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EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Pedro Vale, "A Culpa Não É Minha", 2003.


Noé Sendas, “Versus”, 2005.


Noé Sendas, “Versus”, 2005.


José Maçãs Carvalho
, “Striptease as Textualit”, 2001
. Vídeo (DVD), cor, som, 3 min. 33 seg.


João Tabarra, “O Encantador de Serpentes”, 2007. Fotografia: André Cepeda. Cortesia Galeria Graca Brandão.

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ARQUIVO:


COLECTIVA

A Culpa Não É Minha - Obras da Colecção António Cachola




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

13 SET - 09 JAN 2011


Uma exposição colectiva é sempre complexa e pode ser ingrata para alguns dos artistas presentes. No caso de obras pertencentes a uma colecção particular é ainda mais traiçoeiro porque refletem não uma unidade temática ou formal, mas muitas vezes apenas o critério ou afeição do próprio coleccionador. “A Culpa Não É Minha - Obras da Colecção António Cachola” tem curadoria de Eric Corne e está patente no Museu Berardo. António Cachola tem adquirido obras de artistas portugueses da geração mais recente e a sua colecção é bem representativa desta geração que vai de Pedro Cabrita Reis a André Romão.

“A Culpa Não É Minha” (2003) é uma peça de João Pedro Vale, o que poderemos considerar um apontamento irónico numa exposição proveniente de um coleccionador e que mostra um panorama abrangente da arte contemporânea portuguesa. Uma peça em ferro e corda, simulacro de uma árvore seca e nodosa que, tal como um barco, parece encalhada. Estará a criação artística portuguesa encalhada? Eric Corne escolheu este título face ao que pensa ser a atitude dos artistas portugueses perante o estado do mundo. Mas ao longo da história não tem sido todo o artista um crítico e ao mesmo tempo um cúmplice do sistema em que vive? Neste caso, a exposição também se poderia intitular Zeitgeist, numa alusão ao “espírito” de Hegel, já que podemos ver aqui alguns dos nomes maiores da geração que tem vindo a produzir desde o 25 de Abril de 1974.

É contudo inevitável que se destaquem apenas algumas obras. Como a instalação “Versus” (2005) de Noé Sendas, que nos surpreende e até assusta quando nos deparamos com ela. Diferentes tipos e tamanhos de espelhos reflectem um personagem sentado num banco de piano. Esta figura esconde a cara com as mãos, usa luvas e tem os pés sobre uma pequena pilha de espelhos. Nada a identifica, a não ser a angústia que lhe adivinhamos. Tentamos em vão ver o seu rosto, mas o único rosto que os espelhos devolvem é o nosso. Será a angústia do momento criativo? Poderá também significar a angústia que todos sofremos nestes tempos, de não respondermos a um cânone de beleza, ou apenas a angústia de não nos revermos na nossa imagem ou da simples existência. Sendas deixa que seja a imaginação do visitante a dar as respostas.

Fernanda Fragateiro também utiliza espelhos para nos mostrar a angústia, mas neste caso, da violência conjugal em “Público/Privado – Doce Calma ou Violência Doméstica” (1997). Uma estrutura de madeira no canto suporta uma imagem desfocada de uma mulher num ambiente caseiro. Perpendicular a esta imagem de tranquilidade ao mesmo tempo inquietante, está um espelho partido. Mas não está partido ao acaso. Percebemos claramente que foi atingido com violência por um objecto. Este espelho não reflecte apenas a imagem doméstica, mas também devolve a imagem do visitante, porque a violência doméstica diz respeito a todos nós.

Se, como diz Walter Benjamin, “o jogo não é mais do que a origem de todos os hábitos (…) Os hábitos são formas irreconhecivelmente petrificadas da nossa primeira felicidade, do nosso primeiro desgosto” (1), José Pedro Croft brinca connosco e faz-nos voltar à infância através de espelhos suportados por estruturas metálicas de “Sem Título” (2007). Estes espelhos reflectem uma e outra vez a nossa imagem, exigindo de nós o dinamismo necessário para que nos possamos rever em picados e contrapicados vertiginosos. Reflectem também a sala e as estruturas que os contêm em processos de ampliação, multiplicação e fragmentação do espaço envolvente numa encenação cenográfica que questiona os limites espaciais.

Susanne Themlitz também brinca connosco em “O Estado do Sono” (2008) obrigando-nos a passar por uma sala que parece estar em construção, cheia de canas altas e escadotes, e oito personagens incongruentes que nos remetem para um mundo onírico e misterioso onde existem até umas caixas de madeira e ferro que parecem querer mostrar-nos que poderiam conter o nosso subconsciente. Há qualquer coisa de inacabado quer nas personagens que parecem ignorar-nos quer na própria estrutura da instalação, um pouco como se fôssemos nós a acabá-la. Tal como nos sonhos perdemos o controle dos acontecimentos, também aqui, Susanne parece oferecer-nos a própria perda de controle sobre a sua instalação. Num acto de abnegação criativa, a artista lega-nos o poder criativo sobre a sua obra “Aquilo que é grande real e único numa obra de arte não está inteiramente na mão do artista e tem que ser também efectuado por nós.” (2) Mas na realidade, não é apenas Susanne Themlitz que nos oferece esse poder. É também Noé Sendas e José Pedro Croft, como o fazem João Louro, Vasco Araújo, Nuno Cera, Rodrigo Oliveira, Paulo Brighenti, Edgar Martins, José Maçãs de Carvalho, João Maria Gusmão & Pedro Paiva, Pedro Cabrita Reis e todos os outros artistas portugueses que estão representados em “A Culpa Não É Minha”.



NOTAS

(1)Walter, Benjamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1992, p. 176.
(2)Wagner, Richard, A Arte e a Revolução, Lisboa, Edições Antígona, 2ª edição, 2000, p. 66.


Bárbara Valentina