|
|
MIGUEL ÂNGELO ROCHAUm exemplo daquiloGALERIA MIGUEL NABINHO Rua Tenente Ferreira Durão 18-B Campo de Ourique 1350-315 Lisboa 26 FEV - 17 ABR 2010 Uma escultura composta por uma pequena mesa e um balde sujo e bastante usado ocupa o centro da primeira sala da galeria Miguel Nabinho. O que parece, à primeira vista, uma peça escultórica feita a partir de materiais encontrados e conjugados de forma casual transforma-se, á medida que circundamos a peça, numa cuidada composição de elementos de aspecto mais ou menos mundano, que o artista combina com uma cuidadosa articulação mental e manual. Emergir-se nos objectos que Miguel Ângelo Rocha cria é a única forma de vivenciar uma exposição cujo sentido é inerente apenas e somente às peças que a compõem. Há na mesma sala um desenho que dá o nome à exposição. É um trabalho de uma simplicidade desafiadora. Ao reconhecer o título da mostra percebemos que a relação entre peças e títulos e entre as próprias peças se auto boicota. Em contraste com a aridez de explicações e ligações nada óbvias a temas mais mundanos do quotidiano encontramos os materiais utilizados que são objectos, ou partes de objectos, de uso quotidiano. Miguel Ângelo Rocha combina elementos encontrados e absolutamente nomeáveis como uma mala, uma pinha, ou ossos com materiais de construção como contraplacado, um tubo de PVC, um tubo de cartão com elementos por ele pintados, compostos modificados e tratados. Algumas das modificações que faz oscilam entre a manufactura e o toque perfeito e frio de uma máquina. As peças são rudes e afinadas ao mesmo tempo. O artista faz, realiza, mas ao mesmo tempo rompe com este acto e nomeia objectos ou matérias primas básicas num jogo de contradições. As suas peças estão próximas do readymade mas rejeitam-no. Se o readymade vivia do renomear de um objecto que não era feito pelo artista, os objectos de Miguel Ângelo Rocha são híbridos. Existe a ideia de toque do artista, o problematizar a partir da prática diária do fazer e não apenas o pensar o objecto. Aqui fazer e pensar são a mesma coisa. Formal e conceptual encontram-se e parecem configurar o destino de cada peça. Posto isto as obras não deixam de evocar no visitante sentimentos e metáforas, pois nenhuma das peças tem o título paradigmático do modernismo: “Sem Título”. Em vez disso o visitante enfrenta títulos que sabe que nunca lhe será possível desvendar. São títulos do artista e continuam a pertencer-lhe. Estas peças são fruto do encontro do artista com os materiais, com o seu trabalho e com a própria história das peças que já realizou. A peça intitulada “Contra a interpretação” torna claras as intenções de que se olhe para os trabalhos não como metáforas mas como momentos de uma prática diária. Uma prática contínua. Há um sentido de performatividade na qual as peças são as evidências do percurso. São obras autotélicas, não explicam... implicam. Esta peça age como um manifesto por uma arte pela arte e imprime um cunho ideológico à mostra. Ao conviver com as peças que não se esgotam no primeiro olhar. O visitante apercebe-se das inúmeras camadas que as mesmas têm. Questões próprias da escultura como: equilíbrio, o espaço que ocupam, o espaço bidimensional que desenham e o choque entre materiais e cores e a subversão da natureza das matérias-primas. De forma engenhosa o artista leva o visitante a criar sentido dentro dos próprios materiais. A peça intitulada “Torso” parece ter sido feita a partir disso mesmo: um torso, não sabemos se do confronto e estudo do corpo humano ou se é um comentário ao género de escultura clássico. É como se o artista se procurasse desviar dos seus próprios lugares-comuns obrigando-se e ao visitante a relembrar a escultura e a sua história como temas de análises. Todas estas camadas dão ao trabalho um carácter transitório, indefinível e elusivo interpretativamente tornando-o inquietante. É este fugir às categorizações que tornam o trabalho de Miguel Ângelo Rocha extremamente imersivo para o espectador ao mesmo tempo que o incita a uma participação activa. É inevitável a recompensa. Poucos exercícios de autonomia na Arte parecem válidos desta forma.
|



















