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GENERAL IDEAHaute Culture: General Idea, Une Rétrospective 1969-1994MUSÉE D’ART MODERNE DE LA VILLE DE PARIS 11, avenue du Président Wilson 75116 Paris 11 FEV - 30 ABR 2011 Antecedendo a sua apresentação no Canadá (na Art Gallery of Ontario de Toronto), Paris tem o privilégio de poder receber esta retrospectiva da obra do colectivo General Idea (1969-1994), encapsulada em cinco núcleos, abrangendo as suas principais temáticas. A tempo de homenagear o único membro sobrevivente do grupo, AA Bronson, esta exposição é apresentada como a mais completa revisão de sempre da obra do colectivo canadiano. Ao entrar, já não nos deparamos nem nos iremos, num futuro próximo, deparar com as filas de centenas e centenas de metros alcançadas sucessivamente pela – surpreendente e transbordante – retrospectiva de Basquiat, mostra que a antecedeu. Felizmente, não se trata de mais um blockbuster – porque esperar numa fila, horas a fio, à chuva e ao frio, não é, de todo, uma boa forma de começar o dia – e Haute Culture: General Idea não deixa de ser uma aposta ganha da programação 2011 do Musée d’Art moderne de la Ville de Paris. O colectivo General Idea nasceu em 1969 pela mão de Michael Tims (1946), Ronald Gabe (1945-1994) e George Saia (1944-1994), mais conhecidos como AA Bronson, Felix Partz e Jorge Zontal (respectivamente). Ao longo de mais de duas décadas, este trio criou uma identidade singular, recorrendo a um humor corrosivo e sarcástico e a uma postura lúdico-crítica, tão séria quanto provocadora, declaradamente militante, denotando sempre, ao longo do seu percurso, uma agenda e estratégia muito bem delineadas. O primeiro núcleo da exposição, intitulado L’artiste, le glamour et le processus créatif (O artista, o glamour e o processo criativo) transporta o visitante para o universo irónico e ficcional de Miss General Idea, uma espécie de Rrose Selavy, projecto de longa duração, metáfora, e sobretudo, musa. Esta figura mítica é introduzida na exposição a partir de um primeiro retrato, sendo depois seguida em vários momentos chave através de imagens, objectos, documentos vários e um vídeo inédito. Em 1971, o grupo anuncia que a Miss General Idea será oficialmente apresentada ao público num concurso de beleza a ter lugar no ano de 1984 (treze anos mais tarde). No entanto, foram, entretanto organizados, em 1970 e 71, dois pageants (com amigos do colectivo como concorrentes) para eleger as duas primeiras Miss General Idea. Esta musa, opera, no trabalho de General Idea, como figura simbólica, traduzindo aquilo que é a ideia, o processo artístico criativo, a produção e a apresentação de uma obra. O auto-retrato e a auto-representação, momentos de culto da imagem dos artistas, encontram-se expostos ao longo de toda a exposição, no entanto, é aqui que o género é apresentado e onde a simbologia utilizada é introduzida ao público. O trio é colocado em diferentes cenários, representando diferentes papéis, entre o humor e a crítica, surgindo frequentemente na presença dos seus objectos simbólicos recorrentes (o tubo de ensaio, a cápsula, o zigurate, a caveira, o caniche, o copo de cocktail, entre outros). É ainda de notar, a presença de XXX (bleu) neste primeiro núcleo, um testemunho da performance – intitulada General Idea XXX (bleu) – realizada em 1984, no Centre d’art contemporain, em Genebra (1). A mise en scène consiste em três gigantescas telas (sem grade) colocadas na parede. Cada membro do grupo banha um caniche de peluche de tamanho médio em tinta azul, na sua tonalidade IKB, e usa-o para descrever um enorme X na tela respectiva. O que é deixado é o resultado dessa acção, sendo cada um dos três poodles brancos (alter egos do colectivo) semi-cobertos de IKB, deixados no chão, em frente à sua tela. Inspirado no filme Mondo Cane, de 1962, e prestando homenagem a Yves Klein, este trabalho representa o retorno experienciado no início da década de 1980 à energia e agressividade da pintura gestual. Culture de masse (Cultura de massa) é o segundo momento da exposição. Aqui é apresentado o interesse de General