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RICARDO JACINTOO CorredorCHIADO 8 ARTE CONTEMPORÂNEA Largo do Chiado, n.º8 1249-125 Lisboa 25 JUL - 14 OUT 2011 A Chiado 8, que tem desde 2009 curadoria de Bruno Marchand, é um espaço expositivo em Lisboa com um dos projectos curatoriais mais interessantes. Tem privilegiado artistas com obras de pendor mais conceptual, num projecto ousado e de grande qualidade no qual se insere agora em pleno Ricardo Jacinto e o seu O Corredor. Ricardo Jacinto tem um trabalho já longo e reconhecido que se debruça sobre as relações que desenvolvemos com o som. A maioria dos seus trabalhos consiste em instalações sonoras e performances em que colabora com outros músicos ou artistas. Estas instalações não só levantam questões sobre o funcionamento sonoro ou a forma como nós o vivenciamos como também reflectem acerca do espaço e do que é necessário para o construir. O Corredor é composto por três filmes em três espaços diferentes, ligados através do som. O primeiro e o último vÃdeo estão sÃncronos enquanto o da sala do meio passa em loop e funciona como um espaço intermédio onde decorrem entrevistas à s pessoas que podemos observar nos outros dois. É aqui que temos melhor a noção de estar num corredor, um espaço de passagem entre dois pontos. Em O Corredor, Ricardo Jacinto não se limita a trabalhar o som sob o ponto de vista sonoro, mas trabalha-o também a partir da imagem. Fá-lo na relação entre um e outro no vÃdeo central Foyer, mostra-o em A História do Pinheiro e do Lobo quando nos apresenta o homem que imita o uivo do lobo, e questiona a experiência sonora em A História da Ãgua e do Avião. Aqui podemos ver uma aula de natação sincronizada intercalada com uma simulação de voo, dois ambientes em que o som se propaga e se experiencia de forma diferente do que normalmente acontece. Há ainda algo de provocador na forma com o artista nos expõe a um teste simulador de voo num espaço fechado e nos mostra uma piscina como um local delimitado e finito, ao mesmo tempo que nos propõe estar fechados numa sala bastante escura onde a cacofonia das três obras nos assalta os sentidos, fazendo-nos perder a noção de orientação como se estivéssemos também nós num não-lugar. É aqui que Ricardo Jacinto consegue que O Corredor seja coerente com o resto da sua obra: na percepção espacial que nos proporciona, na perda de referências fÃsicas do lugar e na forma como põe estas questões através do som, mas também da imagem. Há um momento de fragilidade absoluta no visitante, quando se encontra no meio do corredor, na zona do Foyer e de repente os dois vÃdeos das outras salas, um em cada extremidade daquela onde estamos, se apagam e ficam mudos. É como se não conseguÃssemos sair do sÃtio onde estamos. De repente, é como se nada existisse de um lado e de outro daquela pequena sala contendo um plinto em cujo topo é projectado um vÃdeo com o som proveniente de colunas nos quatro cantos do espaço a envolver-nos e baralhar-nos. A peça consiste em entrevistas aos protagonistas dos outros vÃdeos. É uma espécie de memória descritiva, onde à s pessoas que vemos nem sempre parece corresponder o som do que dizem. Nos cantos, as colunas debitam as vozes de cada entrevistado, enquanto no filme eles se vão sucedendo. Temos assim que obrigar o ouvido a escolher a proveniência certa do som que corresponde à imagem. O Corredor é uma peça una e indivisÃvel muito diferente da linguagem a que Ricardo Jacinto nos habituou. O artista não procurou o vÃdeo como objecto artÃstico por si, mas sim como um meio para exprimir outra coisa. Nem sequer são imagens que nos causem admiração pela sua qualidade estética ou pela fluidez de montagem. São uma matéria tão neutra como uma tela: o que importa é o que nos dizem. É uma obra talvez mais difÃcil, porque não é composta de objectos e estÃmulos que exigem a interacção do visitante como em Earworm (Culturgest, 2008), mas é mais ousada, precisamente porque existe num campo menos familiar ao artista. Uma área mais experimental, conceptual e que nos deixa curiosos acerca do rumo que irá tomar a sua obra.
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