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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Scultura fantasma. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista da exposição Scultura fantasma. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista das obras de Thomas Zipp. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista da exposição Scultura fantasma. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista da exposição Scultura fantasma. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista da exposição Sob Fogo/Under Fire. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista da exposição Sob Fogo/Under Fire. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista da exposição Sob Fogo/Under Fire. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista da exposição Sob Fogo/Under Fire. Cortesia: Galeria Baginski.


Vista da obra de Ana Manso. Cortesia: Galeria Baginski.


Still do video de Anthony McCall. Cortesia: Galeria Baginski.


Still do vídeo de Kajsa Dahlberg. Cortesia: Galeria Baginski.

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Scultura Fantasma ::: Sob Fogo/Under Fire




GALERIA BAGINSKI
Rua Capitão Leitão, 51-53
1950-050 lisboa

18 JAN - 10 MAR 2012


A Galeria Baginski abre o ano com a exibição simultânea de duas exposições coletivas: Scultura Fantasma e Sob Fogo/Under Fire, respetivamente organizadas pelos artistas Gonçalo Sena e André Romão.


Scultura Fantasma apresenta obras de André Sousa (1980, Porto, PT), Ben Rivers (1972, Somerset, UK), Gino de Dominicis (1947, Ancona, IT - 1998, Roma, IT) e Thomas Zipp (1966, Heppenheim, DE). Como ponto de partida a peça de Gino de Dominicis estabelece o mote para a exposição. Trata-se de uma fotomontagem incerta quanto à data e título. Com uma margem temporal vaga, cerca de vinte anos (1970-1990), e com um título que embora irreflexivo por vontade do artista acaba por tomar outra dimensão, concretamente pela mão do galerista da l’Attico em Roma, que se referia à peça como “il fantasminoâ€. Trabalhando a preto e branco e com dimensões reduzidas, é visível em primeiro plano uma grande escultura em sombra e ao fundo um evento social que decorre numa galeria. Uma composição ambígua e de subtil estranheza, que parte da introdução de uma mancha negra bidimensional, reportando-se a uma escultura produzida pelo artista anteriormente. A sombra realça a silhueta de um guerreiro sumério, convertendo-a num objeto imaterial e efémero, que subverte dos princípios escultóricos. Esta alteração da forma traduz-se num exercício de simbiose entre dois momentos temporais diferentes, ambos de difícil definição e distinção cronológica aos olhos do espetador, conduzindo à liberdade de criação de um outro momento.

A questão temporal está também patente no filme de Ben Rivers - House, um trabalho de continuidade com Old Dark House de 2003, onde é perceptível uma intencional proximidade quer ao nível concetual como formal. Esta relação entre peças transmite uma ideia de prolongamento no tempo por meio da fragmentação em duas partes concebidas em épocas diferentes. House mostra um percurso no interior de uma casa velha, sombria, em ruínas e desabitada à primeira vista. As imagens chegam ao espetador através da iluminação pontual, feita por meio de focos especificamente direcionados que condicionam a visão. A luz propicia um jogo de contrastes, que ganham maior complexidade quando aliados a acontecimentos de difícil explicação, como o aparecimento de uma vela que flutua ou a repentina aceleração da destruição da casa. A sucessão de acontecimentos leva a uma complicada perceção do espaço, possivelmente porque aquilo que é dado a conhecer não é a representação de um lugar, mas antes a representação da memória desse lugar, uma memória desgastada pelo tempo. Esta interpretação pretende justificar através de uma método racional as incongruências de alguns acontecimentos, um comportamento semelhante à posição de Thomas Zipp.

Três fotografias pertencentes a uma longa série, que documenta três performances distintas, sendo que todas retratam a mesma ação: um tratamento que procura alterar um comportamento desviante. A imposição de um regresso à humanidade normalizada, expõe questões antagónicas - bom/mau; verdade/mentira; deus/diabo; normal/desviante; corpo/mente. O tratamento em causa é muito questionável pela estranheza, expressa na indumentária coberta de sujidade sobre aquilo que possivelmente foi branco clínico, mas também pelo uso de máscaras que nos reportam para uma anulação da identidade, quer do indivíduo que está sob observação como de quem o observa. A ideia é ainda enaltecida através do desenho de linhas e de balões de comunicação sobre a fotografia, que reforçam e especificam a direcção do olhar, dos movimentos e do som.

Como pano de fundo da exposição, uma instalação de André Sousa denominada Sem título (Scultura Fantasma), eleva inevitavelmente o questionamento da originalidade do título da exposição. Compilando vários mediums segundo uma aura de instabilidade e fragilidade, são contrapostos elementos perecíveis com a estabilidade de um passadiço de betão. O possível trajeto sobre as lajes, faz-se denotar pela criação de distanciamento entre o espetador e a obra, impossibilitando o confronto direto com a mesma.


