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RICHARD SERRA :: DRAWING: A RETROSPECTIVEALEXANDER McQUEEN :: Savage BeautyTHE METROPOLITAN MUSEUM OF ART (FIFTH AVENUE) 1000 Fifth Avenue New York, NY 10028-0198 04 MAI - 28 AGO 2011 Alexander McQueen: Savage Beauty 4 de Maio a 7 de Agosto de 2011 Richard Serra Drawing: A Retrospective 13 de Abril a 28 de Agosto de 2011 No segundo piso do Metropolitan Museum of Art (MET) em Nova Iorque, podemos visitar nas Cantor Galleries e nas Tisch Galleries, respectivamente, a exposição do estilista de moda britânico Alexander McQueen (1969-2010) e a exposição retrospectiva de desenho do artista norte-americano Richard Serra (n. 1939). Ocupando espaços distintos no mesmo piso do museu e a decorrer em simultâneo, estas duas brilhantes exposições opõem-se no conteúdo e na forma; contudo, veremos que ambas são apresentadas como grandes projectos de instalação, diminuindo os “limites†impostos pelo espaço expositivo. A exposição Alexander McQueen: Savage Beauty desenhada por Sam Gainsbury e Joseph Bennett, designers responsáveis pelos desfiles de Alexander McQueen, e comissariada por Andrew Bolton com o apoio de Harold Koda, ambos do Costume Institute do MET, está montada sob o signo do Romantismo e de dicotomias que percorrem o trabalho do estilista, como o próprio tÃtulo da exposição faz jus. Pensada como uma exposição de artes visuais, em que a moda se apresenta como o medium, os manequins-esculturas são expostos como obras escultóricas, alinhadas, colocadas em plataformas (plintos) espelhadas, de madeira, ou em cubÃculos rectangulares produzidos para o efeito. O público percorre as salas como se acompanhasse todo um desfile de 19 anos de carreira; um desfile de moda de manequins-escultura que, por vezes, estão assentes em plataformas rotativas, dispostos em caixas-instalações, ou em prateleiras no “Gabinete de Curiosidadesâ€; e podemos ver ainda as colecções de dez das mais conhecidas apresentações do estilista em vÃdeos. As ideias de McQueen estão espalhadas ao longo das galerias com pensamentos que definem o seu trabalho e tendo em conta binómios que percorrem toda a sua obra, como a Beleza versus a Fealdade, o Sublime versus o Mundano, a Vida versus a Morte. Mas a grande mais-valia da obra de Alexander McQueen, que esta exposição tão bem representa, caracteriza-se pelo seu poder provocatório, de quebrar barreiras, transpor limites, propor mudanças, ou agitar convenções. O resultado está patente nas colecções de moda da sua autoria e que segmentam a exposição, não por ordem cronológica de produção, mas partindo de diferentes lentes do Romantismo. A primeira sala inspirada no primeiro ateliê de McQueen em Hoxton Square, Londres, intitulada “A Mente Romântica†(The Romantic Mind), apresenta-o como um artista romântico por excelência: procurando mostrar nas suas colecções uma originalidade proveniente da sua individualidade, através da introdução de diferentes e inovadores métodos de produção, como por exemplo, em novos cortes de casacos curtos ou compridos, ou cortes em vestidos em que utiliza dois tipos de padrões numa justaposição hÃbrida. Inspirado no Gótico Vitoriano do século XIX, na galeria dedicada ao “Gótico Romântico†(Romanthic Gotic), McQueen exibe nas suas colecções uma melancolia e profundas fantasias sombrias inspiradas nos contos de Edgar Allan Poe, marcadas sobretudo nos acessórios com referências sadomasoquistas, como nas máscaras pretas que cobrem os rostos. O “Nacionalismo Romântico†(Romantic Nationalism) das suas colecções surge através das suas origens escocesas e na história britânica, evidente na famosa colecção Highland Rape, Outono/Inverno, 1995/96, referindo-se ao “rapto†da Escócia pela Inglaterra. O corte no meio do vestido até ao peito é uma das caracterÃsticas desta colecção. Baseada na cultura de outros paÃses, o “Exotismo Romântico†(Romantic Exotism) de McQueen alarga os horizontes imaginários do estilista percorrendo paÃses como a Ãndia, o Japão, a China e a Turquia. Retira da tradição cultural destes paÃses os padrões e os materiais, ou, no caso japonês, o quimono, de mangas largas cruzadas à frente e cingida na cintura por uma faixa de tecido (o quimão), como podemos ver na colecção Emsemble VOSS, Primavera/Verão 2001, em que as próprias mangas servem de quimão. A ligação à natureza – e assim focando mais proeminentemente o principal conceito que atravessa a exposição, o Romantismo – está patente na sala dedicada ao “Primitivismo Romântico†(Romantic Primitivism) e à sala do “Naturalismo Romântico†(Romantic Naturalism). Na primeira destas galerias, a utilização de pele, linho e seda é constante nas colecções apresentadas, como se destaca no incrÃvel vestido Oyster, de 2003, feito com camadas de organza, um