Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS

emiliejouvet.com" data-lightbox="image-1">
Emilie Jouvet, Elodie Nelson, Paris. Imagem recente. Cortesia de Emilie Jouvet.  emiliejouvet.com


Annemarie Schwarzenbach. Autor desconhecido.


Marianne Breslauer, Ruth von Morgen, Berlin, 1934. Cortesia de Marianne Breslauer e Fotostiftung Schweiz, Winterhur.


Marianne Breslauer, Annemarie Schwarzenbach, 1932. Cortesia de Marianne Breslauer e Fotostiftung Schweiz, Winterhur.


Marianne Breslauer. Auto-retrato.

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÃ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


MARIANNE BRESLAUER

Unbeachtete Momente - Fotografien 1927-1936




BERLINISCHE GALERIE
Alte Jakobstraße 124-128
10969 Berlin

11 JUN - 06 SET 2010


“Como é possível que o teu avô tenha estado num campo de concentração?†perguntou desconfiando o meu amigo de Tel Aviv, enquanto passeávamos juntos em Berlim. Como se isso fosse um direito exclusivo dos israelitas...
“Ele era contra o fascismo.†Respondi de uma forma breve.
“Ai é?†disse ele. “Como assim?â€
“Pronto, a Eslovénia foi ocupada pelos nazis na altura da Segunda Guerra Mundial...â€
Ele ficou calado e eu deparei-me com o facto de nunca ter dado grande importância à questão de o meu avô ter sido judeu ou não.
O nome dele era Vladimir Kosi, quer dizer que era, sim. Quando recebeu a recompensa do estado alemão, ligou-me para Lisboa a dizer: “Olha, quero comprar-te a melhor máquina fotográfica que existe no mundo.â€
Logo a seguir, morreu em paz.



A exposição “Momentos despercebidos - Fotografias 1927-1936â€, da fotógrafa alemã Marianne Breslauer, é a primeira retrospectiva da artista a nível internacional, que apresenta ao público, entre um conjunto 130 imagens a preto e branco, documentos incontornáveis duma época de crise económica e social. Mesmo tendo isso em conta, ela escolhe por seu tema privilegiado as mulheres autoconfiantes e independentes, o que dá um toque político à sua obra. Ela própria correspondia a esta imagem da “nova feminilidade†dos anos vinte do século passado, com cabelo curto e os gestos demonstrativos de uma geração de jovens aspirantes à emancipação. Estas mulheres eram curiosas, urbanas, livres de preocupações materiais e usavam plenamente as liberdades oferecidas na altura da modernização da sociedade de entre as duas guerras.

Paralelamente, em Paris, uma cidade que ela ia visitar nas suas frequentes viagens pelo mundo, aparecem as garçonnes, marcando com a sua presença os années folles, entre 1919 (fim da Primeira Guerra Mundial) e 1929 (início da Grande Depressão). Também elas lutaram pela emancipação e pela igualdade dos sexos, usando uma forma de cross-dressing. Isso reflecte a mutação cultural da representação do género feminino e prefigura a mulher contemporânea. É muito conhecida a história de como Coco Chanel apareceu uma vez num evento social vestida com um fato de homem e assim desafiou os limites impostos ao seu sexo como também à classe a que pertencia (a classe trabalhadora).

O trabalho de fotógrafa encaixa-se bem neste novo tempo. Ele promete a expressão artística, reconhecimento profissional e até mesmo a independência económica.

Marianne Breslauer teve duas carreiras na sua vida, uma foi a de artista e outra a de galerista, quando decidiu deixar a fotografia de lado e dedicar-se à galeria do seu marido onde alcançou o mesmo sucesso. Foi amiga de muitos artistas e intelectuais da época, de entre os quais se distingue para além da amizade com o Man Ray, a sua misteriosa e pouco explorada relação com a escritora e fotógrafa Annemarie Schwarzenbach (a propósito, a sua exposição esteve este ano no Museu Berardo, no CCB). Depois de se conhecerem, as mulheres partiram juntas para uma viagem por Espanha no Mercedes branco de miss Schwarzenbach (só para lembrar que não era muito comum as mulheres conduzirem um carro na altura... ). Marianne disse em homenagem à sua amiga esta frase que atravessa o tempo: “Neither a woman nor a man, but an angel, an archangel.â€

É interessante ver esta exposição e visitar o Museu Judaico que fica à distância de poucos minutos do Berlinische Galerie, ambos no bairro de Kreuzberg. Concebido pelo arquitecto Daniel Liebeskind e aberto desde 2001, o museu tematiza a história social, política e cultural dos judeus na Alemanha desde o século IV até ao presente. O arquitecto refere-se, na apresentação do museu, à “nova arquitecturaâ€, entendida como uma abrangente visão da história, dos museus e da relação entre o programa e o espaço arquitectónico. “To summarize this fourfold structure: the first is invisible and irrationally connected star which shines with absent light of individual address; the second is a a cut off of Act 2 of Moses and Aaron†(uma peça do compositor Schöneberg) “which culminates with the non-musical fulfilment of the world; the third is the ever-present dimension of the deported and missing Berliners; the forth is Walter Benjamin’s urban apocalypse along the One Way Street†(o livro dedicado à mulher que nunca conquistou).â€

Na altura em que visitei Berlim, Judith Butler estava na cidade a participar na conferência “Performing the Future†com um discurso intitulado “Performative Gender, Precarious Politics - or, Whose Future?â€. Ela entende o género como performance, ideia que partilha com as mulheres dos anos vinte.

Como se sabe, Judith Butler rejeitou o prémio Berlin Pride, dedicado à exemplar coragem civil dizendo: “I must distance myself from this racist complicity.†A crítica dirige-se ao homo-nacionalismo anti-imigrante e anti-muçulmano galopante das Marchas de Orgulho internacionais. Aqui não escapam as Marchas de Lisboa ou de Liubliana, a primeira por deixar de fora a vasta população brasileira e a segunda por negar a exploração legalizada dos inúmeros trabalhadores originários da Bósnia no país, enquanto na Alemanha, “o problema†são neste momento os turcos (como também as pessoas de cor ou religião não maioritária), não conseguindo o país livrar-se do fantasma do passado.

Como se pode esperar, senti-me em casa em Kreuzberg, no bairro dos imigrantes turcos e artistas emergentes, tal como também em Lisboa, onde sempre tive incontornáveis amigos brasileiros, ou amigos da ex-Jugoslávia (seja qual for a sua nacionalidade no pós-guerra), estes últimos espalhados pelo mundo...

Basta lembrar, e através disso estabelecer a ligação entre as duas épocas separadas por quase um século, que o nazismo (e a sua versão global, o fascismo) foi baseado em mitos e na irracionalidade.


Rosana Sancin