Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Alexandre Estrela, "Merda" (o livro), 2006. 500 exemplares de um livro de 160 páginas, 2006

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÃ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


ALEXANDRE ESTRELA

Merda




CENTRO CULTURAL VILA FLOR
Avenida D. Afonso Henriques 701
4810-431 Guimarães

28 ABR - 02 JUL 2006

Má-Fé

Há palavras que disparam como balas e que, por haver tantas e tantas tão gratuitamente lançadas sobre tudo e todos, acabam por passar despercebidas por quem as vê e ouve. Para combater este efeito do excesso há que apostar em novas estratégias, fazer com que estes projécteis de discurso se imiscuam na própria tessitura das coisas, e as constranjam ao seu papel de alvo. Dentro de um mundo assaz esquivo, só assim podemos pensar e concretizar o dano. É assim a Merda que, por estar por todo o lado, naturalizou-se na linguagem, tornando-se mais invisível que ofensiva. Porque todos os dias a pisamos, todos os dias a limpamos, todos os dias a criamos; é mais útil contemporizá-la que forçar-nos a uma indignação pungente e constante, que nos exauriria de toda a força que precisamos para continuar o nosso afã de ir cobrindo e disfarçando a nossa própria produção individual da coisa. Assim fica tudo às claras.

Que a palavra se tenha tornado ineficaz não quer dizer que tenha surgido uma melhor, muito menos que o seu significado (agora surdo e distante) se tenha apartado da precisão do discurso, pelo contrário; esta propriedade do excesso, que é a de embaciar os signos, só torna as suas ideias mais urgentes e obriga-nos ao improviso de formas que façam dizer e sublinhar, tanto as coisas que assim nos apertam como a nossa hipermetropia. Que um cidadão de Lisboa (cidadão, claro, e participante) se tenha decidido a grafar, de quinze em quinze metros, dezenas de vezes, a palavra merda na extensão da estrada de Benfica, só pode ser lido à luz desta ideia. Paciente, aplicou-se na construção morosa de uma teia que engole o bairro e os transeuntes e divulga obsessivamente a repugnância subjectiva de um anónimo por tudo o que redunda.

Alexandre Estrela seguiu os passos desta personagem indignada, fotografando uma a uma, as suas inscrições repetitivas e compilando-as num livro de autor e num vídeo (baseado no desfolhar do livro e sonorizado por um pretenso brown noise). O trabalho foi apresentado no Centro Cultural de Vila Flor (Guimarães), integrado numa exposição que ensaiava um discurso sobre graffiti. Sob o peso do título “MERDA†para além do vídeo, do livro e de um stensil alusivos à intervenção de Benfica, o artista projecta dois slides representando dois edifícios graffitados por ele próprio: o edifício da ANJE (Lisboa) de Siza Vieira onde Estrela recria a intervenção anónima (Bonjour Tristesse) feita sobre o edifício do arquitecto em Kreutsberg (Berlim), e o mural “SOMETIMES HE SIGNS MANET SOMETIMES HE SIGNS MONET†na Escola de Artes das Caldas da Rainha. Adicionalmente, apresenta um desenho a grafite onde reproduz com rigor o logótipo do programa de edição (e, leia-se, adulteração) de imagem mais utilizado do mundo, o Photoshop.

Num segundo momento, que convém não dissociar do conjunto da apresentação, o artista grafou, à revelia da instituição, o título da mostra na parede do Centro Cultural. Numa breve conversa com Estrela, este admitiu a má-fé da acção. Se houve, de facto, intenção dolosa, é o nosso entender que esta acção clandestina completa o conjunto da exposição, abrindo o campo a uma discussão sobre o lugar e o carácter do graffiti nas nossas sociedades. Existe registo desta prática praticamente desde que há escrita e ela está quase sempre associada, ou à pura maledicência ou a um discurso político muitas vezes agressivo que, por falha própria ou por ser silenciado na tribuna, não consegue encontrar outro veículo de publicitação, que não a ocupação da figura da parede no espaço público onde, pela calada da noite e pelo menos durante algum tempo, é possível fazer passar mensagens não sujeitas a filtragem pela sensibilidade do poder. Apesar de ter sido apagada no próprio dia, e a parede do Centro Cultural Vila Flor ter regressado à sua alvura original; a figura resiste e a palavra passou, todos sabemos que esteve lá. A merda funcionou.


José Roseira