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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Julião Sarmento, What Makes A Writer Great (a girl in), 2001. Esmalte aquoso, acrílico, grafite e colagem sobre papel. 29 x 23 cm.


Julião Sarmento, What Makes A Writer Great (in her) , 2000. Esmalte aquoso, acrílico, colagem e grafite sobre papel. 152,5 x 122 cm.


Julião Sarmento, What Makes A Writer Great (last night) , 2000. Esmalte aquoso, acrílico, colagem e grafite sobre papel. 152,5 x 122 cm.


Julião Sarmento, What Makes A Writer Great (wild), 2000. Técnica mista e colagem sobre papel. 40 x 30 cm.


Julião Sarmento, What Makes A Writer Great (sa démarche,), 2001. Esmalte aquoso, acrílico, colagem e grafite sobre papel. 70 x 50 cm.


Julião Sarmento, What Makes A Writer Great (rump up,), 2001. Esmalte aquoso, acrílico, colagem e grafite sobre papel. 70 x 50 cm.


Julião Sarmento, What Makes A Writer Great (in tightly), 2001. Esmalte aquoso, acrílico, colagem e grafite sobre papel. 70 x 50 cm.

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ARQUIVO:


JULIÃO SARMENTO

What Makes a Writer Great




MUSEU DA ELECTRICIDADE
Avenida de Brasília, Central Tejo
1300-598 Lisboa

13 OUT - 31 DEZ 2011




O corpo é o templo onde a natureza pede para ser reverenciada.
Sade






What Makes a Writer Great é talvez das obras de Julião Sarmento que, de um modo mais manifesto, explora o carácter cinemático do seu percurso artístico. Não apenas pela narratividade fragmentada que o todo da exposição representa, mas também pelo modo como as imagens nos são apresentadas, como se se tratassem de um still de um filme.

Tomamos a consciência de que estamos rodeados de fragmentos: fragmento-imagem; fragmento-palavra; fragmento-corpo; fragmento-espaço. Os fragmentos parecem ser pistas de um crime cometido que tentamos decifrar. A temporalidade é aqui o intervalo, o espaço por preencher entre as imagens e as palavras: o tempo fugaz durante o qual um corpo actuou num espaço.

De imediato personificamos a figura do voyeur. Esse deleitoso incómodo de estar presente na inevitabilidade de ter que completar a história.

Os quadrados negros que acompanham cada uma das imagens presentes nos quadros apelam para isso mesmo, tornando evidente que há algo de oculto, algo que permanece silenciado, como se apenas o espectador pudesse quebrar esse silêncio ao desvelar essa escuridão, convertendo a descontinuidade em continuidade. “No entanto, nada nos permite reconstituir com segurança qualquer narração ou temporalidade – sugere-se apenas uma rendilhada e volátil arquitectura de sentimentos.” (1)

“De todos os lados vão chegando indícios de uma inquietação com o corpo” (2). Julião Sarmento é certamente o artista português que mais explora a corporalidade nas suas obras. No entanto, aqui a sua “pornologia” parece ser apenas um pretexto para explorar o corpo numa diferente perspectiva: o corpo – enquanto autor e objecto – de um crime. Crime carnal. E um regresso do homem à animalidade, ainda instintiva mas agora aperfeiçoada, humanizada, pois que o crime é sempre um acto humano.

As palavras que integram os quadros desenham, em algumas das obras, uma conformidade conceptual com as imagens. Noutras, porém, parecem remeter para algo de ausente. É precisamente esse resto, esse não-dito que é abertura para a inscrição, que nos torna reféns das obras.

O erotismo e uma violência contida, apenas anunciada, como uma ameaça, parecem povoar as obras. É o corpo nos seus usos e abusos. A fatal descontinuidade como parte da condição humana que nos condena a habitar um corpo, teorizada por Georges Bataille na sua obra O Erotismo (1957), e as múltiplas tentativas de a quebrar, na devolução da continuidade. A invasão da alteridade corporal – na penetração pela lâmina ou pelo falo.

O espaço entre os corpos parece servir de paralelismo ao intervalo entre as obras, espaço que, simultaneamente, separa e une, numa continuidade fissurada. As imagens surgem como momentos de suspensão, como se as não pudéssemos contemplar por demasiado tempo, sob risco de perdermos o desenlace da história. E a palavra parece estar lá do mesmo modo que a imagem: mera insígnia. A imagem é textual e o texto é imagético, ambos com o mesmo potencial de evocação.

Cada fotografia e cada quadrado negro que a acompanha formam um díptico que evidencia a antítese revelado/oculto; fechado/aberto. É essa abertura que evidencia a descontinuidade da narrativa, colocando-nos no intervalo do oculto, para que o desvelemos.

What Makes a Writer Great culmina na resposta à problemática que coloca. António Lobo Antunes diz que um bom escritor é aquele que escreve grandes livros sem uma boa história, isto é, sem uma estrutura narrativa sólida. A fragmentação é aqui o critério. A abertura que nos permite entrar na obra para a completar, mantendo-a infinitamente aberta. É mediante esse mergulhar dentro da obra que se erguem as “sucessivas possibilidades de nela encontrarmos o lugar geométrico do coração.” (3)





NOTAS

(1) Pinharanda, João, “O Lugar Geométrico do Coração”, What Makes a Writer Great, Fundação EDP, 2011.
(2) Miranda, J.A. Bragança de, Corpo e Imagem, Vega, Lisboa, 2008, p.83.
(3) Pinharanda, João, “O Lugar Geométrico do Coração”, What Makes a Writer Great, Fundação EDP, 2011.


Maria Beatriz Marquilhas