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KATHRYN BIGELOWBREAKING POINT: KATHRYN BIGELOW´S LIFE IN ARTCASTILLO/CORRALES 80, rue Julien Lacroix 75020 Paris 16 JAN - 20 MAR 2010 LIFE´S LESSONA 13 de Março abrirá ao público, na Fundação Cartier, uma exposição dedicada ao cineasta japonês Takeshi Kitano. No mesmo dia fecha uma outra exposição, mais discreta, quase confidencial, dedicada a uma cineasta de “outro género”, conhecida no meio do cinema americano de aventura e de acção e não no dos filmes de autor: Kathryn Bigelow. Pergunto-me: Que razões levaram esta galeria dirigida por um colectivo de artistas, críticos, comissários e recentemente editores, que é hoje um dos “hot spot” alternativos da arte contemporânea em Paris, a fazer uma exposição sobre esta “bad girl” do cinema? Falando com Benjamin Thorel, o quinto elemento da Castillo/Corrales que divide as suas atribuições de curador e crítico de arte com a gestão da livraria especializada – Section 7 Books –, compreendi que foi a vontade de descobrir o que levou certos criadores a trocar o meio de pesquisa artística pela produção de filmes que utilizam os estereótipos fabricados por Hollywood. O que levará à ruptura? Ou existirá uma continuidade mesmo no seio de uma carreira comercial como a de Kathryn Bigelow? Será que metade dos criadores que fizeram parte das vanguardas artísticas criaram a nova arte convencional? Quem é Kathryn Bigelow? É uma cineasta americana, nascida em 1951 na Califórnia, que realizou entre outros filmes: Strange Days (1995) com Ralph Fiennes, filme de ficção científica sobre o desenvolvimento das tecnologias da imagem ou Point Break (1991), grande êxito de bilheteira, com Keanu Reeves e Patrick Swayze como surfistas ou ainda Blue Steel (1990) com Jamie Lee Curtis no papel de uma mulher polícia contra um “serial killer” e que com Estado de Guerra (2010) ganhou o Óscar de melhor filme este ano. Pela primeira vez Hollywood concede a uma mulher este galardão, o que será também um reflexo da era Obama. Rewind: voltamos aos anos 70 e encontramos Bigelow a trabalhar ao lado de Vito Acconci, e sucessivamente com Laurence Weiner. Colabora e protagoniza alguns vídeos deste último tais como: Affected and I or effected (1974) ou Green as Well as Blue as well as Red (1976) que podemos ver na exposição patente na Castillo/Corrales. Entre os anos 70 e 80 colabora igualmente com o grupo Art & Language ou na revista The Fox. Foi aluna, entre outros, de Susan Sontag na Universidade de Columbia onde estudou cinema deixando a pintura como estagiária do Whitney Museum. Nos vídeos de Weiner disserta sobre Mao Tsé Tung e sobre a necessidade do artista encontrar o seu lugar na sociedade questionando a sua própria postura como criadora. Em 1982 realiza The Loveless, a sua primeira longa-metragem. A exposição, que seguirá para para o Centro de Arte Contemporânea Signal em Malmo, na Suécia, centra-se na participação de Bigelow na cena artística de Nova Iorque entre os anos 70 e 80, período de formação e evolução entre os estudos artísticos e o cinema de género. No espaço da pequena galeria podemos ver, em dois ecrãs, filmes de Lawrence Weiner protagonizados por uma jovem Kathryn Bigelow, sessões de estúdio do grupo Art & Laguage e numa vitrina encontramos exemplos de revistas e publicações em que a então jovem estudante escreveu ou organizou (tais como Semiotext(e) , Cinématographe ou L´Ecran Fantastique). Numa das paredes que dá acesso à livraria os posters dos filmes de acção da cineasta contrastam com as imagens a preto e branco do período de pesquisa conceptual. Cultural studies? versus "french neo-theory”? O mérito desta exposição está em levantar uma questão: Qual será o ponto de união ou ruptura entre arte e cultura popular? É curioso ser o grupo de Castillo/Corrales a fazer esta proposta, um grupo que nasceu da associação de dois elementos curadores do projecto Societé Anonyme (Plateau, Frac, Île-de-France, 2007) - Thomas Boutoux e François Piron com o artista Óscar Tuazon e os críticos Benjamin Thorel e Boris Gobille. A galeria é conhecida a nível internacional, citada em publicações como a americana Artforum e mesmo elogiada do outro lado da Mancha por escritores como Maria Fusco. Em 2009, entraram na Cour Carré do Louvre com um stand para a Section 7 Books, e duplicaram a venda de livros na FIAC. Aliás é fácil encontrar Hans Ulrich Obrist a fazer as suas compras de livros na pequena galeria de Belleville. Como classificar este tipo de actividade da Castillo/Corrales, que está entre ser um grupo de pesquisa e um agente comercial. Parecem dar uma resposta à questão que coloca Boris Groys em Art Power (MIT Press, 2008): “Porque é que a arte recusa procurar legitimidade no mercado?” A arte é também dinheiro, mas a arte no mundo pós-crise financeira mundial pode colocar questões e mostrar-se em exposições que são uma das formas de arte hodiernas, fruto da autonomia criativa do curador, que deve assumir esse papel. O que é difícil determinar é o que move, realmente, a nova vanguarda parisiense a se interessar por esta realizadora. Será um reflexo dos Cultural Studies anglófonos que tendem a valorizar uma outra leitura de Hollywood onde verosimilmente parece existir uma auto-crítica dentro do sistema e que fazem uma apologia dos standards da cultura popular? Em vez de pensar que existe uma continuidade podemos pensar em termos de ruptura, em dois universos diferentes sem esquecer a capacidade que tem Hollywood em digerir e absorver o diferente apropriando-se dele, como é o caso desta nomeação dos Óscares. Podemos pensar em Gus Van Sant que conseguiu criar a partir de problemáticas adolescências hollywoodianas, uma leitura que é uma verdadeira pesquisa artística, como em Elephant (2003). Onde fica Bigelow nesta análise? Formada no seio de uma geração conceptualista, da divulgação dos Cultural Studies na América, criou uma forma de se inserir na sociedade com os códigos de linguagem de Hollywood, apropriando-se como mulher, portanto minoria, dos padrões dos filmes de acção. Mas será que realmente se propõe fazer uma ruptura com os valores convencionais do cinema comercial? Serão os seus filmes uma ruptura com os anos de formação que sedimentaram a sua relação à imagem no seio da vanguarda ou esses anos servem simplesmente para alimentar a grande forma do cinema de acção?
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