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PATRICE CHÉREAULes visages et les corpsMUSÉE DU LOUVRE Musée du Louvre 75001 Paris 02 NOV - 31 JAN 2011 17 mars à nouveau. André Bazin: “L’écran n’est pas un cadre comme celui d’un tableau, mais un cache qui ne laisse percevoir qu’une partie de l’événement.” La souffrance qui s’est installée progressivement chez moi de n’avoir que les plateaux du théâtre à ma disposition, d’être condamné à cet éternel plan large vu de loin, alors que ce que je vois quand je suis tout près des acteurs est si beau, si partiel et agressif, que mon regard les suit bien, et tout l’effort qu’il faut faire pour que le regard du spectateur suive exactement ce que je regarde moi, et que je force à regarder. Quel outil imparfait que cette scène, cette estrade incommode et qui fait souffrir. C’est de cette tension et de cette insatisfaction que vient tout ce que je fais désormais.” Patrice Chéreau no catálogo da exposição “Les Visages et les Corps”, edição Skira Flammarion O actor, encenador e polémico realizador foi convidado este ano pelo Louvre para fazer uma intervenção no Museu. Escritores como Umberto Eco ou Tony Morrison precederam-no com sucesso. Mas pela primeira vez o convite foi feito a um homem do teatro, como poderia dizer a vox populi, a uma das figuras míticas do panorama cultural francês. Conheci Chéreau, quando era estudante em Coimbra e fazia parte do CITAC (Círculo Iniciação Teatral da Academia de Coimbra). Só com a humildade que se tem aos 20 anos, pensei levar à cena e traduzir para português a peça “Na Solidão dos Campos de Algodão” de Koltès. E nesta apaixonada pesquisa de juventude descobri a versão, encenada por Chéreau, da mesma obra, em forma de combate de boxe. Chéreau rima com Corbeau, nome solitário e negro, e o seu retrato gigantesco, a preto e branco, apresenta-se na fachada do maior museu do mundo. Entro a correr para apresentação da exposição à imprensa, corro entre corredores e corredores de pintura francesa no Hall Sully, entre naturezas mortas e combates de “noirs et chiens” como diria Koltès; não posso impedir-me de parar em frente à “La Raie” (1725-1726) de Chardin e continuo por salas e salas, como se os olhos se preparassem para um encontro final, quando ouço uma voz dizer: “É com um enorme prazer que vejo hoje aqui todas estas obras juntas; obras que pude pedir emprestadas a museus como o de Orsay onde pinturas míticas como “L’ Origine du Monde” (1866) de Courbet se encontram expostas isoladas; nesta sala esse chef d’ oeuvre volta a estar ao mesmo nível de outras obras e encontra-se rodeada por uma fotografia de Nan Goldin e por uma “Jeune femme vue en buste se peignant” (circa 1635) de Salomon de Bray e pode dialogar outra vez!” Patrice Chéreau nesta sua declaração volta a precisar a importância do diálogo para um actor, encenador homem do teatro. Nada se faz sem a perspectiva dos corpos e rostos que se encontram em cena.” O diálogo nasce no Louvre entre múltiplos personagens: autores e obras, fotografias e pinturas, auto-retratos e nus. A sala onde se encontra esta íntima exposição é a Salle Restout, cujas janelas respirariam com uma vista sobre a Cour Carré, mas que perdeu os seus olhos transformada por uma cenografia em tons quentes de Richard Peduzzi. A vizinhança das imagens de corpos e rostos é interessante e a distância temporal ou técnica não impede que a troca de olhares se faça. Porém existe um claro excesso de imagens na sua densidade espacial. A exposição é intimista mas tonitruante. Os quadros sobrepõem-se uns aos outros quase como num cabinet de curiosités sobrelotado, e o que mais me perturba é a excessiva utilização do accrochage em grupos de três obras, como num hipotético diálogo de trindades ou das três idades do homem. Princípio, meio e fim como em toda a representação. Patrice Chéreau, como o próprio afirma, não é curador de exposições mas este seu acto expositivo - que se desdobra numa segunda sala, “Derrière les images”, sob a curadoria de Vincent Huguet, onde se apresentam croquis do autor para as suas encenações e desenhos do seu pai, pintor, que mostram o lado da «personagem» Chéreau - é uma escolha de imagens que correspondem a um retrato pessoal de certa forma obsessivo como toda a sua carreira o demonstra. Autores como Tony Morrison participaram nesta redescoberta do Museu de uma forma mais silenciosa ou subtil, juntado novas legendas a peças precisas ao percurso expositivo pré-existente enquanto que Chéreau entra no Museu declamando a sua obsessão por corpos e rostos que envelhecem e são curados de certa forma pelo nosso amor às imagens. Perto da Pirâmide no hall de entrada do museu apresenta-se o filme de Nan Goldin, um diaporama de fotografias, criado para esta intervenção de Chéreau no Louvre. O nome, que a própria artista descodifica no início do filme, é “Scopophilia – Love of Looking”. É um outro passeio pelas imagens e obras do Louvre feito de forma emocional com outras imagens da obra da fotógrafa norte-americana. Esta é talvez a exposição mais conseguida desta intervenção de Patrice Chéreau no Louvre. Paralelamente serão levadas à cena, no Auditório do Museu, a última encenação de Chéreau: “Rêve d’Automne” a partir da obra homónima de Jon Fosse e de novo “Dans La Solitude des Champs de Cotton” de Bernard-Marie Koltès. Estas intervenções de autores vivos no Louvre permitem sempre rever o museu de outra forma, vivê-lo com Chéreau, quase teatralmente. Embora por vezes o resultado seja um pouco frustrante, talvez por um excesso de ambição, entramos de outra forma no Museu e no imaginário destes mesmos autores.
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