Idea pela sociedade de consumo (pela sua espectacularidade) e pelos media através de uma série de trabalhos que traduzem a sua visão crítica sobre este universo: “Sabíamos que para ser artistas e para ser artistas glamourosos deveríamos ser artificiais e assim fomos” (2). A obra mais interessante e bem conseguida é, sem dúvida, a instalação Boutique du Pavillon de Miss General Idea 1984. Abordando questões de direitos de autor, esta boutique, ou quiosque, emerge no meio do espaço expositivo formando o símbolo do dólar e apresentando vitrinas onde os objectos fetiche do grupo surgem como merchandise, entre postais, posters e diversas edições da FILE. Esta revista (uma referência clara à popular revista LIFE), conta com quase três dezenas de números publicados de 1972 a 1989 e constitui uma parte importante do trabalho do colectivo. Para além de ser um modo de partilha das suas ideias, experiências e trabalho, o grupo cedo adoptou uma estratégia similar à de Andy Warhol e Gerard Malanga com a Interview, tornando-a mais abrangente, glamourosa e diversificada. Architectes/Archéologues (Arquitectos/Arqueólogos) constitui o terceiro núcleo da mostra. Apresenta momentos importantes das edificações elaboradas a partir do ficcional Pavillon de Miss General Idea 1984. Se Miss General Idea simboliza o processo criativo, o pavilhão representa o espaço de apresentação da obra. Esta ficção, trabalhada a partir da construção do pavilhão (com diversos documentos, como plantas do espaço e esquiços) e da sua – não menos ficcional – destruição (através da criação de pretensos vestígios, “reconstruções” de diversos murais e ainda “documentos” que apresentam provas da sua destruição) constitui um “verdadeiro” projecto arqueológico que propõe uma redescoberta da mitologia General Idea. Segue-se uma sala, onde são apenas permitidas 19 pessoas de cada vez, sob o título Sexe et réalité (Sexo e realidade). Uma pequena sugestão dirigida aos mais sensíveis é deixada à porta: não entrar. O alter ego caniche surge mais uma vez, desta feita, em grandes telas em tons néon sob fundo preto, com formas estilizadas e (inventivas) cenas de ménage à trois caninas inspiradas nas consagradas posições do Kama Sutra. Esta série, pensada numa ligação directa às reivindicações dos direitos dos homossexuais da década de 1970, não se limita à temática da homossexualidade, tentando introduzir questões ligadas à instituição “família” e às estruturas sociais vigentes. É de destacar ainda o projecto Orgasm Energy Chart, onde o público foi convidado a, durante um mês, preencher (e depois enviar aos artistas) um gráfico com a sua actividade sexual diferenciando os vários tipos e intensidades dos seus orgasmos. Uma série nunca antes apresentada de desenhos de figuras híbridas de Jorge Zontal completa a sala. O último núcleo oficial, intitulado AIDS (SIDA), encontra-se um pouco por todo o espaço expositivo. A imagem viral, de guerrilha, do projecto AIDS (começado em 1987), composição directamente retirada do sobejamente conhecido e sobreexposto LOVE, de Robert Indiana (1964), vai sendo apresentado subtilmente, sem se impor, ao longo do percurso expositivo (desde a entrada do museu, em versão escultórica, até às derradeiras salas, onde é finalmente ensaiada uma tentativa de invasão do espaço com cartazes e diferentes versões em tela AIDS à la Indiana). Apesar da exposição ser fundada de uma notável selecção de obras e de ser acompanhada de um bom e completo catálogo, no final, permanece uma sensação de ausência de alguma ousadia e ambição na montagem (que se revelou muito clássica e, por vezes, seca). Alguns núcleos, em particular o Culture de Masse e o AIDS, pediam mais dinâmica e uma accrochage mais arrojada. Ainda assim, não se deixa de ficar com bastante mais do que uma ideia geral deste colectivo e do seu percurso. NOTAS (1) General Idea, Haute Culture: General Idea, Une Rétrospective 1969-1994, ARC/ Musée d’Art moderne de la Ville de Paris, Paris musées, 2011. (2) General Idea Glamour. FILE Magazine, vol. 3, no. 1, Autumn 1975, p. 32.
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