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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Samuel Rama, Site Size, 2011. © Fernando Piçarra


Nuno Cera, O Passageiro, 2011. © Fernando Piçarra


Carlos Noronha Feio, Trying to reach the point zero, 2009. © Fernando Piçarra


Manuel Caeiro, 33’ de Fama, 2011. © Fernando Piçarra


John Akomfrah, MNEMOSYNE, 2011. © Fernando Piçarra


Tatiana Blass, Acidente, 2011. © Fernando Piçarra

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INDIVIDUAIS

Terceiro programa de exposições




CARPE DIEM ARTE E PESQUISA
Rua do Século, 79 Bairro Alto
1200-433 Lisboa

21 OUT - 28 JAN 2012


Mais uma vez a galeria Carpe Diem inaugura uma exposição provida de um indubitável cariz multifacetado e dialogante com o espaço, promovendo um mesclado que coloca em contacto directo a arte contemporânea portuguesa com as tendências internacionais vigorantes.

Nuno Cera coloca o espaço a transbordar de oceano. A exploração do líquido e do rochoso compõe, no vídeo e nas fotografias que se apresentam, um díptico: a rudeza da pedra em coexistência com a fluidez marítima; a estaticidade em relação com a inquietude permanente. A água eternamente esculpindo a rocha. E o som desse acto de moldar a ecoar pelas salas da cave, dando-lhe uma humidade morna, maternal. Há algo de epifânico em vislumbrar um horizonte inteiro a derrubar a parede de uma cave sombria, como se o espaço a tornar-se infinito. E a luz que se reflecte na água, agora espelho; e a rocha que se reflecte na água, agora sombra. Em O Passageiro (2011), a viagem faz-se sem cansaços, algo nos leva. E a antiguidade daquelas paredes, arcos e colunas que nos rodeiam parece ser por fim devolvida à sua origem: pedra desumanizada, em carne viva, pois que apenas o mar a tocou. E navegando, nos vamos perdendo.

Carlos Noronha Feio coloca-nos perante uma Natureza que nos faz frente, inexorável perante o ataque humano. Trying to reach the point zero (2009) é um vídeo projectado em loop no qual podemos ver um homem que, repetidamente, golpeia com um machado o tronco de uma árvore. O som do embate contra a madeira ecoa, compassado, sem que a catástrofe irrompa. A árvore permanece intacta, na sua altivez, perante a ameaça de perder parte de si, tornando manifesta a impotência humana perante a robustez do natural. No reverso da superfície em que o vídeo está a ser projectado, encontramos os contornos de uma árvore desenhados a néon vermelho, irradiando luz. Complementando a obra com uma artificialidade quase blasfémica, o que nos leva a repensar a relação humana com o natural, aqui simbolizada na árvore. Não a podendo combater, resta-nos a arte enquanto parto incessante, cópia mas nunca repetição – sempre adição. Numa frase de Teixeira de Pacoaes, “O Poeta e o Herói são dois milagres, contradizem a Natureza, como duas pedras que voassem.”

Por fim, Samuel Rama devolve-nos a cidade, o ruído de vivermos juntos, tantos, e a racionalidade humana que estrutura a vida em comum. Site Size (2011) constitui um tríptico de imagens de um negrume que parece ser parte da ruína que a sala representa. Colocadas sobre o chão da sala, três imagens impressas e grafite dão-nos vislumbres desfocados, manchados, sobrepostos, onde vislumbramos por vezes uma casa, uma superfície rochosa, uma árvore – mas sempre indícios, sombras, nunca uma totalidade nítida, como se o tempo tivesse desprovido as imagens da sua certeza, dificultando a sua visibilidade. No centro de cada imagem, esculpido a cimento, um cérebro humano que nos devolve ao epicentro de toda a criação que a pulsão tectónica humana, demasiado humana, dá uma paisagem ao mundo: A paisagem que vemos.