Sob Fogo/Under Fire apresenta obras de Ana Manso (1984, Lisboa, PT), Anthony McCall (1946, St. Paul’s Cray, UK), Kajsa Dahlberg (1973, Gotemburgo, SE), José de Almada Negreiros (1893, Trindade, ST - 1970, Lisboa, PT) e a produção cerâmica de um conjunto de fábricas da Alemanha de Leste e Ocidental, e da Hungria, datadas entre os anos 50 e 70 do século XX.

No centro da sala, em destaque, são mostradas vinte e quatro cerâmicas produzidas industrialmente, com decoração executada manualmente pelos trabalhadores fabris, numa relação que contradiz os princípios da produção em massa – uniformização dos produtos, altas taxas de produção a baixo custo.

Cada uma das cerâmicas era produzida segundo princípios de individualização e unicidade, vulgarmente associados à produção artística, enaltecendo o trabalho da mão quando comparada à máquina. Uma vontade que promove a liberdade de aquisição de uma “obra de arteâ€, mas que peca quando se depara com uma incapacidade de valorização da identidade de quem a decora/produz. O mesmo problema é colocado à pequena escultura em madeira, detentora de uma assinatura sem representatividade pelo desconhecimento do autor. A confrontação entre estes objetos e a actual produção artística procura colocar, uma vez mais, “sob fogo†questões de reprodutibilidade (1) e de “quando é arte†(2).

Em estreita relação, mas com um carácter assumidamente artístico, é nos dado a conhecer o estudo preparatório de um vitral criado por Almada Negreiros para uma casa modernista no Restelo, parte integrante de um vasto projeto decorativo que pontua toda a residência. Eros e Psiché define um momento de charneira na exposição como elemento exemplar da distinção dos dois campos de ação que através da sua confrontação procuram determinar significados.

Promovendo ligações formais de cor e textura com as cerâmicas, a pintura de Ana Manso é repartida em dois momentos, uma sobre a parede (mural) e uma sobre tela não engradada, agrafada directamente à parede. This is a circle defende a criação artística prestando-se à liberdade subjectiva sem preconceitos limitativos e castradores.

Por fim Anthony McCall e Kajsa Dahlberg mostram respectivamente, Landscape for fire (1972) e In Godot’s waiting room (2011), ambos registos documentais de performance. Landscape for fire pertence a uma série com início em 1973, e regista o acender de sucessivas tochas que desenham no solo uma grelha, enfatizando as qualidades esculturais do feixe de luz. Para isso o artista dá especial atenção aos movimentos de câmara, variando entre a abrupta aproximação do fogo, os planos aéreos ou a inversão da imagem, mas também ao movimento, contínuo, ritmado, rápido e automático do acender. Uma peça que vem ocupar um lugar entre a escultura, o cinema e o desenho.

In Godot’s waiting room documenta a leitura de um texto co-produzido por Gritt Uldall-Jessen, que tomou a forma de um livro de artista. Este trabalho é a conjugação de duas narrativas - a obra À espera de Godot de Beckett e um diário escrito em 1983 relatando uma espera angustiante protagonizada por um grupo de mulheres em Umeå (Suécia), que presenciam a iminente ocupação da sua casa, uma espera inerte perante a evasão. A junção dos dois textos leva à percepção irrefutável das variantes que procuram marcar pontos diferenciadores – uma espera real e uma irreal; uma social e outra que espera o nada – mas unidas pela inviabilidade e pela previsão do desconhecido.

A proposta expositiva de André Romão conjuga diversos objetos que estimulam o questionamento do exercício artístico e das respetivas consequências, designadamente a ação de levar à exposição um conjunto de objetos comuns que têm o intuito de obter a legitimação da sua carga artística. O problema é agora também transposto para a galeria, que presume a comercialização de obras de arte, vendendo objetos demasiado dúbios quanto ao seu estatuto.


Com um percurso artístico recente e uma forte proximidade de currículos, formação, projetos e participação no Prémio EDP, Gonçalo Sena e André Romão são dois dos artistas mais jovens representados pela Galeria Baginski.

As exposições são independentes, mas não concorrentes, muito pelo contrário, especificamente ao nível concetual elas são complementares, encaixando-se perfeitamente. De acordo com uma perspetiva mais objetiva é possível traçar pontos de contato: ambas são estruturadas partindo abertamente de um núcleo/peça-chave e veiculam na sua globalidade relações entre os organizadores e o circuito artístico contemporâneo.

Convidados para organizar duas exposições autorais, a deslocação de funções implica necessariamente uma valorização das escolhas, promovendo leituras que colocam em destaque relações concetuais entre objetos justapostos e confrontados. Finalmente podemos considerar que este exercício atinge um papel comparável à criação artística.




NOTAS

(1) Benjamin, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Relógio d’Ãgua, 1992, pp.71-113.
(2) Goodman, Nelson, Modos de Fazer Mundos. Porto: Asa, 1995, pp.103-118.


Flávia Violante