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EMORY DOUGLAS E OS PANTERAS NEGRASAll Power to the People. Então e Agora.ZDB - GALERIA ZÉ DOS BOIS Rua da Barroca, 59 1200-049 Lisboa 04 MAR - 20 AGO 2011 Parte do trabalho artístico de Emory Douglas - Ministro da cultura do Black Panther Party - é apresentado desde Março pela Galeria Zé dos Bois (ZDB), particularmente o trabalho produzido entre 1967 a 1982, referente à colaboração com o Black Panther Party (BPP), aquele que é de todo o seu trabalho o mais reconhecido, tornando visível a estreita relação entre o partido e o processo criativo. De acordo com a informação disponível na exposição, o BPP foi fundado em 1966 por Huey P. Newton e Bobby Seale em Oakland (California), fruto do ambiente vivido nos anos 60/70 nos EUA, que gerou e fomentou revoltas sociais, tendo sido dissolvido no ano de 1982. Este procurava reivindicar os direitos dos negros, mas também fazer representar vários grupos minoritários, defendendo princípios de anti-racismo, de igualdade e liberdade social, exigindo melhores condições de emprego, acesso facilitado à saúde e à educação, tal como melhores condições de habitabilidade. Admitindo uma posição socialista, onde personalidades como Karl Marx e Lenine, Malcom X, Mao Tsé-Tung, Frantz Fanon, entre outros, representam influências centrais e estruturantes da constituição teórica da política do partido. No sentido de pôr em prática os princípios fundadores, credibilizando-o, foram levadas a cabo diversas acções, desenvolvidas segundo o propósito de apresentar soluções eficazes aos graves problemas sociais, propondo programas extremamente bem organizados, que se mostraram preocupados em fazer salvaguardar os pequenos almoços de crianças em idade escolar, a assistência médica e alimentar, agindo também noutras frentes. O tema não é totalmente desconhecido, nos dois últimos anos, precisamente nos EUA, foi já por diversas vezes mostrado o trabalho de Emory Douglas no BPP, exemplo disso foi o caso de Black Panther: The Revolutionary Art of Emory Douglas no MOCA Pacific Design Center em Los Angeles ou a Emory Douglas: Black Panther no New Museum em Nova Iorque, apresentadas dentro de uma estratégia expositiva muito próxima daquela que foi também utilizada na exposição Á Esquerda da Esquerda realizada em 2009 na ZDB, assemelhando-se pelo forte cariz político do tema em causa, mas também pela metodologia expositiva utilizada, que aposta no documento histórico e na pintura mural como veículo válido de informação. A exposição foi pensada de forma a preencher todo o espaço expositivo da galeria, sendo a entrada da exposição precisamente a entrada da ZDB, onde é imediatamente dado a conhecer esquematicamente, o programa partidário, ao qual é sobreposto uma projecção do filme Black Panthers - Huey! de Agnès Varda, funcionando apenas como uma ilustração vaga, não sendo a entrada, o local propício à visualização da obra, reportando-a necessariamente para segundo plano. As escadas são utilizadas como meio de ligação entre a entrada e a dita exposição, pontuadas por dois murais alusivos objectivamente à obra de Douglas, estabelecendo a ponte entre os princípios regentes do partido e a obra artística de Emory Douglas. O percurso é definido de forma clara, repartindo-se por dois grandes núcleos, localizados respectivamente em cada um dos pisos. Ao longo das seis salas do primeiro piso, temos acesso a uma contextualização ideológica, histórica, social e temporal do BPP, traduzindo-se por sua vez, numa organização temática, sendo que o título de cada uma é conferido através de textos disponibilizados em folhas de sala, sustentando os conteúdos das mesmas. Aqui é visível algum material produzido pelo partido ou que o tenha influenciado, tomando inúmeras formas, desde cartazes, panfletos, livros de referência, fotografias, artigos, recortes de jornal, pins, bandeiras, tapetes, informação em suporte de vídeo e os murais referentes ao trabalho gráfico de Douglas. Grande parte do material é mostrado através de vitrinas ou exposto nas paredes sem regra ou agrupado por núcleos dependendo do tema que os une. Ao longo de todo o primeiro andar a informação é veiculada homogeneamente, colocando maior responsabilidade nas folhas de sala, no sentido de determinar objectivamente a criação de momentos, muito embora existam excepções. O material exposto está organizado de forma pouco objectiva, tendo em conta que este piso é pensado com propósito muito claro - fornecer material documental que suporte o trabalho e o papel de Emory Douglas no Partido - disponibilizando ao espectador vasta informação, com gradações variantes, indo ao encontro de diversos graus de interesse e exigência. Embora não tenha sido feito catálogo, existe a possibilidade de serem levadas as folhas de sala, uma quantidade substancial de informação, que ajuda a alicerçar o conhecimento, tornando o espectador mais receptivo à exposição. Passando ao segundo piso, este é inteiramente dedicado ao trabalho de Emory Douglas, factor sentido com especial veemência, onde a imagem ganha poder pela imagem, numa autonomização que remete o contexto para segundo plano. É estabelecida de forma extremamente feliz, uma divisão física entre o partido (piso 1) e a obra de Douglas (piso 2), o que proporciona uma melhor compreensão da relação entre os dois universos, construídos de maneira altamente imbricada, influenciando-se mutuamente. Esta divisão vem mostrar o quão impossível é separar um do outro, isto porque se o grafismo é um dos porta vozes e o cunho identificativo visual do partido, os princípios que movem o partido são a matéria definidora do processo criativo de Douglas. Como elemento unificador de toda a exposição, foram criados diversos murais alusivos à obra gráfica de Douglas, reproduzindo características formais, de rápido reconhecimento: o forte traço negro que desenha o contorno das figuras; os panos de cor e a especificidade da escolha da mesma; o interessante trabalho da montagem do desenho e da fotografia; a representação da figura humana sempre através da figura negra, recorrendo à caricatura para as restantes. Um método repetidamente utilizado que aliado ao fundo listado/ raiado e à perspectiva, coloca a figura negra num patamar de superioridade, face às restantes figuras. Uma exposição integrada dentro da categoria “arte e política”, que através de um tema reminiscente estabelece a ligação com a actualidade, tocando em assuntos que questionam a democracia, as ideologias e utopias tal como o poder da revolução.
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