Na transição da para o segundo piso do palácio, a escadaria é habitada por uma obra de Manuel Caeiro. A componente site specific da instalação 33’ de Fama (2011) é provavelmente das que de um modo mais evidente se manifesta. Uma estrutura em ferro, madeira e lâmpadas fluorescentes dá forma à “porta” pela qual temos de passar para aceder à escadaria, que está, toda ela, coberta por uma carpete vermelha, para, no fim da subida, encontrarmos uma estrutura semelhante à inicial, pela qual agora saímos. Entramos e saímos de dentro da obra de arte, somos por momentos parte dela. Escalamos, degrau a degrau, a passagem que esta representa, pois que todo o aparato só adquire um sentido último através da presença do espectador dentro dele: através deste movimento de entrada e saída de um espaço revestido de todos os artifícios que caracterizam um “espaço de fama”, o espaço torna-se, empiricamente, um “espaço de fama”. É, deste modo, recuperada a pompa e grandiosidade do palácio, mas de um modo particularmente moderno, o que, de um modo peculiar, colide com a atmosfera clássica do espaço.

No salão de baile, uma estrutura esteve montada até ao dia 19 de Novembro para a projecção de um filme da autoria do cineasta britânico John Akomfrah, MNEMOSYNE (2011). Em 45 minutos, imagem, palavra e música constituem uma totalidade que contemplamos como uma vénia à humanidade e ao mundo que habita. O mundo com as suas paisagens, as suas fábricas e cidades, as suas multidões. O ser humano com as suas angústias, seus êxtases, suas danças e melodias, seus rituais e suas guerras. Também um elogio às criações humanas, eternas, que marcam e sempre marcarão a história da nossa existência: ao longo do filme vão sendo lidos excertos de obras de autores que marcaram o pensamento humano, como Sófocles, Homero, Shakespeare, Milton, ou Nietzsche. A descontinuidade que marca o filme converte-se num enriquecimento do mesmo, como se fossemos experienciando imagens e sons aleatórios que metaforizam a diversidade humana e a desmesura dos sentimentos que marcam a nossa existência.

Tatiana Blass, brasileira premiada com o PIPA 2011, apresenta diversas obras na galeria, todas elas apresentando o vínculo artístico que está presente em todas as obras da artista, como que a voz com que esta se exprime. Numa primeira sala, encontramos uma série de desenhos intitulada Acidente (2011), nos quais as cores se espraiam pelo papel, numa névoa de ambiências onde por vezes detectamos uma figura humana, como se estivéssemos sob o efeito de fata morgana, meras miragens, ilusões de algo cuja realidade duvidamos. Fica apenas a mescla de cores e a dúvida permanente perante o que julgamos estar a ver. Cerco #2 (2011) dá nome à escultura de uma ave que, moldada em latão fundido, jaz, como uma natureza morta, no chão, ligada a um altar por duas ligas do mesmo material. O brilho dourado da obra e a ligação ao altar inspiram algo de místico, quase divino, depositando no objecto uma forte simbologia. As lareiras de duas das salas do palácio parecem constituir um díptico que anuncia uma catástrofe. Em Cão cego #3 (2011), uma mancha de cera micro cristalina parece advir do interior da lareira espalhando-se pela sala, as quatro patas de um cão, minuciosamente esculpidas em latão fundido, destacam-se, como que destroços do que sobra quando o espaço é assim invadido por uma matéria. Na segunda lareira, a mesma estrutura é montada, sendo que o que agora se ergue da mancha livre e rugosa são dois pés humanos. O humano e animal, expostos a uma mesma morte, ficando desta a mesma parcela, aquela que sempre toca o chão.

Metade da fala no chão (2011) é um vídeo no qual, mais uma vez, a cera é utilizada enquanto instrumento de aniquilação. Desta vez a vítima é um piano, silenciado pela cera que se alastra, imobilizando as teclas, tornando-as mudas, apenas o som oco do toque na madeira ecoando num palco. O pianista toca a peça sem quaisquer interrupções, como que ignorante quanto ao que vai acontecendo, no final faz mesmo uma vénia à sua plateia vazia, em resposta a um aplauso também silencioso. No fim temos apenas a imagem do piano de cauda, solitário no centro de um palco vazio, semi-oculto pela cera que o cobre, que lhe dá um chão: é escultura-instrumento, agora condenado ao silêncio.


Maria Beatriz Marquilhas