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EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Casuar, 2010. Filme 16mm, cor, sem som, 4’37’’.


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Casuar, 2010. Filme 16mm, cor, sem som, 4’37’’.


Vista da exposição na Galeria Graça Brandão.


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Tapete Persa, 2010. Fotografia a cores, 53 x 69 cm.


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Sonho de uma raia, 2011. Filme 16mm, cor, sem som, 2’48’’.


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Gato a cair, 2010. Fotografia a cores, 90 x 70 cm (49 x 36 cm).


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Galinha Bêbeda, 2010. Fotografia a cores, 75 x 98 cm.


Vista da exposição na Galeria Graça Brandão.


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Poliedro de Frutas, 2009. Filme 35mm, cor, sem som, 2’42’’.


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Mão mais pequena que mão, 2009. Filme 35mm, cor, sem som, 1’48’’.


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Sistema Planetário, 2010. Fotografia a cores, 93 x 125 cm.


João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Acerca do movimento astronómico, 2010. Instalação.

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ARQUIVO:


JOÃO MARIA GUSMÃO + PEDRO PAIVA

Breve História da Lentidão e da Vertigem




GALERIA GRAÇA BRANDÃO (LISBOA)
Rua dos Caetanos, 26
1200-079 Lisboa

22 JAN - 12 MAR 2011

O maravilhoso mundo das incompossibilidades

É sabido que Leibniz foi o primeiro teórico a redireccionar a lógica para o domínio das compossibilidades e incompossibilidades alógicas, ultrapassando assim os seus princípios organizadores do sentido, como a identidade e a contradição (verdadeiro, falso, igual, diferente, etc.). Deste modo, os fenómenos, não subordinados àqueles princípios, constituem-se como compossibilidades, caso convirjam no conjunto das suas singularidades e pertençam ao mesmo mundo ou, em alternativa, definem-se como incompossibilidades, caso as suas séries de singularidades componentes entrem em divergência e digam respeito a mundos possíveis mas, todavia, distintos. Porém o regime co-possível leibniziano confronta-se também ele com um problema e que Deleuze vem resolver. Ao entender o fenómeno como possibilidade, Leibniz serve-se da regra da incompossibilidade para excluir os fenómenos divergentes e atribuir um uso negativo à própria divergência. Nele, por exemplo, uma raia imóvel e uma raia móvel não poderiam nunca coexistir na mesma situação, assim como tantos outros paradoxos, pois se uma raia é imóvel ela exprime um mundo possível mas diverso do mundo real em que uma raia se move. Em última instância, as raias excluir-se-ão reciprocamente. Deleuze, para quem o fenómeno existe como virtualidade, transforma pois a divergência entre fenómenos em objecto de afirmação, devolvendo assim ao plano das incompossibilidades toda a sua potência.


Apaixonados por paradoxos assim como pelo desconhecido, João Maria Gusmão e Pedro Paiva desenvolvem hoje, sob o signo do carácter afirmativo das incompossibilidades, um dos trabalhos mais estimulantes e próprios do panorama artístico português. Tomemos como caso de análise a sua última exposição intitulada “Breve História da Lentidão e da Vertigem”, em apresentação na Galeria Graça Brandão, Lisboa.


Como já vem sendo hábito, cada exposição de JMG+PP apresenta normalmente um vasto conjunto de peças realizadas em diferentes media, onde o filme em película, a fotografia e o objecto actuam como meios predominantes, e esta também o faz, juntando no total vinte e três trabalhos produzidos entre 2009 e 2011. Ora, cada um dos trabalhos, apesar de preservar a sua autonomia, ou antes, a sua singularidade, relaciona-se no espaço expositivo como uma variante de uma imensa história, que apenas poderá ser contada se dela sairmos com a certeza de bebermos um copo!


Comecemos então. A nova história construída por JMG+PP diz-se da lentidão e da vertigem e tem como protagonistas as coisas que “terminam em rabo de peixe”. No texto que acompanha a exposição, os artistas explicam, recorrendo a Horácio, que estas coisas são aquelas que, como às sereias, “não correspondem às expectativas do seu princípio” e que existem como “problemas sem solução”. Mas por isso mesmo, por não estarem ancoradas a princípios e gravitarem em torno de múltiplos sentidos, são também as mais maravilhosas, capazes de nos conduzir a zonas não expectáveis, onde todas as vontades e desejos por mais divergentes e estranhos passam a coexistir, irredutíveis às leis do conhecimento. Vejamos agora de perto algumas das formas encontradas pelos artistas para este tipo de coisas e que na sua discursividade vão piscando o olho a diferentes campos como a ciência, a etnologia, a mitologia, o ilusionismo ou a história da arte.


