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ALEXANDRE ESTRELAMerdaCENTRO CULTURAL VILA FLOR Avenida D. Afonso Henriques 701 4810-431 Guimarães 28 ABR - 02 JUL 2006 Má-FéHá palavras que disparam como balas e que, por haver tantas e tantas tão gratuitamente lançadas sobre tudo e todos, acabam por passar despercebidas por quem as vê e ouve. Para combater este efeito do excesso há que apostar em novas estratégias, fazer com que estes projécteis de discurso se imiscuam na própria tessitura das coisas, e as constranjam ao seu papel de alvo. Dentro de um mundo assaz esquivo, só assim podemos pensar e concretizar o dano. É assim a Merda que, por estar por todo o lado, naturalizou-se na linguagem, tornando-se mais invisÃvel que ofensiva. Porque todos os dias a pisamos, todos os dias a limpamos, todos os dias a criamos; é mais útil contemporizá-la que forçar-nos a uma indignação pungente e constante, que nos exauriria de toda a força que precisamos para continuar o nosso afã de ir cobrindo e disfarçando a nossa própria produção individual da coisa. Assim fica tudo à s claras. Que a palavra se tenha tornado ineficaz não quer dizer que tenha surgido uma melhor, muito menos que o seu significado (agora surdo e distante) se tenha apartado da precisão do discurso, pelo contrário; esta propriedade do excesso, que é a de embaciar os signos, só torna as suas ideias mais urgentes e obriga-nos ao improviso de formas que façam dizer e sublinhar, tanto as coisas que assim nos apertam como a nossa hipermetropia. Que um cidadão de Lisboa (cidadão, claro, e participante) se tenha decidido a grafar, de quinze em quinze metros, dezenas de vezes, a palavra merda na extensão da estrada de Benfica, só pode ser lido à luz desta ideia. Paciente, aplicou-se na construção morosa de uma teia que engole o bairro e os transeuntes e divulga obsessivamente a repugnância subjectiva de um anónimo por tudo o que redunda. Alexandre Estrela seguiu os passos desta personagem indignada, fotografando uma a uma, as suas inscrições repetitivas e compilando-as num livro de autor e num vÃdeo (baseado no desfolhar do livro e sonorizado por um pretenso brown noise). O trabalho foi apresentado no Centro Cultural de Vila Flor (Guimarães), integrado numa exposição que ensaiava um discurso sobre graffiti. Sob o peso do tÃtulo “MERDA†para além do vÃdeo, do livro e de um stensil alusivos à intervenção de Benfica, o artista projecta dois slides representando dois edifÃcios graffitados por ele próprio: o edifÃcio da ANJE (Lisboa) de Siza Vieira onde Estrela recria a intervenção anónima (Bonjour Tristesse) feita sobre o edifÃcio do arquitecto em Kreutsberg (Berlim), e o mural “SOMETIMES HE SIGNS MANET SOMETIMES HE SIGNS MONET†na Escola de Artes das Caldas da Rainha. Adicionalmente, apresenta um desenho a grafite onde reproduz com rigor o logótipo do programa de edição (e, leia-se, adulteração) de imagem mais utilizado do mundo, o Photoshop. Num segundo momento, que convém não dissociar do conjunto da apresentação, o artista grafou, à revelia da instituição, o tÃtulo da mostra na parede do Centro Cultural. Numa breve conversa com Estrela, este admitiu a má-fé da acção. Se houve, de facto, intenção dolosa, é o nosso entender que esta acção clandestina completa o conjunto da exposição, abrindo o campo a uma discussão sobre o lugar e o carácter do graffiti nas nossas sociedades. Existe registo desta prática praticamente desde que há escrita e ela está quase sempre associada, ou à pura maledicência ou a um discurso polÃtico muitas vezes agressivo que, por falha própria ou por ser silenciado na tribuna, não consegue encontrar outro veÃculo de publicitação, que não a ocupação da figura da parede no espaço público onde, pela calada da noite e pelo menos durante algum tempo, é possÃvel fazer passar mensagens não sujeitas a filtragem pela sensibilidade do poder. Apesar de ter sido apagada no próprio dia, e a parede do Centro Cultural Vila Flor ter regressado à sua alvura original; a figura resiste e a palavra passou, todos sabemos que esteve lá. A merda funcionou.
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