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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Christopher Williams, “Meiko Laughing”, 2005. Guia Kodak Three Point Reflection Guide. 1968 Eastman Kodak Company, 1968. (Meiko laughing) Vancouver, B.C. 6 de Abril de 2005. Prova cromatogénica.


Christopher Williams, “Meiko Smiling”, 2005. 1968 Eastman Kodak Company, 1968. (Meiko a sorrir) Vancouver, B.C. 6 de Abril de 2005. Prova cromatogénica. 50,8 x 61 cm


Christopher Williams, “2003 Corn”, 2003. Guia Kodak Three Point Reflection Guide. 1968 Eastman Kodak Company, 1968. (Milho) Douglas M. Parker Studio, Glendale, Califórnia. 17 de Abril de 2003.


C.W., “Kiev Arsat”. Kiev MC Arsat (Zodiak-8) 30mm f 3.5. 1:3.5 Abertura f/3.5. Nº de série 870701. Objectiva médio formato. Douglas M. Parker Studio, Glendale, Califórnia. 4 de Agosto de 2005.


C. W., “Meiko, 2”, 2005. Modelo # 105M – R59C (Nr. 1-5). Porta de Chuveiro Kestone. 143,5 x 147,5 cm. Cromado/Chuva. SKU # 109149 # 96235. 970 – 084 – 000. (Meiko) Vancouver, B.C. 6 de Abril de 2005.


Christopher Williams, “Lodz”, 2004. Lodz 2 de Outubro de 2004. Prova a cores. 61 x 50,8 cm.

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ARQUIVO:


CHRISTOPHER WILLIAMS

For example: dix-huites leçons sur la société industrielle (revision 4)




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

13 MAI - 18 JUL 2006

Por exemplo: Uma Epistemologia da Imagem Fotográfica

Christopher Williams não é um fotógrafo. É o próprio que recusa essa designação. No entanto, a exposição que agora se apresenta no MAC de Serralves, “For Example: Dix-Huit Leçons Sur La Société Industrielle (Revision 4)” – quarto momento de reformulação desta série que prossegue a agenda estética (recuperando ainda muitas das imagens) de “From Angola to Vietnam*” (1989) e de “For Example: Die Welt ist schön” (série que compreende 24 “revisões”, correspondentes a outras tantas mostras [1993-2001]) – é uma exposição sobre a Fotografia, constituída maioritariamente por fotografias. Apesar da heterogeneidade formal e temática desse corpus de imagens – que “à primeira vista” parece dispersivo e destituído de qualquer possibilidade de articulação –, as referências explícitas e implícitas ao fotográfico são, de modo mais ou menos velado, omnipresentes: se a ontologia da fotografia é a contingência físico-química de fixar e restituir de modo indicial, e algo tautológico, o seu referente – sendo, para isso, fatalmente tornada invisível enquanto medium (o que vemos quando vemos uma fotografia?) –, o programa conceptual de Christopher Williams integra, num primeiro nível especulativo (não esqueçamos que o espelho é uma superfície opaca), uma reflexão sobre a objectividade da materialização fotográfica. Fotografias de máquinas fotográficas; fotografias de fotografias; fotografias de arquivos fotográficos; fotografias de modelos em pose para outra máquina fotográfica; o reflexo do fotógrafo nos olhos da modelo fotografada; a inclusão, na fotografia, da escala de cores (Three Point Reflection Guide); a destacada presença, em várias fotografias, de um determinado “amarelo Kodak” que remete para o material fotográfico dessa marca; ou o recurso a códigos da fotografia estereotipada (publicitária, científica, etnográfica, de moda, de arquitectura); são algumas das estratégias que visam a estatuição da visibilidade da fotografia como fotografia. Por outro lado, a referência directa, pela apropriação do título “Die Welt ist shön” (O mundo é belo), ao livro de Renger-Patzsch (colectânea de fotografia de tendência modernista, publicada em 1928, onde se tipifica o ethos da Neue Sachlichkeit, determinante de uma “nova visão” sobre as coisas fotografadas, isolando-as em close-up), concretiza o dialogismo crítico que a obra de Williams mantém com a história da fotografia – problematizando particularmente o paradigma Iluminista de racionalização e ordenação cartesiana do mundo a partir de um presumível centro neutral, recuperado pela “nova objectividade” –, em vista de uma crítica do realismo documental (bem como da museologia burguesa) e das suas implicações históricas, políticas, económicas e estéticas que constituem, como é sabido, o “credo” da sociedade industrial, da sua crítica institucional e das suas práticas colonialistas e neo-liberalistas.