Entre os vários filmes de 16mm dedicados ao registo de fenómenos, destacam-se três pequenos filmes mudos projectados em sequência na mesma cabine. Tapete Persa (2011), como o próprio título indica, consiste no plano fixo de um tapete de padrão persa ligeiramente enrugado que preenche todo o enquadramento da imagem. Enquanto o nosso olhar começa a diluir-se naquele padrão, uma estaca de madeira sobrevoa o tapete deixando o traço da sua sombra, ao mesmo tempo que introduz profundidade de campo na imagem. Neste preciso instante geram-se então duas situações inesperadas que em nada correspondem às expectativas iniciais: o tapete não voa, antes um material sólido precário cuja sombra não obedece à respectiva forma e prefere moldar-se à do próprio tapete. Uma sombra autonomiza-se assim da forma que supostamente a gera. Estes poderes invulgares e indisciplinados são igualmente comuns aos da raia, personagem do segundo filme, Sonho de uma raia (2011), que goza da capacidade especial em ser um corpo fixo e móvel de uma só vez e aos dos potes do terceiro filme, Pote mais pequeno que pote (2010), que em jeito de matrioskas aglutinam potes dentro de potes num processo contínuo de transformação de formas, números e géneros que culmina em três ervilhas.


O humor com que os artistas reportam este tipo de fenómenos, tão recorrente no seu trabalho, estende-se também às várias fotografias apresentadas na exposição. Na sua maioria, estas imagens procuram cristalizar momentos de excepcionalidade, pequenos instantes dilatados no tempo que baralham as forças da gravidade, como Gato a cair, Batata a cair ou Corpo de palha (2010), que tornam visível o estado embriagado de um animal através das marcas das suas patas, como Galinha Bêbeda (2010) ou que testemunham a sombra e as forças mágicas de um objecto de culto, neste caso uma cabaça, vejam-se A Sombra e O Espírito da cabaça (ambas de 2010).


Esculpida em madeira de cedro, a escultura de grandes dimensões, intitulada Espírito da cabaça (2010) e exposta ao lado destas fotografias, acaba pois por prestar uma homenagem à dita cabaça, a qual reaparece junto aos seus pés, mas materializada em betão armado. Se o uso deste objecto se encontra deste modo vedado, a sua ligação à vida é todavia duplamente insinuada, quer pelo carácter totémico, quer ainda pela linguagem construtivista que a escultura claramente assume. Por sua vez, este trabalho parece introduzir um dado novo na história que nos ocupa, já que coloca as coisas terminadas em rabo de peixe em relação com a história da arte, à semelhança de outras peças da exposição.


Casuar (2010), Poliedro de Frutas (2009) e Mão mais pequena que mão (2009) são a este respeito exemplares. Três filmes mudos de 16mm que deslocam e reinventam uma série de convenções ligadas a géneros de pintura ou mesmo à própria museologia e apresentação de objectos artísticos. O primeiro, consiste num pequeno filme que nos fala de um incidente introduzido por um casuar. O plano fixo de uma pintura, em concreto de uma paisagem natural renascentista, é subitamente assaltado pela presença do animal que se passeia à frente daquela, destruindo o efeito de ilusão que a perspectiva procura alcançar junto do espectador. Já em Poliendro de Frutas e Mão mais pequena que mão, filmes produzidos pelo Centro Cultural Inhotim, Minas Gerais, outras situações inusitadas acontecem. No primeiro, uma natureza morta tropical entra em movimento enquanto os seus frutos, cortados em formas geométricas, levitam e giram suspensos como corpos planetários. No segundo, os dedos de uma mão percorrem um tampo de mesa em madeira de uma ponta à outra, improvisando a ida de um visitante à secção de esculturas de um museu de antiguidades cósmicas. No entanto, o rigor deste acervo, constituído exclusivamente por formas celestiais, é destabilizado pela presença da escultura de um pé humano que, de certo modo, atraiçoa também o visitante, impelido que está a dar um passo em frente para prosseguir a visita, porém já sem tampo que o ampare.


Mas não só de formas inimagináveis e de poderes mágico/disruptivos estas incompossibilidades de JMG+PP são feitas. Mesmo a chegar ao fim, “Breve História da Lentidão e da Vertigem” dá-nos conta ainda dos segredos que estas coisas especiais guardam nos seus movimentos. Spaghetti Tornado (2010), filme de 16mm produzido pela Fondazione Brodbeck, Catania, devolve-nos o registo do que parece ser a fabricação de esparguete com recurso a métodos fabris muito rudimentares. Uma plataforma de aço presa a um gancho iça os vários fios de esparguete e fá-los mergulhar num recipiente. Desta mesma acção repetida ao infinito, surgem planos diferentes que se sobrepõem e entrelaçam os fios, criando uma grelha de esparguete. A este trabalho associemos Acerca do movimento astronómico, 2010, uma projecção de várias imagens de rodas de bicicletas sem pneus. Tal como no trabalho anterior, também aqui estes objectos se sobrepõem uns nos outros e falam do seu próprio movimento. Todavia, contrariamente ao esperado, estamos perante imagens em movimento desencadeadas não pelo aparatus fílmico, mas por um simples sistema mecânico escondido no lugar da cabine de projecção e que se deixa revelar através de pequenos óculos. Ao espreitar, o espectador encontra assim um conjunto de ventoinhas em funcionamento e projectores de luz localizados atrás de cada roda, sabendo agora tratar-se de uma câmara obscura.
Ambos os trabalhos insistem portanto na investigação de movimentos de unidades com velocidades próprias enredados nos movimentos envolventes de outras unidades com velocidades distintas, movimentos não lineares, sem princípio e fim, a bifurcar a todo o momento.


Não será esta uma analogia para o próprio sentido incompossível de todas as coisas com rabo de peixe?


Sofia Nunes