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VASCO ARAÚJO E JAVIER TÉLLEZMais que a VidaCAM - CENTRO DE ARTE MODERNA Rua Dr. Nicolau de Bettencourt 1050-078 Lisboa 28 MAI - 06 SET 2010 Identidade. É de identidade que nos fala “Mais que a Vida”. A nossa identidade como espectadores/voyeurs das obras expostas, a identidade das personagens retratadas por Vasco Araújo e Javier Téllez. É esse um dos pontos em comum nos dois artistas: as questões que levantam sobre a identidade, o género, a normalidade ou o nosso lugar na sociedade. Em “Far de Donna” Vasco Araújo apresenta-nos o mito edipiano através de uma mãe muda e de um filho contratenor que emprestam corpo e história ao mito. Em “Mulheres de Apolo” o artista invade a sala dos Alunos de Apolo para construir uma história sobre os desejos das mulheres e o que pensam dos homens com quem se relacionam, explorando o estereótipo da mulher de meia-idade solteira ou divorciada de classe média que deseja acima de tudo voltar a casar. Se em “Far de Donna” Vasco Araújo questiona a identidade familiar e os seus laços, em “Mulheres de Apolo”, põe em causa a identidade de género e de classe social. Em ambos, apropria-se de uma linguagem semelhante à do documentário para, na realidade, construir uma ficção, baralhando o espectador e cruzando as fronteiras entre os dois géneros cinematográficos. Javier Téllez também mistura os dois géneros, mas opta por fazê-lo através de um processo de confrontação. Em “La Passion de Jeanne d’Arc” mostra uma projecção dupla em paredes opostas. De um lado o filme de Carl T. Dreyer La Passion de Jeanne d’Arc de 1928 (que é segundo Gilles Deleuze, o filme afectivo por excelência(1)), intercalado com intertítulos escritos ao vivo por mulheres internadas no hospital psiquiátrico de Rozelle, na Austrália. Os intertítulos são ardósias de sala de aula (objecto recorrente nas suas obras) onde as doentes escrevem instruções médicas ou diálogos típicos da relação psiquiatra/paciente. No ecrã da parede oposta, vemos testemunhos pessoais destas mulheres sobre a história da sua doença. Téllez altera assim o significado do mito de Joana d’Arc, criando um paralelismo com a histeria feminina e a esquizofrenia. Ao mesmo tempo, tal como Vasco Araújo, Téllez questiona a identidade (neste caso social) e os limites entre o registo ficcional e documental. Tanto aqui como em “Caligari und der Schlafwandler” (2008) onde podemos ver uma recriação livre do filme “O Gabinete do Dr. Caligari” de Rober Wiene (1919), o artista apropria-se de filmes emblemáticos da história do cinema, seja dos próprios filmes como em La Passion de Jeanne d’Arc ou da sua história como em “Caligari und der Schlafwandler”, para questionar o conceito de normalidade e de doença mental e a forma como se inserem ou não na nossa sociedade. “Mais que a Vida” tem curadoria de Isabel Carlos e está dividida entre o edifício principal da Fundação Calouste Gulbenkian e o CAM. Neste último pode ver-se um filme de Javier Téllez e uma performance com autoria de Vasco Araújo. Em “Letter to the Blind, for the use of those who see” (2007) Téllez, tal como em “La Passion de Jeanne d’Arc” ou em “Caligari und der Schlafwandler” trabalha com doentes mentais para de alguma forma nos proporcionar outro olhar. Nesta obra opta por trabalhar com cegos, aproveitando a sua aguçada sensorialidade. No fundo, ao mostrar-nos cegos que tocam num elefante ao mesmo tempo que ouvimos em off a narração do que sentiram ou das imagens que lhes sugeriu esse toque, Téllez repete o dispositivo utilizado sobre o filme de Dreyer, a história dentro da história. Ainda no CAM podemos ver uma performance, que na realidade são duas “Duettino” e “O Morto”, da autoria de Vasco Araújo com diálogos de José Maria Vieira Mendes”. Em “O Morto” Vasco levanta novamente questões de identidade desta vez corpórea. “Para que serve o corpo?” pergunta uma voz off de tom profético à estátua do guerreiro que vemos no palco e que lhe devolve a pergunta. “Mais que a Vida” é extensa e tem um tempo e uma respiração próprios. Mas poderíamos aproveitar e questionar o lugar do filme ou vídeo na arte contemporânea. O seu novo lugar. Nesta exposição temos vídeos que duram 30 ou 40 minutos. Serão filmes passíveis de ser apresentados em galerias ou deveriam antes ser vistos num lugar de cinema como a Cinemateca? Porque todos eles têm uma estrutura narrativa que não permite a leviandade de serem apenas espreitados. Em todos sentimos a necessidade de ver a história até ao fim. Principalmente os de Vasco Araújo. São filmes narrativos com princípio, meio e fim e tal como numa sala de cinema, só saímos a meio se não gostamos. Se gostamos, temos vontade de voltar. Como os filmes clássicos, aqueles que vemos várias vezes. NOTA (1) DELEUZE, Gilles, A Imagem-Movimento, Cinema 1, Assírio e Alvim, 2ª edição, 2009, p.164.
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