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ALEXANDRE ESTRELAViagem ao MeioZDB - GALERIA ZÉ DOS BOIS Rua da Barroca, 59 1200-049 Lisboa 10 ABR - 19 JUN 2010 “Viagem ao Meio†é o tÃtulo da nova exposição individual de Alexandre Estrela e o resultado de uma série de residências concretizadas em diferentes pontos geográficos, ao longo de dois anos, com a produção da Galeria Zé dos Bois. Locais tão distintos como Timor, Bretanha ou Açores fizeram então parte do itinerário desta longa viagem, partilhada com o curador Natxo Checa, servindo também de “paisagens†para a realização de cinco instalações que constituem a presente mostra. Quem visitar a exposição há-de encontrar, logo à entrada da ZDB, colado na parede junto à bilheteira, um poster de médio formato que apresenta um desenho sob fundo branco. Cinco circunferências concêntricas, cada uma desenhada dentro da outra, formam uma moldura, que enquadra um espaço preenchido até à exaustão por uma série de outras circunferências não concêntricas, sobrepostas e a escassa distância entre si. O olhar do visitante é então estimulado pela malha densa e dinâmica sugerida pela profusão de linhas que definem o desenho e subitamente atraÃdo pelo seu centro que, deslocado, se encontra numa das suas margens. Situado na periferia do desenho, o centro introduz neste pequeno trabalho um efeito de perspectiva curva, fazendo mergulhar o olhar naquilo que parece transformar-se num túnel. Para além de actuar como imagem gráfica da exposição, este poster acaba por lançar as problemáticas que a organizam, a saber: a experiência da percepção descentrada e a dimensão escultórica ou tridimensional da imagem. Questões, aliás, que aparecem frequentemente implicadas nos trabalhos de Alexandre Estrela desde 2006, basta lembrarmo-nos de “Solar watch†(“Stargateâ€, MNAC – Museu do Chiado, 2006); “Sistema Solar†(“Radiação Solar e Forças Cósmicasâ€, Galeria Graça Brandão, 2007); “O cancro esconde-se nos cantos†(“Putting Fear in Its Placeâ€, Chiado 8, 2008) ou “Ar Curvo†(Galeria Marz, 2009). Mas se estas peças foram desenvolvidas a partir do atelier, as de “Viagem ao Meio†são a memória, como vimos, de outros espaços. Foi na Ilha de S. Miguel, que o artista encontrou o cenário para a instalação que dá nome à exposição. O Túnel das Setes Cidades foi construÃdo na década de 30 do século passado para drenar as águas da lagoa vizinha, servindo também de passagem à s pessoas que quisessem ir da freguesia das Sete Cidades até à freguesia dos Mosteiros. Mede 7 metros de profundidade e perfura as paredes do maior vulcão do Atlântico. Com a ajuda de uma equipa de vários colaboradores, Alexandre Estrela decidiu tirar partido das particularidades deste túnel/caminho para investigar as potencialidades do cruzamento entre dois sistemas mediais distintos: o filme e o vÃdeo. Tal como o Dr. Otto Lidenbrock e o jovem Axel tiveram de entrar num vulcão para viajarem até ao centro da terra, Estrela entrou no túnel com 1,700 km de pelÃcula fÃlmica, desenrolando-a de uma das suas periferias até ao centro e voltando a enrolá-la depois do trajecto cumprido. Paralelamente, toda a travessia do túnel foi registada em vÃdeo num só plano sequência que demora 2 horas, enquanto um gravador registava o som do escoamento da água. Na instalação de que fazem parte, ambos os registos são projectados em simultâneo e sobrepõem-se no mesmo ecrã. Se no inÃcio o filme queimado pela acção da luz torna a imagem vÃdeo nÃtida, deixando-nos ver o interior do túnel, à medida que avança no tempo vai tornando-a cada vez mais opaca ao ponto de quase anulá-la. Durante cerca de uma hora de projecção, as imagens que percepcionamos transformam-se num monocromático denso. No entanto, existe uma mancha branca brilhante em constante movimento que nunca é apagada pelo filme e que sabota a bidimensionalidade das imagens ao som da água a ser escoada. Esse ponto branco é a