separar a realidade da potência onírica que os anima. Outro elemento é o aspecto carnal, que é mais complexo que uma simples demonstração de que Fellini amava as mulheres – gordas ou magras, prostitutas ou “santas mães de família†– como é um pouco revisto o tema nesta mostra.

Fellini viu a sociedade que Pasolini previu que se iria perder com a voracidade do capitalismo emergente em Itália mas viu-a partir ao som de uma orquestra como no O Navio (1983). Na exposição, porém, permanece invisível o contributo de Fellini ao Cinema e à Itália do seu tempo, uma Itália, que em cada “casting†dos seus filmes, afluía em peso à Cinecittà.

A sua visão de Itália é tudo menos a-política, e são disso exemplo filmes como Satyricon (1969), onde revê a fundação da própria sociedade romana, e esta origem ou mito original não tem nada de grandioso, é uma fundação que se aproxima mais da decadência. Os seus filmes possuem esta vertente arqueológica que permite demonstrar a efemeridade do estado das coisas, que o que se sonha tal como a ordem numa sociedade é equivalente a uma desordem que ignoramos. O circo é o grande paradigma de Fellini pois permite ver em simultâneo o espectáculo e os seus bastidores. Podemos sempre rever a passagem de modelos de moda para os prelados do Vaticano. Há uma melancolia alegre em toda a obra de Fellini.

A outra questão que aqui surge é de ordem curatorial:
– Se o cinema é a sétima arte, porque será necessário expô-lo como tal num museu?
Será o cinema hoje a arte necrófila por excelência, um artefacto anacrónico?

O cinema vive ainda hoje, mesmo na Itália berlusconiana com cineastas como Nanni Moretti ou o magnífico Marco Bellocchio. Porém, é verdade que para as gerações mais jovens o cinema de autores como Fellini é desconhecido, e talvez a sala de exposição tenha esta virtude pedagógica de dar vontade de ver os filmes e conhecer a obra.

Vale a pena continuar a pesquisa curatorial na área cinematográfica, mas com exposições e experiências mais inventivas do que a conseguida nesta parada popular dedicada ao autor da Voz da Lua (1990).


Sílvia Guerra