|
|
COLECTIVAOBSERVADORES - Revelações, Trânsitos e DistânciasMUSEU COLEÇÃO BERARDO Praça do Império 1499-003 Lisboa 14 FEV - 29 MAI 2011 Depois de She is a Femme Fatale, Ana Rito e Hugo Barata regressam como curadores ao Museu Colecção Berardo com Observadores - Revelações, Trânsitos e Distâncias. Esta exposição, co-concebida em colaboração com Jean-François Chougnet, revela-se através de um jogo de distâncias, propondo um olhar renovado sobre a Colecção Berardo no espaço nobre do museu. Reunindo cerca de uma centena de obras, esta mostra abre o espaço do grande hall de forma inédita com um layout que permite escolhas e implica decisões por parte do visitante. Quem são os Observadores invocados no título? Ainda antes de entrar no espaço da exposição, deparamo-nos com Pouce de César, o polegar dourado que evoca a observação rigorosa do objecto num tempo anterior, onde a mimesis era regra e ordem: aqui temos o artista como observador. Já no primeiro núcleo, com Douglas Gordon e as suas celebridades cegas (com espelhos), percebemos que observador invocado não será somente o artista, pois aqui, a obra revela-nos o seu campo de visão e observa-nos. Olha-nos nos olhos. Um pouco mais à frente, com Michelangelo Pistoletto (ou já no final da exposição, com Flesh Nude behind Brown Door, de George Segal) somos obra, completamo-la. O espectador deixa a plateia e está no centro do palco, passando de espectador a actor. Seremos então meros observadores? Qual o papel que assumimos e qual o papel proposto pelos curadores? Seremos meros contempladores ou participantes? Seremos o espectador emancipado de que fala Jacques Rancière (1)? Qual a distância entre nós e a obra ou entre nós e o artista? Afinal, quem observa quem? Como será estar no centro do palco e não apenas na plateia? É neste jogo que triangula o espectador, a obra e o artista que encontramos o fio condutor para este percurso, pensado em seis núcleos distintos mas inter-relacionados: Humanos, Objecto Para Ser Construído, Do Quotidiano, Conceito Espacial, Paisagem Negra e The Show Must Go On. A visita inicia-se como se de um espectáculo se tratasse: com as três pancadas de Molière, materializadas pela instalação de Lawrence Weiner. Neste primeiro momento, em que o dado é lançado, não sendo orientados para um percurso de sentido único, as possibilidades começam a abrir-se diante dos nossos olhos. Cabe-nos, desde o primeiro momento, sair da plateia e participar, começando pela construção de um percurso. Iniciando a viagem pela direita, deparamo-nos com Humanos, um núcleo onde é proposta uma viagem pelo olhar masculino em relação ao corpo, mais especificamente ao corpo feminino, uma obsessão verificável ao longo de toda a história da arte, onde a mulher surge não como sujeito, mas como objecto. Aqui, é proposta uma reflexão, ao longo do séc. XX, através de autores/ observadores como Julião Sarmento, Balthus, Mark Rothko e Augusto Alves da Silva. Neste núcleo, pensando ainda na representação do corpo, joga-se também a carta da identidade com Tony Oursler, Pablo Picasso, Louise Bourgeois ou mesmo Christian Jankowski. É de destacar, Thomas Dekker, an Interview (2007), trabalho em que João Onofre entrevista o actor Thomas Dekker, que participou, enquanto criança, no filme de 1995, Village of the Damned (A Cidade dos Malditos), de John Carpenter. Nesta obra, confunde-se real e ficção/actor e personagem, num espaço brilhantemente criado por Onofre, onde ambiguidade e paradoxo surgem à medida que a conversa se desenrola: Estará Dekker no palco ou fora dele? Em Objecto Para Ser Construído (2) parte-se da herança de Duchamp, do objecto ready-made, e da arte Pop para pensar as reformulações operadas no campo da escultura na segunda metade do séc. XX. Nestas duas salas, encontram-se autores como Carl Andre, Robert Smithson, Fernando Calhau, Ernesto de Sousa, Ad Reinhardt, Bruce Nauman e Cabrita Reis. Questiona-se a pintura, a relação obra/espaço/espectador e a herança minimalista em salas onde o cubo branco é destruído e substituído por uma vista aberta para o jardim e pontuado Pelas Janelas (Desdobramento - Intersecção) de Amadeo