A convergência, na pesquisa fotográfica (icónica) de Christopher Williams, destes dois movimentos opostos – assumpção da opacidade material da fotografia e exploração da sua potencialidade tecnológica para a reportagem objectiva, para a apreensão da essência fenomenal das coisas (“Die Dinge”), tornando possível, através de um “realismo absoluto”, a injunção da “coisa ela própria” (Husserl) – produz inevitavelmente um choque, agravado pela estetização e pelo embelezamento que resultam do isolamento e da ordenação controlada dos objectos (sendo esta uma das principais críticas de Benjamin à Neue Sachlichkeit, tomando como exemplo paradigmático “Die Welt ist shön”; e um dos pontos de polémica de Williams relativamente aos pressupostos da Arte Conceptual, que matricialmente enformam o seu trabalho). E se a anulação dos conflitos é o fim da história (para usar mais um dos chavões do pós-modernismo), ensaiada por Rosalind Krauss ao relegar a fotografia ao arquivo (e não ao museu), Christopher Williams centra o Mittelpunct no “espaço do entre”: porque cada forma (cada imagem) é algo em aproximação histórica de si própria, é a história interna da sua transformação histórica: a solidariedade sistemática entre a ordem morfológica e a significação (relação iconológica), isto é, uma visão sinóptica, uma visão integral das passagens (ver é ordenar).

A camera like this one [Kiev 88] had high aims… and it got pretty far. It accompanied an astronaut. When it slipped out of his hand in space it became a satellite from one second to another and since then it is zooming trough space. We didn’t construct it for this – but strange things will happen to extraordinary people. To extraordinary cameras too.

Constituindo a generalidade das imagens signos históricos por excelência, as fotografias de Christopher Williams incidem, particularmente, no reconhecimento de identidades culturais, comportando, já se disse, um labirinto de referências directas e indirectas aos padrões taxinómicos e classificativos que parametrizam esse reconhecimento – realizado, invariavelmente, a partir do “ponto de vista” subjectivo das culturas dominantes, “for example:” –, bem como aos critérios de rigor e isenção que avalizam a objectividade da imagem etnográfica (a eficácia da imagem publicitária, a imparcialidade da imagem judicial, etc.). Mas o realismo absoluto conduz ao distanciamento brechtiano: quanto maior é a pretensão de objectividade – as fotografias de Williams são acompanhadas de legendas exaustivas contendo informação técnica, listas detalhadas de atribuições e descrições referindo fontes, dimensões, materiais e procedimentos – maior será a ambiguidade e o efeito emblemático (a revelação de sentidos ocultos) das imagens: apresentando-se como correctivo racional que visa recentrar a beleza retiniana das fotografias numa função eminentemente documental e monorreferencial (material), as legendas sublimam, paradoxalmente, a intertextualidade (subtextual e contextual) e a polissemia dessas mesmas imagens, correlacionadas num paragramatismo sintagmático, produtor de significados. As fotografias de Christopher Williams pressupõem pois uma história integralmente contida na imagem, um encadeamento de acontecimentos narráveis. A abertura deste espaço diegético põe assim em causa a especificidade indicial e mimética (não narrativa) da imagem estática, tal como foi sendo estabelecida, desde as classificações disciplinares de Lessing (artes do tempo / artes do espaço) e da fixação da natureza-morta como género, o que compromete a fetichização da imagem “pura”, imediatamente sensual, ideologicamente prostituída como verdade, embora nem tudo seja o que parece. E, como as convenções narrativas determinam que todas as histórias comecem por era uma vez, a história que podemos “ler” em todas as fotografias de Williams começa, por exemplo, assim: era uma vez o Ocidente (ou a América?).



António Preto