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COLECTIVAThis is my ConditionGALERIA FILOMENA SOARES Rua da Manutenção, 80 1900-321 Lisboa 24 ABR - 11 SET 2010 Numa altura em que já não cremos em meta narrativas (ou talvez sim) e já depois do choque inicial com aquilo que se pode denominar de modos culturais dominantes, a Galeria Filomena Soares apresenta uma exposição que vive e apresenta um tipo de pós existência que é o contexto em que questionamos valores absolutos mas em que sabemos não ser possÃvel viver totalmente sem os mesmos. A exposição intitula-se “This is my Condition†e é uma colectiva com os artistas Slater Bradley, Ryan McGinley, Ryan McNamara, Jack Pierson e Ryan Trecartin, com curadoria de Alexandre Melo. A mostra divide-se em dois momentos. Na primeira sala apresenta uma enorme blackbox com um vÃdeo de Slater Bradley que é antecedido por fotografias sobre as quais o artista interveio graficamente e na segunda sala expõem-se vários trabalhos de McGinley, McNamara, Pierson e Trecartin e também de Slater. A blackbox que suporta o vÃdeo de Slater Bradley é imensa, o resultado coincidentemente espectacular, ou seja, o excesso da peça tem um paralelo na sua apresentação formal; de contemplativa, a peça torna-se emocional, romântica e no entanto eficaz; esta podia ser uma mostra por si só. O vÃdeo “Boullevard of Broken Dreams†é uma encenação nas ruas de Nova Iorque protagonizada pelo seu actor-fetiche e de alguma forma o seu alter-ego Benjamin Brock. Um trabalho melancólico no qual o autor se auto retrata (pela similitude com o actor) num desprezo pelo que o rodeia, ou melhor pelos valores que o rodeiam, desde a passagem frente à loja da Cartier, Versace e Emporio Armani até ao “confronto†com um transeunte que entra numa limousine protegido pelo seu motorista. A roupa de Brock a referenciar um James Dean que puxa de um maço de tabaco é aqui e neste contexto quase um acto polÃtico. Bradley (Brock) procura um nada através de um olhar vazio e desinteressado como se observasse o que o rodeia envolto num manto de invisibilidade, o mais próximo é a indiferença ou num extremo o desrespeito. Não anda longe do adolescente incompreendido. O conteúdo da sala principal parece pertencer a um mesmo artista que na polimorfia da sua abordagem toca diferentes abordagens ao mesmo tema. Ou diferentes temas dentro de um “meta temaâ€. Desde a criação de novos sentidos a partir de sÃmbolos já batidos e estoirados até à candura das imagens que abordam sempre uma sexualidade que parecendo evidente se torna pouco importante, transformando corpos em pessoas em ambientes desprovidos de marcas da sociedade, tal como os intérpretes estão despidos das suas roupas que nos permitiriam enquadrá-los em termos sociais, intelectuais, etc. Ou será que a falta de roupas nos permite enquadrá-los de forma mais directa? Se sim, enquadramo-los no paradigma do jovem que renega tudo o que lhe é ideologicamente dado e anterior. O jovem que nega tudo a não ser a companhia (mais do que presença) de outros jovens (seus pares) que são o suporte para uma vivência fora do “alcance do radar†ainda que só e apenas por alguns momentos. São momentos que, mais do que encenados parecem de liberdade. É desconcertante o vÃdeo de Ryan McNamara, cujo tÃtulo se refere à s últimas palavras ditas por Christine Chubbuck: repórter televisiva que cometeu suicÃdio durante uma emissão em directo. É uma performance realizada pelo próprio que configura segundo o autor uma catarse sobre o facto de não se ter tornado, como era seu sonho de criança, num apresentador de programa de variedades. O tom crÃtico da peça tem algo de solene na forma como a citação serve de enquadramento, apesar do tom cómico da mesma, criando um paradoxo próximo de um grito abafado. As peças tridimensionais de Jack Pierson operam a partir da memória mas configuram novos sentidos sobretudo perante um público europeu que conhece estes sÃmbolos sobretudo a partir do cinema e não por experiência própria. É uma mistura inesperada entre um mundo ocidental decadente e outras civilizações já desaparecidas como o Império Azteca referenciado pelo tÃtulo de uma das peças. As esculturas são de uma beleza surpreendente que reflecte uma decadência histórica que não é necessariamente negativa, em objectos usados e envelhecidos que em civilizações orientais têm um valor intrÃnseco pelo facto de serem isso mesmo: portadores das marcas que o próprio tempo lhes conferiu. Trecartin faz-se representar por um dos seus primeiros vÃdeos: “Tommy Chat just emailed meâ€. É um objecto que deriva mais de uma encenação barata “postada†na internet pejada de efeitos do que uma referência ao cinema. Apesar da palete de cores relembrar trabalhos dos anos 80 filmados analogicamente, os temas remontam a uma geração internet e prenunciam as redes sociais que já começavam a mostrar o seu impacto. O trabalho é frenético e quase insuportável. É interessante também por isso. Mas é sobre o trabalho de Slater Bradley que cai dir-se-ia quase obrigatoriamente a atenção do visitante tanto pela potência dos trabalhos como pela clara importância que lhe é dada pelo curador da mostra. É uma exposição com trabalhos de artistas que embora da maior importância para uma reflexão da produção na actualidade não seria de outra forma fácil de presenciar em território nacional. Não é um tema “confortávelâ€, sobretudo na conjuntura actual e em especial no contexto de uma galeria comercial e por isso mesmo merece uma especial referência. A exposição é melancólica e aborda problemáticas actuais de uma forma quase adolescente, no entanto há um certo nÃvel de energia aqui que parece não poder ser obtido de outra forma. Ao excesso de um grito jovem sobrepõe-se uma reflexão sobre esperança numa Era que teima em não se definir, fazendo disso a sua definição.
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