de Souza-Cardoso, Kurt Schwitters e El Lissitzky, referências das primeiras vanguardas. Segue-se Do Quotidiano, um núcleo surpreendente pela forma como o espaço foi pensado e pelas relações entre obras seleccionadas. Severambia, de Frank Stella regressa aos palcos do museu depois de uma primeira e solitária apresentação aquando da inauguração do museu, em 2007, (re)construindo o espaço da galeria, abrindo ruas e uma praça central. Este núcleo inaugura-se com Damien Deroubaix e a sua ironia sombrio-macabra, numa visão engagé sobre as relações históricas e actuais entre a violência e o poder político, económico ou social, e, num tom mais light, mas não menos crítico, com Alexandre Farto, num trabalho onde faz uma referência directa à década de 1950, ao apropriar-se da base de trabalho dos Affichistes, representados pela presença de Métro Saint Germain (1964), de Jacques Villeglé sendo ainda feita uma ponte com La Chaise (1982), de Jean-Charles Blairs. A ideia de um mundo ou de uma paisagem em constante mutação e da presença do homem como parte responsável e integrante da mesma está ainda presente com Ashley Bickerton ou Miguel Palma, mas tem o seu expoente máximo na gigantesca tela ondulante pintada nas duas faces que é Severambia. Como referem Ana Rito e Hugo Barata no seu texto, aqui, a cidade é perspectivada como “um palco”, um espaço “manipulável e finito”. Conceito Espacial constitui um micro núcleo em Observadores. Partindo da obra de Lucio Fontana, este pequeno conjunto de obras, coloca em perspectiva as possibilidades espaciais abertas pelas investigações de artistas como Fontana − questionando os limites físicos da pintura − Yves Klein, que dá um salto no vazio da pintura − ou na sua imaterialidade − com os seus monocromos ou ainda James Turrell, que se concentra na experiência através de um trabalho que interliga luz e espaço. No núcleo seguinte, os curadores submergem-nos num universo de confrontação, soturno e profundo, onde Max Ernst abre as portas para uma entrada na sua paisagem interior, a Paysage Noir (Paisagem Negra), de 1932. Partindo da noção de Hegel de “noite do Mundo”, é criado um espaço onde é desenvolvido o seu conceito de individualidade através da noção daquilo que é ter consciência de si, do seu Eu. Neste segmento, explora-se uma realidade paralela, alternativa, distante daquilo que é visível. Um universo materializado através das esculturas de Rui Chafes ou da pintura sublime de Michael Biberstein. O percurso expositivo termina com The Show Must Go On, um núcleo que nos faz repensar toda a exposição permitindo uma série de conclusões. Regressando a Rancière, este núcleo reconstrói a questão do papel do visitante, perspectivando-o no contexto das artes performativas para criar uma ponte com as artes visuais. A interdisciplinaridade surge aqui como palavra-chave criando uma relação entre o trabalho de artistas plásticos e autores do domínio do teatro, dança e performance. Neste núcleo destacam-se três obras: o espectáculo projectado de Jan Fabre, os excertos do trabalho do coreógrafo Jerome Bel (que questiona este limite entre palco e plateia) e Off Screen, a fabulosa instalação de Douglas Gordon, que encerra a experiência expositiva, colocando uma pergunta simples mas crucial: De que lado da cortina estamos? Será que no final da exposição nos colocamos no centro do palco ou ainda nos retraímos e preferimos a passividade da plateia? Esta é, sem dúvida, uma exposição bem construída, coesa, com (poucos) empréstimos que valorizam e colocam sob uma nova perspectiva as obras já expostas em mostras anteriores do acervo da colecção. Ana Rito, Hugo Barata e Jean-François Chougnet alcançam com Observadores – Trânsitos, Revelações e Distâncias uma das melhores propostas curatoriais realizadas até à data a partir da colecção Berardo. NOTAS (1) Ver Rancière, Jacques, O Espectador Emancipado, Edições Orfeu Negro (tradução de José Miranda Justo), 2010. (2) Título inspirado em Object to Be Destroyed: The Work of Gordon Matta-Clark, de Pamela M. Lee (MIT Press, 2001). Object to Be Destroyed também é título de obra de Man Ray, de 1932.
|



















