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ERWIN WURMTheir TimeCRISTINA GUERRA CONTEMPORARY ART Rua Santo António à Estrela, 33 1350-291 Lisboa 05 MAI - 02 JUL 2011 Quando Harald Szeemann para a exposição When Attitudes Become Form, singularmente subtitulada de works, concepts, processes, situations, information e que teve lugar no Kunsthalle de Berna em 1969, pediu aos artistas que produzissem uma obra a partir de qualquer forma, mesmo através do comportamento ou do pensamento (1), tinha como objectivo aferir sobre a existência de um grau zero da visualidade para entender se a partir desta a intenção do artista poderia ser reduzida ou transformada nos seus efeitos (2). Erwin Wurm recupera essa forma desmaterializada de pensar a obra de arte com a série one-minute sculpture, sobre o qual analisa as condições verificáveis para se atribuir a um determinado gesto ou a uma situação o estatuto de objecto escultórico. Para isso, o artista colocou objectos numa sala de exposição fornecendo apenas instruções para assim provocar uma acção do visitante e transformá-lo numa escultura pela relação que produz com o objecto que é fornecido. A obra surge a partir dessa interacção. O artista capta o que resulta desse encontro e após esta escultura-performance, a obra é devolvida novamente ao meio artÃstico, e transformando e descaracterizando a condição de acção, o evento é conservado no tempo. Apesar de se resolver no efémero, a ideia não abandona a materialização pelo recurso à fotografia, e à sua capacidade em captar o fugaz e de permitir que a imagem sobreviva para a posteridade oferecendo à obra um envolvimento que é próprio da escultura, ou seja o de conservar e comemorar a imagem para que perdure e seja lembrada. Deste modo, o resultado de uma acção passa por uma estetização do acontecimento, não vinculado apenas à escultura nem apenas à performance, e essencialmente pela presença de uma ideia. O gesto é em si matéria e o suporte da obra, ocorrida num tempo e espaço próprio captados pela imagem. Em Their Time, poderão definir-se núcleos e vias de raciocÃnio que têm a ironia como veio delineador e estruturador pela criação de situações não convencionais, e onde se poderá apontar o uso recorrente do tecido e da roupa como matéria. Além da uma expressão do individual, a roupa revela os usos e códigos sociais, vivências e expressões de uma determinada cultura como a moda, em Untitled (série Hermés), 2008 (espuma, madeira, metal, tecido, 60 x 38 x 64 cm) e aqui serve de variável de análise ontológica e social do indivÃduo. A representação do sujeito nas esculturas parece estar envolvida num gesto de aprisionamento metafórico provocado pelas roupas de malha, que segundo o artista é a superfÃcie desdobrada da pele − “When we wear clothes, they take on the shape of the body and show the person underneath. This piece itself is just the surface†(3). As apropriações formais da costura, mostram uma consciente proximidade plástica entre a forma e a linha como o artista o refere: "The act of dealing with sweaters, putting it on and taking them off, is hardly ever perceived consciously. When the object, i.e. the sweater, is stretched so that the body of the wearer can find its way into this envelope, when it shrinks so as to adapt to the body’s contours and to create a shape or a lack thereof, an essential plastic process takes place. " (4) Na série de fotografias Untitled (série Cláudia Schiffer) 2009 (C-print, 114 x 114 cm), o artista convoca um cenário com caracterÃsticas identitárias de tradição familiar para criar um contraste com a ironia da situação representada, de modo a desmantelar concepções enformadas pelo peso do tempo e da memória. Parte de uma postura crÃtica para intervir, agir e apropriar-se do espaço de entendimento do observador, desconstruindo o sentido normal das coisas, confrontando as nossas expectativas e aquilo que adquirimos como natural. Um dos grandes ensinamentos das vanguardas mostrou que a prática artÃstica não necessita de estar vinculada a um fazer, o que potenciou a ideia; o projecto e a reflexão contam mais do que a concretização fÃsica da obra de arte. Nos trabalhos de Erwin Wurm esse descomprometimento funciona como elemento catalisador para produzir situações que desprogramam o nosso entendimento racional interrogando, colocando dúvidas sobre a realidade através do confronto do espectador com a experiência, envolvendo uma resposta emocional que produz um estado de estranheza e que pela suspensão da razão, introduz diferentes linhas de pensamento que seguem uma problematização sobre o indivÃduo: “I think truths about society and human existence that can be approached in different ways. Sarcasm and humor can help you see things in a lighter vein. Even when talking about difficult issues†(5). NOTAS: (1) Hans Ulrich OBRIST, «When Attitudes Become Form de Harald Szeemann», www.tinyurl.com/3md5che (acesso 22/05/2011). (2) Hal FOSTER, Rosalind KRAUSS et al, Art Since 1900, Londres: Thames & Hudson, p. 534. (3) Mark RAPPOLT, «Erwin Wurm». In: Art Review, nº 47 (Jan/Fev 2011), p. 73. (4) Entrevista a Erwin Wurm. Pretty Cool People Interviews, www.prettycoolpeopleinterviews.submarinechannel.nl/ (acesso 22/05/2011)
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