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FEDERICO FELLINIFellini, la Grande ParadeJEU DE PAUME (CONCORDE) 1, place de la Concorde 75008 Paris 20 OUT - 17 JAN 2010 L’engagement, à mon avis, empêche le développement de l’individu. Mon “antifascisme†est d’ordre biologique. Je ne pourrai jamais oublier l’isolement dans lequel l’Italie a été enfermé pendant vingt ans. Aujourd’hui j’éprouve une profonde aversion – et sur ce point je suis même très vulnérable – pour toutes les idées qui peuvent se traduire en formules. Je me suis engagé dans le désengagement. Federico Fellini, Fellini par lui-même, Collection L’ARC, Librairie Duponchelle, Paris, 1990 “Fellini, la Grande Parade†é a mais recente exposição realizada sobre um dos maiores cineastas do século XX. Uma vasta exposição que ocupa os dois andares das galerias do Jeu de Paume, em Paris, e apresenta cerca de 400 documentos e 30 extractos de filmes. Foi realizada no âmbito das comemorações dos 50 anos do filme La Dolce Vita entre outros eventos promovidos nesse sentido pela Cinemateca Francesa. É também a mais recente tentativa de “fazer entrar o cinema no museuâ€, após a colectiva “Le Movement des Images†no Centre Pompidou (2006), ou de “Manoel de Oliveira†no Museu de Serralves (2008) e a par de iniciativas como o convite feito a Pedro Costa (não aceite) para representar Portugal na Bienal de Artes Visuais de Veneza de 2009. Todas estas diferentes experiências se subordinam ao mesmo princÃpio museográfico: tentar capturar o cinema fora da sala escura e mostrá-lo numa vitrina. Neste caso, e sob a curadoria de Sam Stourdzé, recentemente nomeado curador do Musée de l’Elisée pour la Photographie em Lausanne, (SuÃça), o exercÃcio é feito de forma nostálgica, sentimentalista e sem rasgos de grande imaginação. Nela são realçados todos os clichés normalmente atribuÃdos ao cineasta italiano: inventor do termo paparazzi, cantor da mulher polimorfa, exÃmio caricaturista, criador inspirado por uma cultura de raiz popular. Contrariamente à s recentes exposições dedicadas à s “outras artes†de cineastas reconhecidos como David Lynch (na Fundação Cartier em 2008), aqui não se focaliza a “outra arte†de Fellini que é o desenho; e apesar de ter sido dado algum relevo aos seus desenhos e fotografias, a exposição centra-se no universo que circunda os filmes de uma forma temática. As secções que normalmente integram este género de incursão através da obra de um autor, neste caso, cineasta são: - Filmes, em curtos extractos para dar a conhecer a obra; - Material de pesquisa do cineasta, fotografias de filmagens; - Documentação de época: jornais, revistas, registos audiovisuais. Aqui não fugimos à regra sendo a surpresa ver, na sua integralidade, todos os anúncios publicitários que Fellini realizou para a televisão, entre “pasta Barilla†e a Banca de Roma e os seu magnÃficos cadernos de desenho de sonhos. Porque ainda que Fellini se tenha formado sob o neo-realismo cinematográfico italiano, sendo assistente em filmes de Roberto Rossellini), no seu cinema, o sonho (descobriu as teorias de Jung nos anos 60) e o surrealismo que ele transporta são inerentes à obra. No paradigmático 8 ½ (1963) o realizador coloca em questão a sua própria carreira cinematográfica e o que irá fazer após o filme que marcou decisivamente a sua viragem artÃstica – La Dolce Vita (1959) – e nele existe uma irrefutável continuidade entre sonho e realidade, em geral nos seus filmes não conseguimos separar a realidade da potência onÃrica que os anima. Outro elemento é o aspecto carnal, que é mais complexo que uma simples demonstração de que Fellini amava as mulheres – gordas ou magras, prostitutas ou “santas mães de famÃlia†– como é um pouco revisto o tema nesta mostra. Fellini viu a sociedade que Pasolini previu que se iria perder com a voracidade do capitalismo emergente em Itália mas viu-a partir ao som de uma orquestra como no O Navio (1983). Na exposição, porém, permanece invisÃvel o contributo de Fellini ao Cinema e à Itália do seu tempo, uma Itália, que em cada “casting†dos seus filmes, afluÃa em peso à Cinecittà . A sua visão de Itália é tudo menos a-polÃtica, e são disso exemplo filmes como Satyricon (1969), onde revê a fundação da própria sociedade romana, e esta origem ou mito original não tem nada de grandioso, é uma fundação que se aproxima mais da decadência. Os seus filmes possuem esta vertente arqueológica que permite demonstrar a efemeridade do estado das coisas, que o que se sonha tal como a ordem numa sociedade é equivalente a uma desordem que ignoramos. O circo é o grande paradigma de Fellini pois permite ver em simultâneo o espectáculo e os seus bastidores. Podemos sempre rever a passagem de modelos de moda para os prelados do Vaticano. Há uma melancolia alegre em toda a obra de Fellini. A outra questão que aqui surge é de ordem curatorial: – Se o cinema é a sétima arte, porque será necessário expô-lo como tal num museu? Será o cinema hoje a arte necrófila por excelência, um artefacto anacrónico? O cinema vive ainda hoje, mesmo na Itália berlusconiana com cineastas como Nanni Moretti ou o magnÃfico Marco Bellocchio. Porém, é verdade que para as gerações mais jovens o cinema de autores como Fellini é desconhecido, e talvez a sala de exposição tenha esta virtude pedagógica de dar vontade de ver os filmes e conhecer a obra. Vale a pena continuar a pesquisa curatorial na área cinematográfica, mas com exposições e experiências mais inventivas do que a conseguida nesta parada popular dedicada ao autor da Voz da Lua (1990).
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