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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Andreas Fogarasi, La ciudad de Color /Vasarely Go Home, 2011. Vista da exposição. Estruturas de mármore. MNCARS, 2011. Fotografia: Joaquín Cortes / Román Lores.


Inauguração da retrospectiva de Victor Vasarely em Mücsarnok, Budapeste em 1969. Fotografia: Demeter Balla.


Andreas Fogarasi, Vasarely Go Home, 2011. Still do vídeo em Full HD. Imagem de IIona Keserü; Gyula Pauer.


Andreas Fogarasi, Vasarely Go Home, 2011. Still do vídeo em Full HD. Imagem de IIona Keserü; Gyula Pauer.


Andreas Fogarasi, La ciudad de Color /Vasarely Go Home, 2011. Vista da exposição. Estruturas de mármore e fotografias. MNCARS, 2011. Fotografia: Joaquín Cortes / Román Lores.


Andreas Fogarasi, La ciudad de Color /Vasarely Go Home, Detalhe, 2011. Estruturas de mármore. MNCARS, 2011. Fotografia: Joaquín Cortes / Román Lores.


Andreas Fogarasi, La ciudad de Color /Vasarely Go Home, 2011. Vista da exposição. Estruturas de mármore e fotografias. MNCARS, 2011. Fotografia: Joaquín Cortes / Román Lores.

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ANDREAS FOGARASI

La ciudad de color/ Vasarely Go Home




MUSEO NACIONAL CENTRO DE ARTE REINA SOFÃA
Santa Isabel 52
28012 Madrid

14 SET - 09 JAN 2012

Uma exposição em três momentos

A exposição La ciudad de color/ Vasarely Go Home de Andreas Fogarasi foi produzida para o programa Fisuras do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia. Fogarasi foi o vencedor do Leão de Ouro na 52ª edição da Bienal de Veneza (2007), estudou arquitectura na Universidade de Artes Aplicadas de Viena, foi um dos organizadores da Freie Klasse (Free Class) e é coeditor da dérive-Zeitschrift für Stadtforschung (Revista de Estudos Urbanos).

A exposição encontra-se dividida pelos dois edifícios do museu em três locais distintos, no piso um em dois “momentos†e no terceiro piso no terraço.


I. Entre a lápide e o biombo

Ao entrar no MNCARS pela sua porta principal e após dar entrada no primeiro corredor que compõe o enorme quadrado circundante ao pátio interior, o espectador depara-se à sua esquerda com um conjunto de improváveis biombos de mármore da mesma cor que o mármore do chão das salas do edifício Sabatini. Estas estruturas servem de suporte a fotografias de pequena dimensão como se de uma feira ou exposição temporária de baixo orçamento se tratasse. O mármore é o paradoxo nesta elaboração barata e situa a “instalação†entre o definitivo e o temporário, entre a lápide e o biombo.

Os biombos que se encontram no corredor inicial mostram fotografias de edifícios cujas fachadas foram encomendadas a Victor Vasarely, artista húngaro que passou grande parte da sua vida activa em Paris. Uma das ocasiões em que voltou à Hungria foi por ocasião de uma retrospectiva da sua obra.

Numa sala do primeiro piso do museu, o visitante encontra novas estruturas do mesmo mármore mas desta vez com fotografias da inauguração de uma exposição de Vasarely em Budapeste, mais precisamente no Mücsarnok em 1969.

Esta antecâmara antecede outra sala onde estão instalados dois monitores LCD suspensos ao centro e de forma a dividir o espaço diagonalmente. Em frente a cada um dos dois monitores, mas em direcções opostas, estão vários bancos que pela sua aparência e distribuição simétrica no espaço formam uma instalação de paralelepípedos minimalistas, ficando o visitante consciente do espaço que ocupa como se estivesse perante uma exposição imbuída dos aspectos mais fundamentais e redutivos de um Modernismo tardio.


