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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Judith Barry, “Blew, Ten Filmâ€, 1982.  Judith Barry


Judith Barry, “Casual Shopperâ€, 1980/81.  Judith Barry


Judith Barry, “Casual Shopperâ€, 1980/81.  Judith Barry


Judith Barry, “Imagination, Dead Imatineâ€, 1991. Instalação.  Judith Barry


Judith Barry, “Speedfleshâ€, 1998. Instalação.  Judith Barry


Judith Barry, “Speedfleshâ€, 1998. Instalação.  Judith Barry

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ARQUIVO:


JUDITH BARRY

Body Without Limits




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

08 FEV - 25 ABR 2010


Desde o final do anos 90 que temos assistido ao boom da videoarte. Não apenas da videoarte utilizada como mais um meio de expressão que poderia ser pictórico ou escultórico, mas também muitas vezes utilizado como dispositivo interactivo com o espectador. A arte quase como um jogo, perdendo a distância fria e respeitosa a que estávamos habituados há umas décadas atrás.

Segundo Gilles Deleuze, “Em função das técnicas que conheço, posso ter uma ideia num certo domínio, uma ideia em cinema ou uma ideia em filosofiaâ€; mas Judith conhece várias técnicas e usa-as para exprimir as suas ideias. O seu trabalho reúne vários meios de expressão artística: performance, instalação, vídeo, escultura, fotografia e design. Judith Barry nasceu em 1954 em Ohio, estudou na universidade de Berkeley, Califórnia e o seu primeiro trabalho, uma performance, foi exposto em 1977. Judith também escreve ensaios e ficção. É impossível dissociar o seu trabalho de disciplinas como a arquitectura e o design de interiores.

“Body Without Limitsâ€, agora patente ao público no Museu Colecção Berardo, com curadoria de Luís Serpa, tenta fazer uma pequena retrospectiva desta artista com obras que abarcam a sua carreira de 1977 até 2008, desde vídeos que vemos projectados em ecrãs ou televisores, fotografias de performances e de outros trabalhos, até espaços construídos como ambientes unos com o vídeo, em que o visitante interage com a obra.

Somos recebidos na exposição através de uma floresta “Study for Mirror and Gardenâ€, 2008, o trabalho mais recente da artista que podemos ver aqui. Esta floresta consiste num jogo de espelhos com folhagens e duas telas oblíquas entre si onde são projectados dois vídeos diferentes. Estes espelhos enfrentam-se, repetem-se entre si, aos vídeos e ao visitante até ao infinito, dispositivo muito explorado por Michelangelo Pistoletto e tornado superlativo em “Metro Cubo d’Infinito†(1966). Em “Study for Mirror and Gardenâ€, as telas onde são projectados os vídeos são translúcidas, permitindo ver as sombras dos visitantes do outro lado. Procurando a interacção, os vídeos foram feitos tendo em conta esta característica e tendo a clara noção do efeito que causa. Ao mesmo tempo que somos introduzidos num ambiente romântico que é por um lado muito europeu, quer as folhagens quer o jogo de transparência das telas, com os visitantes por trás a lembrar sombras chinesas, remetem-nos para um ambiente que é ao mesmo tempo muito oriental.

Usando o mesmo dispositivo de um ambiente que serve de suporte ao vídeo e permite a interacção do visitante, podemos ver “Work of the Forestâ€, 1992. Aqui, uma construção Arte Nova comporta três vídeos de uma casa antiga projectados em tecido franzido a imitar cortinas. Fazendo uma clara referência aos panoramas tão em voga no Século XIX, Judith cria um ambiente cinematográfico que nos envolve como se fôssemos personagens de um livro de Jane Austen para nos falar de memória. A memória de ambientes que já não existem, que provavelmente nunca conhecemos fisicamente, mas que reconhecemos como fazendo parte do nosso reportório emocional.

Como artista americana Judith Barry poderia ter obras mais duras, mais “directasâ€. Ao invés, as suas obras têm um claro pendor romântico mais habitual em artistas europeus. Assim, ao mesmo tempo que opta por um meio de expressão artística mais recente do que a pintura ou a escultura, Judith devolve-lhe um carácter antigo e etéreo.

“Casual Shopperâ€, 1980/81, mostra-nos um casal a fazer compras num centro comercial, como se fossem protagonistas de um filme de suspense, que se seduzem por entre objectos que estão à venda nas lojas. Judith assume a clara referência a Alfred Hitchcock, e mistura na montagem imagens do filme Marnie. A artista questiona aqui a identidade do indivíduo na sociedade moderna e de consumo e mesmo se visualmente o filme é tão eighties, não deixa de ser notório o quão actuais são as questões que levanta.

Ao juntar diversos meios de expressão artística, Judith também nos obriga a questionar o lugar de cada um deles. Ao mostrar-nos um vídeo com grande trabalho de mise-en-scène onde mistura imagens de Marnie, levanta questões como as fronteiras entre a videoarte e o cinema e qual o lugar de cada um deles, quer museológico quer sentimental.

Ao longo do espaço expositivo somos presenteados com fotografias de várias das suas performances e instalações. Infelizmente estes registos não têm qualquer valor artístico e o valor documental não é justificado, uma vez que é impossível traduzir em fotos o lado sensitivo, artístico e de interacção que existe numa performance.

Mais ou menos a meio da exposição, existe uma divisão com umas escadas que conduzem a uma porta. Não é óbvio que possamos entrar. Mas podemos. “Model for Stage and Screenâ€, 1987, é uma sala fechada cilíndrica, com luzes verdes e muito fumo. Se circundarmos a zona central onde se encontram as luzes, perdemos a noção de espaço. Quando saímos vemos tudo vermelho. Ao levantar questões relacionadas com o espaço e com a forma como o percepcionamos, Judith não deixa também de levantar questões relacionadas com a identidade. Aliás, já em “Casual Shopper†as questões não se limitavam à nossa identidade, mas também à forma como nos relacionamos com a envolvente. Assim nos questiona também com o panorama em “Work of the Forest†ou em “Study for Mirror and Gardenâ€. Quem somos nesta sociedade, como nos relacionamos com ela e com o espaço envolvente. Não só o espaço arquitectónico mas também o ambiente que nos circunda. Contudo, Judith não levanta estas questões de forma polémica, prefere fazer-nos rir ou desafiar-nos a questionar o conforto das nossas opções, de uma forma agradável. Não há nada de rude ou brutal nas obras de Judith Barry, há antes uma salutar nostalgia.


Bárbara Valentina