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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Sergio Santimano, Carlos Cardoso em frente ao Piri-Piri, Av. 24 de Julho, Maputo, 1995


Ângela Ferreira, mediaFAX 1, 2011. Aço inox, PVC e serigrafia sobre lamelado de faia. 90 x 266 x 175 cm.


Ângela Ferreira, mediaFAX 1, 2011. Aço inox, PVC e serigrafia sobre lamelado de faia. 90 x 266 x 175 cm.


Ângela Ferreira, mediaFAX 5, 2011. Aço inox, PVC e serigrafia sobre lamelado de faia. 210 x 145 x 91 cm.


Ângela Ferreira, Cena Aberta, 2011. Alumínio anodizado, cabos de aço, luz fluorescente, megafones, som 52 min loop. Cortesia Rádio Moçambique. 370 x 11, 5 x 11,5 cm.


Ângela Ferreira, In memory of Mozambique media legend, 2011. Impressão digital sobre papel mate. 100 x 100 cm. Cortesia: Julie Frederickse.

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ARQUIVO:


ÂNGELA FERREIRA

Carlos Cardoso – Directo ao Assunto




GALERIA FILOMENA SOARES
Rua da Manutenção, 80
1900-321 Lisboa

24 MAR - 21 MAI 2011


“Art, a Thing of no Consequence” (1)
José Ortega y GASSET (1883 – 1955)


O trabalho de Ângela Ferreira (1958, Maputo, Moçambique) desenvolve-se a partir de linhas de raciocínio que surgem da prática de uma arqueologia do acontecimento relatado através da linguagem da arte para o abrir a uma outra evidência e meio de reflexão sobre a realidade, desenhando um discurso transversal entre o artístico e o político. São estas as premissas fundamentais que poderemos encontrar na exposição Carlos Cardoso – Directo ao Assunto, patente ao público na galeria Filomena Soares em Lisboa até dia 21 de Maio de 2011.


Num primeiro encontro, o espaço da galeria parece ter sido transformado num palco com um cenário teatral. As cinco esculturas e duas peças bidimensionais que compõem a exposição, obrigam o visitante a percorrer um circuito expositivo disperso e não linear, exigindo uma relação próxima com o espectador. O protagonista da peça é o jornalista Carlos Cardoso, cuja acutilância investigativa e escrita de combate político denunciava a corrupção e o favoritismo, resistindo às pressões de censura, mas acabando por ser assassinado em Novembro de 2000.
A série de cinco esculturas é colocada em sequência narrativa desde MediaFAX 1, que refere um caso inequívoco para o observador de despedimento forçado de um jornalista, até MediaFAX 5, com um discurso sobre a liberdade de imprensa, fechando o circuito expositivo. Referindo-se a um passado pouco recuado, este conjunto demonstra a fragilidade democrática e as condições de sobrevivência do direito de expressão em Moçambique. Se em três destas esculturas, o texto e visualidade surgem articulados, nas outras duas a obra assume-se aparentemente isolada da expressão verbal. No entanto, para o entendimento perceptivo do visitante, existe uma desarticulação entre o modo de representação e o sentido: a dimensão formal das obras é em si mesma uma linguagem autoreferencial e, detendo um discurso autónomo, reclama uma relação com o conteúdo político das mesmas.


Examinar a realidade através destes modelos do passado, largando o objecto à contemporaneidade, demonstra, segundo Jürgen Bock, a fragilidade do modernismo e expõe o anacronismo da utopia e da ideologia política uniformizadora (2). O referente formal utilizado nas esculturas de Carlos Cardoso – directo ao assunto que parte da geometria como matriz de um sistema de ordenação, propunha uma missão globalizante e uniformizadora contrastando com discurso activista e sentido de luta protagonizado por uma figura única da actualidade. Se por um lado, a obra, em contacto com a realidade, quer apresentar-se inerte para concentrar o conflito entre tempos e linguagens, esta também age e denuncia. Deste modo, a condição inerente do objecto artístico em comunicar, não está condensada apenas no choque entre fragmentos de tempo e entre discursos desarticulados, mas na capacidade do objecto artístico de potenciar, provocar e agir, contendo uma energia vital imanente. A dimensão, a cor e a forma gráfica dos cilindros que representam os rolamentos do fax, meio que Carlos Cardoso utilizava no jornal Metical, de menor alcance, mas efeito mais certeiro, mais consciente e mais seguro, referem o peso grave e importância da escrita como material de luta. A valorização da escala, a colocação no espaço e a inscrição numa grafia modernista de síntese formal, torna o significado das obras mais presente ao observador, e decorre de uma vontade de monumentalizar para preservar a memória, de querer tornar o objecto um arquivo visual imediato do que aconteceu.


Por último, In memory of Mozambican media legend, a reprodução de um cartaz do jornal The Guardian, e a escultura sonora Cena Aberta, atribuem à exposição características de identidade da figura de Carlos Cardoso − o revolucionário e artista que foi e a consternação unânime emitida por um jornal internacional. A peça escultórica emite peças radiofónicas de “O Ritual” de Carlos Coutinho e de “ O Negreiro” de Santana Afonso e sendo um suporte auditivo de largo alcance, dá voz à figura para fazer-se ouvir e afirmar o seu posicionamento político. E utilizando a voz de Carlos Cardoso num objecto artístico, a artista eterniza o seu discurso.

Tal como este jornalista, Ângela Ferreira, através deste conjunto de trabalhos, toma uma opção crítica, age e denuncia, imprimindo nesse agir o seu próprio modo de pensar a realidade.





NOTAS

(1) José Ortega y GASSET (1883 – 1955) “The Dehumanization of art” – Art in Theory, 1900 – 2000: an anthology of changing ideas (ed. Charles HARRISON, Paulo WOOD), Malden; Oxford; Victoria: Blackwell Publishers, 2003, p. 332.
(2) Jurgen BOCK, “Hard Rain Show – em situações diferentes” - Hard Rain Show: Ângela Ferreira, Lisboa: Museu Colecção Berardo Museu de Arte Contemporânea, 2008.


Patrícia Barreira