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PRÓXIMO FUTUROFronteiras. Encontros de Fotografia de BamakoFUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN Av. de Berna, 45 A 1067-001 Lisboa 14 MAI - 28 AGO 2011 “Fronteiras” - Encontros de Fotografia de Bamako mostra-nos as contradições da ideia de globalização, revelando como ao mesmo tempo “se pratica o esbatimento das fronteiras mas por outro se erguem muros destinados a protegê-las” (1). Nesta exposição, a existência de fronteiras não se extingue nas relações territoriais mas pode ser aportada a uma multiplicidade de vertentes sociais e políticas, religiosas e ideológicas, culturais e identitárias. Entre a cultura ocidental e não ocidental poder-se-á falar numa proximidade negociada, pela vinculação a um conjunto de interesses que vêm de estruturas de poder que sedimenta, sem atenuar, as desigualdades e as assimetrias. Novas conjunturas e representações envolveram um renovado entendimento sobre a ideia de globalização onde já não se pode “ignorar a história, política, social e cultural não-ocidental e também o papel do império na construção das economias ocidentais” (2). Para este entendimento muito contribuiu a Documenta XI comissariada por Okwui Enwezor que, entre outras conclusões e desmistificações, fez ver “como a realidade da globalização transformou o mundo moderno, incluindo a produção e exposição, onde artistas inevitavelmente começaram a usar o seu trabalho para reflectir estas mudanças profundas” (3). Os dípticos da série “Geração”, 2004, de Arwa Abouon introduzem a ideia de identidade ao pretender aferir do sentido da representação geracional e a dimensão da sua importância na tradição e cultura libanesa. No díptico “Sem Título (pai e filho)” denota-se um sentido mais solene e sacrificial e tomada de consciência do peso da família na passagem de uma herança, que pode ser entendida como um princípio de controlo e ausência de liberdade. Ismail Bahri enuncia os vários momentos do vídeo “Ressonâncias” através de todo um sistema referencial não abstracto e naturalizado: “película ensombrada da noite; película perturba o horizonte” verificando-se um universo de discursos não ocidentalizados. Tal como a linguagem, a identidade vincada nas expressões do imaginário, que é um tema visível nos trabalhos de Zac Ové constituem fortes barreiras ideológicas. “Os Malianos de Paris” de Mohamed Camara mostra um enquadramento familiar construído de apropriações culturais formados a partir de contextos de origem e de vivência, sublinhando que uma identidade pode ser feita de múltiplas identidades. “Miss D’Vine” é uma série de fotografias de Zanele Muholi que espelha o deslumbramento com o Ocidente e toda a sua cultura pop e de espectáculo. Os trabalhos estão envolvidos numa teatralidade executada num cenário árido, infértil que nos remete para um aprisionamento. A partir desta representação poder-se-á estabelecer uma comparação com a própria condição de homossexualidade que pressupõe em determinados casos o medo da rejeição pelo confronto social. Andrew Esiebro trata também desta dupla noção de fronteira através de uma confissão personalizada dos traços de marginalização homossexual em relação ao seu próprio território familiar e ao seu contexto vivencial. Também Seydou Camara fala de uma dupla estigmatização na série “Bibianaé”, 2009 ao fotografar africanos albinos, remetendo para superstições e simbolismo relacionados com estes. Emeka Okereke, em “Bagamoyo”, 2008 reflecte sobre a economia doméstica, não massificada, produzida a partir de uma ausência de recursos onde têm lugar a criatividade e o empreendedorismo e um forte sentido de resistência individual. Em “Sudão” de Ali Mohamed Osman são fotografados lugares onde são efectuadas as trocas comerciais colocando em contraste uma produção massificada e um mundo rural e doméstico onde as dinâmicas da economia se adaptam à