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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Maquete do design de exposição de Monika Sosnowska. Exposição “Les Promesses du passé”, Centre Pompidou, Paris, 2010.


Nesa Paripovic, “NP 77”. Fotografia: Goranka Matic. Cortesia da artista e Belgrad Museum of Contemporary Art.


Sanja Ivekovic, “Triangle 1”, 1979.


Vista da exposição “Les Promesses du passé”, Centre Pompidou, Paris, 2010.


Vista da exposição “Les Promesses du passé”, Centre Pompidou, Paris, 2010.

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ARQUIVO:


COLECTIVA

Les Promesses du passé, Une histoire discontinue de l’art dans l’ex-Europe de l’Est




CENTRE POMPIDOU
Place Georges Pompidou
75191 Paris

14 ABR - 19 JUL 2010


Após a queda do Muro em Berlim, que levaria à dissolução da União Soviética e, por consequência do Bloco de Leste, à desintegração da Jugoslávia e às guerras devastadoras, surgiram várias exposições que trataram os assuntos relacionados com as novas relações geopolíticas e tentaram captar o espírito da mudança. Entre elas, a ambiciosa “After the Wall: Art and Culture in post-Communist Europe” , comissariada por Bojana Pejic na Moderna Museet em Estocolmo ou a mais apreciada em termos críticos, “Blood and Honey: The Future’s in the Balkans” de Harald Szeeman (The Essl Collection, Viena). Se a primeira explorava as problemáticas e supostamente obsoletas dicotomias políticas (a divisão da Europa na região de Leste e Oeste), a segunda apresentava-se como uma das maiores e mais abrangentes exposições a incluir as Balcãs nas suas margens mais imperceptíveis, sugerindo a forte relação entre a arte e o contexto sociopolítico e cultural da região. Aliás, como o artista turco Huseyin Alptekin disse uma vez: “Balkan is a bloody honey, good for Western hungover after a completion party of over-cooked cartographic folklore crime symposium, recommended with yogurt.”
Creio que a frase não necessita de tradução.

Ultimamente, as exposições relacionadas com a arte de uma das regiões de produção cultural mais significativas actualmente, que recentemente assistiu a rápidas mudanças nos seus dogmas políticos e económicos, foram em grande medida influenciadas pelo trabalho “East Art Map” , do grupo Irwin. Trata-se de um projecto de colaboração no qual os artistas convidaram à participação mais de vinte profissionais de arte da antiga Europa de Leste (para usarmos o termo politicamente correcto), que foram incentivados a escolher dez projectos que marcaram a cena artística do seu país no período desde o fim da Segunda Guerra Mundial até ao ano de 2000 e estabelecer comparações com a arte produzida na Europa Ocidental na mesma época. O resultado é um livro com o mesmo nome, um cd-rom interactivo, um mapa que estabelece ligações entre os artistas da região, formando uma constelação, uma projecção de diapositivos das obras escolhidas por críticos, comissários, teóricos e artistas, e uma compilação dos videos.

Também a exposição “As promessas do passado: uma história descontínua da arte na ex-Europa de Leste”, patente no Pompidou, parte da tentativa de reconstruir a história da arte neste lado da Europa. A exposição comissariada por Christine Macel e Joana Mytkowska propõe uma narrativa interrompida, fragmentada e construída a várias vozes acerca da arte produzida na zona durante a Guerra Fria, em forte contraste com a cenografia da Monica Sosnowska, concebida a propósito da exposição em forma de zigzag, podendo ser lida como uma sequência de eventos, às vezes ligados e às vezes estritamente separados, e que leva o visitante a segui-la do início ao fim sem desvios. É precisamente este contraste que forma um dos pontos fortes de uma exposição largamente criticada por parecer um documento que não dá espaço suficiente às obras ou por ter o design demasiado eficaz/imponente. E que em vez de deixar o visitante navegar livremente, determina um caminho único para ver as obras, tornando-se assim numa proposta um pouco totálitaria. Tudo isto é verdade.
Por sua vez, o artista esloveno Tobias Putrih desenhou o “Espace 315”. Inspirando-se na arquitectura do cinema modernista, propôs uma plataforma para o discurso crítico, as projecções de cinema, o arquivo e as conferências relacionados com a arte da Europa de Leste que acompanham a exposição.

A mostra que toma o seu título do texto “On the Concept of History” escrito por Walter Benjamin um pouco antes da sua morte em 1940, é dividida em várias partes, nomeadamente: Para além das utopias modernas; Os Fantasmas da totalidade; ou ainda Anti-art; Espaço público-espaço privado; Feminino-feminista; Gestos micro-políticos e a crítica das instituições; e utopia revisitada.