luz ao fundo do túnel e a perspectiva da imagem vÃdeo que devolve ao observador mais resistente a saÃda para outro espaço. De facto, “Viagem ao meio†reclama um observador resistente não só porque tem a duração de uma longa-metragem, mas porque lhe dedica uma posição particular e rara, sobretudo se pensarmos nas convenções das salas de projecção. Ao invés de posicionar a plateia de frente para o ecrã, Estrela desloca-a 90º, pelo que o público passa a visionar o filme/vÃdeo a partir desse ângulo e a encontrar diante de si os dispositivos de projecção de cada media. Este extraordinário conflito medial conduz-nos a três vÃdeo instalações apresentadas em salas individuais no primeiro piso, mas com ligação entre si. A primeira intitula-se “Le Moiretâ€, foi filmada na Bretanha e consiste num vÃdeo que regista o movimento aleatório das folhas de uma pequena palmeira desencadeado pelo vento e cujo som provém de uma só coluna, disposta no chão. A projecção é feita sobre um ecrã de vidro que está encostado a um canto da sala. Enquanto a superfÃcie transparente faz trespassar a imagem, o canto devolve à imagem projectada dois planos (as duas paredes) e dois pontos de fuga distintos. Ora as especificidades de ambos os dispositivos de apresentação, conferem à imagem uma sugestão de materialidade escultórica. No entanto, a este efeito óptico virtual Estrela junta um outro, ao sobrepor a imagem de folhas de uma palmeira sobre um ecrã serigrafado com bandas foscas, piscando o olho ao efeito de Moiret tão trabalhado pela Op Art. Assim como em “Le Moiretâ€, também em “Hydraâ€, voltamos a percepcionar visualmente o som. Acontece que o fenómeno natural do vento vê-se substituÃdo aqui por um espectro sonoro de um teste de hidrodinâmica em torno de um centro vazio. Cada linha que atravessa a imagem deste vÃdeo representa uma frequência de som que, por sua vez, cartografa o trajecto percorrido pelo fluÃdo, actuando como sua memória. O espaço vazio terá então criado uma tensão, obrigando o próprio fluÃdo a desviar-se de si para continuar o seu percurso. Estrela faz-nos chegar este fenómeno através de uma actualização mediada da sua experiência. Se por um lado abre um buraco no meio do ecrã da projecção, por outro, o próprio desvio é sentido pela alteração das frequências. Na intersecção destas duas instalações, surge “Teiaâ€, um vÃdeo apresentado em monitor que consiste numa imagem de uma pequena teia de aranha em volta de uma cana de bambu filmada sob uma parede de fundo cinzenta. Os planos destes elementos confundem-se, mas a sugestão bidimensional é desde logo quebrada pelo efeito de luz-sombra provocado pela passagem de uma nuvem em frente ao sol e que incide sob a teia de aranha, fazendo com que esta pareça furar a própria imagem. Contudo é com “Flautaâ€, já no segundo piso, que Alexandre Estrela explora a ilusão de uma imagem tridimensional através de um processo estereoscópico que coexiste com uma perspectiva material. O artista volta a furar o ecrã, desta vez fazendo um pequeno buraco por onde passa o som grave do vento que sai de uma coluna e faz a imagem tocar como um instrumento. Estamos portanto perante um trabalho que se define a partir de uma tensão, entre o virtual garantido pelo efeito de estereoscopia das duas imagens projectadas em alternância e o actual garantido pelo efeito de profundidade que o buraco confere, para produzir uma situação inesperada. “Viagem ao meio†surge assim na continuidade de um projecto de investigação que o artista tem desenvolvido sobre a categoria de imagem e o modo como pode ser dada a pensar. Contra os modelos narrativos dominantes, os seus trabalhos operam pequenas situações ou fenómenos que deslocam as convenções das formas e dos media, por um lado, e, por outro, desestabilizam a experiência da percepção, povoando a imagem de singularidades imprevisÃveis.
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