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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Paulo Nozolino, Makulatur, 2011. Cortesia: Galeria Quadrado Azul.


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PAULO NOZOLINO

Makulatur




GALERIA QUADRADO AZUL (ANTIGO ESPAÇO EM LISBOA)
Largo dos Stephens, 4
1200-457 Lisboa

24 FEV - 21 ABR 2011


Após um interregno de dois anos, a Galeria Quadrado Azul volta a apresentar a obra mais recente de Paulo Nozolino, segundo o título Makulatur, uma palavra alemã que remete para aquilo que está estragado, o desperdício, o que resta.

O espaço da galeria prevê, ao entrar, que o olhar do visitante, seja imediatamente direccionado para as obras, chegando estas, por vezes, a serem perceptíveis do exterior da galeria. Com esta exposição tal não sucede. A primeira sala está completamente vazia, funcionando como uma antecâmara luminosa, que contrasta directamente com a sala seguinte de maiores dimensões, que se encontra parcialmente vazia e numa quase total penumbra, sendo apenas interrompida por uma estrutura cúbica, com uma única abertura. Uma sala dentro de outra sala, uma estrutura que ronda sensivelmente os doze metros quadrados, com as paredes exteriores de aspecto inacabado, em contraponto com o seu interior, impecavelmente acabado, de tecto baixo e de iluminação amarelada. É no interior desta estrutura arquitectónica, construída para a exposição, que encontramos as doze fotografias – os seis dípticos em foco.

As fotografias agora expostas apresentam-se – ao nível formal – na continuidade do trabalho desenvolvido por Nozolino, já largamente reconhecido e legitimado pelo panorama artístico nacional como uma das figuras centrais da fotografia contemporânea, onde consta sistematicamente o maturado trabalho da imagem a preto e branco, o denso contraste e a forte presença de granulação. Desenvolvendo, assim, um trabalho extremamente espesso, de negros enfatizados, quebrados por uma luz que dá a conhecer apenas o indispensável, exigindo tempo para uma demorada contemplação das imagens. O tempo é uma questão muito presente, redistribuindo-se por diversas posições, presente no momento da observação, e estruturante do modo de fazer fotografia do artista. É este o factor que determina o prolongamento do momento, a construção de uma narrativa, encontrando-se nos antípodas do instante decisivo – o anti-instante. O que se manifesta numa fotografia muito pensada, inteiramente relacionada com o analógico, aquele que é para Nozolino o único meio possível de fazer fotografia.

Ao longo dos anos o trabalho de Nozolino tem vindo a captar o intemporal e o não lugar, temáticas subjectivas com poucas ou nenhumas referências, sendo apenas dado a conhecer uma matriz que parte do seu íntimo e de algo profundamente pessoal. Em Makulatur é notório um cunho diferenciador no seu percurso, abordando um tema traumático, o que concede objectividade ao espectador, e a si mesmo, numa directa representação e apresentação da figura de dois velhos – seus pais – remetendo para um acontecimento ainda muito presente, a morte do pai em 2008 e a morte da mãe em 2009. São registados os últimos momentos de vida de cada um, onde é facilmente perceptível o peso da doença, retratos que ganham brutalidade por estarem inseridos num conjunto de outras fotografias, que juntos constroem universos de referências representativos da morte: carnes mortas suspensas, naquilo que poderá ser um talho; uma cova aberta, preparada para receber um corpo; armas;... conferindo uma contaminação entre as fotografias, que acentua a força agressiva do conjunto. Esta escolha é representativa do fatalismo com que o artista enfrenta a vida, o peso do inevitável – Tinha que ser capaz. (...) Tenho que ter coragem de fotografar a minha tragédia pessoal. (1) – o luto como acto de coragem para enfrentar o drama e a desolação, sendo esta a forma por si encontrada para fazer frente à perda que dá lugar a um vazio, como processo de catarse, necessário como método atenuante do sentimento de perda, tornando a obra parte integrante de algo extremamente pessoal para Nozolino.

O título pode ser tido como um forte denunciador da acção, que propõe a retenção de um dado momento. Desta forma, o espectador é colocado frente a frente com o que resta. A estrutura construída para a exposição obriga a um posicionamento muito pouco flexível do espectador no espaço, isto porque após a sua entrada, este é atingido imediatamente pelas imagens que o circundam, colocadas em três das quatro paredes, promovendo a confrontação directa entre o espectador e a obra. Nas imagens expostas sem qualquer tipo de filtro, permanece a vontade de expor sem rodeios, o que fomenta o estabelecimento de uma dicotomia, dado que se, por um lado, temos a agressividade frontal do tema, por outro, existe também referências que nos remetem para a ascensão a uma dimensão simbólica associada ao místico e ao divino, ou mesmo a uma religião concreta, sentida na disposição das fotografias em dípticos, na cruz presente numa das fotografias ou na opção da iluminação. A luz cria um ambiente que envolve o espectador e o objecto artístico, dando-se uma materialização do espaço e, por consequência, a sua consciencialização, que simultaneamente anula o branco das fotografias, conferindo um tom amarelado, simulando a passagem do tempo, o que evoca um distanciamento temporal.

Posto isto, é facilmente perceptível o vice-versa entre a importância e o impacto da concepção deste espaço, em estreita relação com as fotografias, que resulta numa obra extremamente coesa e una onde a carga pessoal é aqui totalmente exposta, apresentando assim a aproximação a um auge, que inevitavelmente nos desperta e nos leva a questionar aquilo que poderá vir a seguir.



Notas
(1) Paulo Nozolino “Voltei porque estamos condenados a padecer aqui†in Expresso - Revista Única, 26 de Fevereiro de 2011, p.17.


Flávia Violante