II. Arte e política

O vídeo é formado por um conjunto de entrevistas com artistas, teóricos e historiadores que contam a experiência e sobretudo o momento da inauguração da exposição – a retrospectiva de Vasarely –, referenciada pelas fotografias na sala anterior. Inaugurada a 18 de Outubro de 1969, a mostra foi ao que tudo indica uma jogada política. Se por um lado parecia ser uma importação cultural e um raro sinal de abertura do regime, pois a arte abstracta não era de um modo geral permitida por ser considerada uma manifestação artística burguesa, por outro lado era uma forma de legitimação e exportação de uma ideia de cultura nacional. Vasarely, um dos expoentes máximos da arte abstracta no Ocidente era afinal húngaro!

O vídeo confronta este acontecimento com outro episódio simultâneo, de menor magnitude mas de grande importância, por ser uma prova do clima de desconforto e repressão que se fazia sentir no cenário desta aparente manobra de propaganda. Enquanto decorria a inauguração no Mücsarnok, um outro artista foi protagonista de uma “performance†da qual não restam registos fotográficos ou de outro tipo. Janós Major, o autor da performance em questão, era um artista conceptual húngaro e a sua intervenção consistiu em confrontar alguns dos visitantes que conhecia e dos quais se aproximava para mostrar um cartão que tirava discretamente do bolso do casaco com a frase “Vasarely Go Homeâ€.

Este gesto de audácia numa inauguração onde estavam presentes vários governantes e dignitários (90 000 pessoas visitaram a exposição), estava carregado de ironia relativamente à própria origem do célebre Vasarely. Major afirmava que a Op Art não tinha nascido naquele país; num comentário acerca do Cubismo afirmava que este movimento tinha vindo morrer ali, pois considerava o seu próprio país uma “necrópole de ideiasâ€. Um trabalho seu da altura era uma fotografia de uma lápide de um Lajos Kubista e da sua família, todos eles, claro está, Kubista(s)...

Uma das artistas entrevistadas afirma que após a exposição de Vasarely não houve abertura no que diz respeito à liberdade de exposição de trabalhos anteriormente considerados subversivos. A nível de liberdade de expressão artística tudo permaneceu igual, atestando assim o carácter meramente político da retrospectiva de Vasarely. A dada altura no vídeo um dos entrevistados, que sem esconder a sua preferência pelo trabalho de Major e o seu desprezo pelo de Vasarely, afirma que mesmo as pinturas do último eram deturpadas e “domesticadas†quando passadas a tapeçaria ou quando adornavam as fachadas de prédios como meras estilizações de um movimento que já de si não oferecia nada de relevante.


III. Modernismo ubíquo

No terceiro piso estão ainda dois outros grupos de biombos, mas desta vez não servem de suporte a fotografias. São esculturas com formas recortadas semelhantes a logótipos de instituições culturais, como Culture France, Goethe Institut, Instituto Cervantes, etc.

As fotografias de fachadas com decorações de Vasarely e as esculturas da instalação Circles and Squares remetem para uma ideia de universalização do projecto moderno, ainda que muitas vezes isso tenha acontecido apenas a um nível formal. Andreas Fogarasi traça uma linha directa entre a exportação da Cultura e a sua homogeneização. Herbert Read afirmava que a Cultura era uma palavra inventada pela primeira sociedade que a mercantilizou, importou e exportou, o Império Romano. Seria este um dos primeiros impérios a fazer uso da cultura como forma de legitimação de um regime perante o seu próprio povo mas também como forma de afirmar a sua superioridade sobre outros povos.

O artista usa os logótipos do British Council, Goethe Institut e outras instituições culturais em contraponto às imagens de arte pública de Vasarely, criando com o contexto das entrevistas um entendimento do modernismo como um projecto que realmente se globalizou e que foi demasiado irresistível mesmo para os regimes que a ele se opunham e o proibiam. Fogarasi coloca estas instituições culturais de carácter patriótico na posição de agentes exportadores da hegemonia cultural dos regimes que as instituem. Na Guerra Fria o Modernismo foi uma força vencedora do Ocidente, mas sobretudo do capitalismo, não porque tenha sido idealizada para tal, mas porque foi instrumentalizada dessa forma.

Os biombos de Fogarasi nos quais se podem observar exemplos de Arte Moderna nas suas diversas aplicações práticas, chegando ao extremo (com os logótipos), parecem querer fechar o círculo sobretudo se pensarmos neles como lápides, tal como, a fotografia da lápide de Lajos Kubista.


Bruno Leitão