O regresso ao projecto modernista é particularmente marcante nas práticas artísticas da antiga Europa de Leste. A ideia de que a arte serve para mudar e melhorar a vida está fortemente enraizada e liga a produção contemporânea às vanguardas históricas. Um exemplo da persistência da utopia modernista hoje em dia é o projecto do presidente da Câmara de Tirana, Edi Rama, que propôs entregar a pintura de fachadas de edifícios da cidade a artistas, e possibilitar que os habitantes se apropriando desta maneira do espaço público. O artista albanês Anri Sala realizou um vídeo sobre o acontecimento, abordando o assunto em todas as suas contradições, mesmo assim mantendo uma poética profunda, característica das suas obras. As propostas do croata David Maljkovic ou da artista georgiana Thea Djordjadze, por seu turno, aprofundam a herança da estética modernista. Em referência aos postulados sociais daquela época, transpõem as ideias que vinham animar os grandes projectos de arquitectura no mundo contemporâneo.

O termo Anti-art refere-se a práticas artísticas radicais que formam respostas ao modernismo ou à pintura académica dos anos cinquenta. Nasce em Zagreb, em redor do grupo Gorgona, composto por artistas como Mangelos, cuja exposição foi possível ver em Serralves em 2003, ou a Julije Knifer. Magelos é conhecido pelo seu trabalho conceptual “Le manifeste sur la mort” (depois de 1978), um globo preto com o texto escrito em branco, que infelizmente não foi possível ver em Paris desta vez.

As noções de espaço público e privado na antiga Europa de Leste não tinham o mesmo significado que no Ocidente. Às vezes a esfera privada oferecia o único lugar onde os artistas podiam refugiar-se para se distanciarem do sistema na era comunista. O artista croata Mladen Stilinovic questiona o papel do artista com humor e sem escárnio, como por exemplo na obra “Artist at Work”, uma série de fotografias em pequeno formato a preto e branco que mostram o artista deitado na cama e aludem à preguiça como a última forma de fuga no sentido de Malevich. Faltava o seu muito falado trabalho “An Artist Who Doesn’t Speak English Is No Artist”, de 1994, composto por um tecido cor-de-rosa com letras em preto e vermelho que se refere à condição do artista que vem de fora de centros de arte, à globalização e ao mercado.

Nos anos setenta, as artistas de Europa de Leste revolucionaram o discurso sobre o feminismo. As figuras que marcam essa época são a escultora polaca Alina Szapocznikow, Ewa Partum, que realiza muitas acções feministas no espaço público e a escultora eslovaca Mária Bartuszová, que explora a questão através da figura de ovo. Provavelmente o mais conhecido trabalho na altura é da artista croata Sanja Ivekovic. O “Triangle” é uma acção desenvolvida pela artista aquando da visita de Tito à sua cidade em que simula a masturbação na varanda de sua casa enquanto lê uma novela americana, sendo interrompida pela polícia.

Ao contrário do que se pensa, a arte empenhada em termos políticos não existia praticamente na Europa de Leste durante o período comunista (como também hoje em dia). Um dos raros exemplos pode ser a prática do artista romeno Dan Perjovschi, que desenvolve um trabalho crítico e provocador acerca de gestos micro-políticos transpostos para o contexto contemporâneo da crítica das instituições ou do Estado-nação.

Algumas práticas artísticas são influenciadas por uma forte nostalgia dos tempos passados, carregadas da ideologia comunista e suas utopias. Atravessam as gerações e as fronteiras geográficas onde a utopia moderna e o papel social fundamental do artista inspiram as novas práticas contemporâneas. A apreensão dos futuros possíveis, das promessas do passado, encontram-se notavelmente referidas nas obras da artista checa Katarina Seda, como também no trabalho do israelita Yael Bartana, patente na exposição, que junta a pesquisa e a disseminação do assunto à cena artística internacional.

Resumindo: trata-se de uma bela exposição que contextualiza a arte na antiga Europa de Leste numa perspectiva transnacional e transgeracional. A única “objection”, para além do design da exposição que determina a nossa experiência enquanto espectadores, é a não inclusão de certas obras paradigmáticas, que por seu turno explica a razão pela qual saí do Pompidou um pouco insatisfeita em relação à grande promessa de descontinuidade que nos foi feita, seja em relação à história ou às exposições dedicadas ao assunto da arte de Leste.


Rosana Sancin