tecido fino feito de seda, que cria um efeito de ostra, com claras ligações ao mar. A exposição termina com a última colecção apresentada em Fevereiro de 2010, antes da morte do estilista, designada de Plato’s Atlantis e inspirada na Origem das Espécies de Charles Darwin, mas pensada não no sentido da evolução humana, mas na devolução ao seu estado primitivo. As roupas parecem procurar camuflar o corpo numa realidade Sublime próxima da natureza. A primeira retrospectiva do desenho de Richard Serra é uma exposição itinerante, organizada pela Menil Collection, Houston, e começa a sua apresentação no Metropolitan Museum. Viajará para o MoMA de São Francisco (Outubro de 2011) e para Houston (Março de 2012). O catálogo da exposição é a primeira publicação a abarcar a totalidade da prática do desenho do artista, ou seja, 40 anos de actividade neste domÃnio. Pensada cronologicamente, esta retrospectiva expõe cerca de 50 desenhos e uma selecção de livros de esboços, bem como quatro filmes realizados em 1968, em torno da “mãoâ€, a sua posição, o movimento, etc., incluindo o primeiro filme de Serra, Hand Catching Lead, filmes fundamentais para compreender o processo criativo do artista conhecido pelas suas grandes obras escultóricas. Richard Serra mudou-se da Califórnia para Nova Iorque em 1966, fazendo parte de uma comunidade de artistas, intelectuais, músicos, realizadores e coreógrafos. Influenciado pelas coreografias de Yvonne Rainer, foi nesta altura que o artista começou a produzir desenhos esquemáticos (para filmes, planos de instalações em galerias, etc.). Mas a exploração do desenho como Desenho, começou a ser concretizado por Richard Serra nos anos 70, com novas pesquisas e usando variados pigmentos e suportes. A exposição começa precisamente por apresentar desenhos do inÃcio da década de 70, altura em que o artista utiliza tinta, carvão e lápis litográfico, passando, em meados da década, a usar paintstick preto, ou seja, um tipo de pintura a óleo de cera. Serra apenas utiliza o preto, rejeitando o uso de cor para a extensão de uma coloração que não lhe interessa explorar. O preto é a própria extensão do desenho, é uma cor material, mais densa, aproximando-se claramente do processo gráfico e da impressão. O preto é ele próprio o desenho e não somente uma parte que o constitui. A fisicalidade da matéria do desenho é criada através da utilização de várias camadas, que propõem uma superfÃcie rugosa, indispensável para compreender estes desenhos. A partir dos anos 80, Serra continua a explorar novos efeitos através de diferentes técnicas, aumentando também a dimensão do papel. O espaço dedicado à s obras de grande dimensão, especificamente realizadas para este espaço nas galerias do MET, cria uma espécie de site-specific. São desenhos que sugerem essa tridimensionalidade no espaço. Os desenhos de Serra, em geral, podem apresentar sequências rÃtmicas (Drawing after Circuit, 1972), não detêm limites materiais (a série Solid, 2008), ou de dimensão (Weight and Measure, 1994), isto é, não têm um fim teórico delimitado e surgem muitas vezes pensados em série (A Drawing in Five Parts, 2005). O desenho apresenta-se assim como a reflexão do próprio desenho, não a continuação para a produção de esculturas. Por isso, são quase sempre criados por Serra para um entendimento pós-escultura, ou seja, são produzidos para compreender o seu trabalho, depois de terminada uma escultura, invertendo, deste modo, a ideia da criação de um desenho como trabalho de estudo para uma obra escultórica. Em suma, para Serra, o desenho é uma actividade separada da escultura, apesar de ajudar a pensar a Escultura e, neste sentido, segundo o artista, o desenho é uma forma de ver, sentir e pensar. Em ambas as exposições, estamos perante uma ocupação inteligente do espaço expositivo, uma ocupação do espaço das galerias que é exagerada, excêntrica. São aqui apresentadas obras que destabilizam a experiência do espaço; uma experiência visual e fÃsica que nos dois casos é intensa. O espaço do museu não restringe o trabalho destes dois extraordinários artistas. O espaço adapta-se à obra, não é um limitador da exposição. Ou seja, por um lado, a exposição, como conceito narrativo, ocupa mais do que o espaço das galerias do museu, ultrapassa os seus “limitesâ€. Por outro, “a duração da experiênciaâ€, entendida nos termos definidos pelo crÃtico norte-americano Michael Fried em Art and Objecthood (1967), é considerada teatral, no sentido em que o tempo de experiência do público é indispensável e faz parte do Ser da obra, neste caso, da própria exposição. A relação próxima com o público faz destas duas invulgares exposições espaços-presença de cumplicidade raramente vista.
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