dimensão humana e não o inverso. A economia segue os ritmos próprios do humano e insere-se dentro de uma experiência do tempo própria daquele lugar. As obras alternam entre a imagem de um largo grupo de animais ou de contentores industriais, em tudo similares à prática produtiva no Ocidente, mas que movimento do antes e depois dessa situação, mostra-nos um tipo de produção doméstica, artesanal e familiar. As múltiplas representações da palavra “divisão” são incluídas numa sequência narrativa, com leituras de causa consequência, das condições dos povos africanos no que concerne ao direito à educação, às lutas territoriais, à emigração, à pobreza no conjunto de fotografias de Nestor Da. Os títulos das obras de Myriam Abdelaziz são denúncias acerca das fronteiras no interior de África e a situação dos “Darfunianos do Cairo”: “A maior parte das crianças do Darfur não recebe qualquer instrução”. A pobreza extrema e alienada, que é tratada também em “Kivu” de Alain Wandimoyi, está fechada entre a expectativa de melhores condições de sobrevivência num contexto vivencial de rejeição e a incapacidade de retorno ao país de origem. Nesta clausura ao mesmo tempo forçada e não forçada os darfunianos vivem a condição eterna de estrangeiros, ou de “sem-lugar”. No vídeo de Mohamed Konaté “Eldorado” de 2008 é reproduzida uma metáfora que envolve dois lados divididos em cores branca e preta e onde a linha que os separa está bem vincada. Num dos lados, as esferas estão imóveis, à espera, e quando uma destas esferas se move com velocidade é destruída. Estas ideias de transitoriedade, de espera, de expectativa e de transgressão são tratadas também pelos trabalhos de Aboubacar Traoré “O lado ilegal da Fronteira”, Lebohang Mashiloane ou “Rochers Carrés” de Kader Attia, 2009. “Hoje em dia é o dever dos africanos se consciencializarem que os países que imitamos estão atravessando as piores dificuldades, o que quer dizer que o modelo económico imposto pelas instituições financeiras internacionais e da União Europeia durante os últimos 30 anos é falível e já se havia declarado a sua infalibilidade. Portanto o que não deixamos de decidir hoje é que é uma crise sistémica; o quer dizer que temos que mudar radicalmente de estratégia. Não é com a produção para a exportação já que é o que se nos diz, produzir cada vez mais, melhorar a gestão da parte dos ingressos de exportação que nos toca, invertê-las, tapamos os buracos mas não as perguntas fundamentais entre as quais está a orientação do mercado, não são colocadas” (4). “Fronteiras” enuncia várias situações ligadas à criação de divisões inconscientes, mas marcadas de forma evidente, em comportamentos, culturas e vivências que não se circunscrevem apenas a um território. A compreensão desta realidade permite-nos enformar um distanciamento para observá-lo e compreendê-lo melhor - olhar para nós próprios a partir do olhar dos outros. “E mudar o modo como as pessoas se vêem a si próprias é, no nosso tempo, importante. Ao fazê-lo, estes artistas também olham para nós. O que, para quem esteve sempre só habituado a olhar para eles é, no mínimo, saudável” (5). NOTAS (1) Michket KRIFA, Laura SERANI, “Fronteiras 9ºs Encontros de Fotografia de Bamako” in Próximo Futuro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011. (2) Niru RATNAM, “Art and Globalisation” in Themes in Contemporary Art. New Haven e Londres: Yale University Press, p. 281. (3) Id, Ibid. , p. 288. (4) Aminata TRAORÉ. Link: www.buala.org/pt/da-fala/etiquetas/aminata-traore (Acedido em 29/05/11). (5) António Fernandes DIAS, “Das Esquinas do Olhar”. Texto sobre a exposição Looking Both Ways - Das Esquinas do Olhar. Arte da Diáspora Africana Contemporânea que decorreu na sede da Fundação Calouste Gulbenkian em 2005. Link: www.artafrica.info/html/artigotrimestre/artigo.php?id=4 (Acedido em 30/05/11).
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