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COLECTIVAÀs Artes, Cidadãos!MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 22 NOV - 13 MAR 2011 O convite surgiu da Comissão para as Comemorações do Centenário da República Portuguesa: ao Museu de Serralves era lançado o desafio de organizar uma exposição em torno das relações entre a arte e a política. A João Fernandes, director do Museu, juntou-se Óscar Faria como comissário convidado, crítico de arte já ligado à organização de exposições de cariz semelhante como “Quartel – Arte, Trabalho, Revolução”, em 1999 e 2004. “Às Artes, Cidadãos!” apresenta propostas de 30 artistas e colectivos de vários pontos do globo seleccionados pelos comissários quer pelo teor do seu trabalho, quer por pertencerem à geração pós-Muro de Berlim, ou seja, todos nascidos a partir do ano da sua construção, 1961. Recuperando a verso da Marselhesa, o hino francês que dá o mote à Revolução Francesa e, consequentemente, à república e à política contemporânea – “Aux armes, citoyens!” – “Às Artes, Cidadãos!” como que reconduz a leitura dessa noção de intervenção social e política original para um entendimento da arte enquanto ‘arma’ de alerta para as consequências das linhas políticas das sociedades contemporâneas sobre si próprias. Embora os comissários rejeitem a filiação das obras que integram a exposição com arte política, a exposição levanta questões sobre uma arte comprometidamente política na intenção, sobre uma linha de trabalhos artísticos claramente empenhados em desafiar quer o pensamento crítico sobre a sociedade contemporânea, quer as formas que a arte pode assumir numa vertente de activismo político e social. E se bem que não possamos falar de uma ‘arte política’, no sentido de uma arte comprometida com uma determinada ideologia e/ou ao serviço de um sistema político, é possível entrever uma preocupação que atravessa toda a exposição: o desafiar desse mesmo conceito. O conjunto de obras que integram “Às Artes, Cidadãos!” – no Museu de Serralves e nalguns pontos espalhados pela cidade do Porto – resulta assim num grupo heterogéneo mas bastante coerente na apresentação de um discurso expositivo que sobre as actuais abordagens da arte ao político. Esta heterogeneidade faz-se notar não só pela diversidade de práticas – da fotografia e do vídeo à instalação, da performance ao site-specific, entre outras – mas também pelas preocupações múltiplas que atravessam os discursos dos autores, e os modos como as resolvem. São abordadas questões como a emigração, a exclusão, a opressão ou os conflitos. E a partir de pontos de vista tão diversos como o historicista, o sociológico, o antropológico ou o documentalista. Dos trabalhos dos artistas portugueses – entre os quais André Romão, António de Sousa, João Sousa Cardoso, Mariana Silva – destaca-se a obra de Rigo, Fátima na Ribeira Seca. Um trabalho que não só critica um episódio recente na ilha da Madeira, de onde o artista é natural, relacionado com a marginalização do pároco local pela igreja e da sua defesa pela população, como revela uma cumplicidade activista na extensão da peça a uma tela afixada numa parede cega na zona da Ribeira do Porto com uma frase utilizada pela reacção popular de então: Isto, o Povo Não Esquece. Numa abordagem à questão da emigração, a colombiana Carolina Caycedo convidou trabalhadores da área da cultura emigrados em Portugal a desenvolverem consigo um projecto a partir da leitura e discussão em conjunto de textos e questões individuais relacionadas com a sua própria deslocação e da noção de fronteira e estrangeiro. Daí resultou uma selecção de frases posteriormente afixadas pelas paredes, chão e tecto das escadas que conduzem ao piso inferior do museu. O australiano Tom Nicholson, num projecto assumidamente activista, oferece aos visitantes um livro constituído pelas primeiras páginas dos livros que ele próprio ofereceu a bibliotecas de Díli, em Timor, pedindo em troca que deixem um exemplar de uma obra de referência que o artista fará depois chegar a Timor. A palestiniana Ahlam Shibli apresenta um projecto fotográfico particularmente interessante do ponto de vista da consciência e reconstituição histórica sobre a população de Tulle, cidade francesa. Retrata-se aqui eloquentemente a perversidade da guerra e dos conflitos humanos, através de registos e testemunhos pessoais e comunitários de uma população que tanto foi alvo de massacre pelas tropas nazis no final da II Guerra Mundial, como, anos mais tarde, se tornou ela própria parte do opressor nas lutas pela independência na Indochina e na Algéria. Ainda que na perspectiva dos comissários esta seja uma exposição do ponto de vista dos vencidos e não dos vencedores, este é um dos trabalhos que mais directamente questiona essa postura de unilateralidade: os papéis de vencido e de vencedor com alguma facilidade e frequência se invertem nos lugares da história.
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