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ANDRÉ TRINDADEGoing nowhere and getting there3 + 1 ARTE CONTEMPORÂNEA Largo Hintze Ribeiro 2E-F 1250 – 122 Lisboa, Portugal 24 FEV - 07 ABR 2012 Let there be light A atual exposição de André Trindade surge como um culminar das problemáticas conceptuais que marcam o percurso artístico do autor. Um trabalho de cariz arqueológico, mediante o qual nos é sempre devolvida uma abordagem da espacialidade muito própria, convoca um pensar os objetos e os lugares enquanto extrapolação metafórica para domínios sempre humanos, demasiado humanos. Uma arqueologia da essência humana converte-se, através das obras expostas, numa revelação dos mais recônditos abismos de uma existência errante. O osso é a última camada. O artista assume aqui a intencionalidade de ir, sem preâmbulos, ao núcleo conceptual das questões a que se entrega. É osso após osso que vemos erigida a primeira peça, a “coluna vertebral” de um colosso, numa verticalidade que anuncia a queda, mas cuja sombra dita uma altiva perfeição. A debilidade e fragilidade presentes na obra contradizem uma ânsia de ascensão pela verticalidade, a mesma que sempre nos comove nas esculturas de Alberto Giacometti, sempre obstinadas em chegar mais alto. Uma composição de ossos dá forma a um rosto que, aliado ao célebre diálogo de Doolitle com a bomba do filme de Carpenter Dark Star (1974) parece formar um díptico objeto/palavra. Um retorno a um momento primordial parece ditar o acaso que constitui o facto de tudo ser como é, e não de outro modo. O modo como os ossos estão articulados sugere uma ossatura humana, no entanto, são apenas fragmentos, longe de ser aquilo de que realmente somos feitos. O díptico é iluminado por uma ruidosa projeção de luz, que nos remete para a ficcionalidade do que está representado. E uma consciência aguda da solidão que é a perceção do ser no mundo. “And in addition to the darkness there was also me. And I moved upon the face of the darkness. (…) And I saw that I was alone.” [1], lemos no excerto, refletindo este um pensamento fenomenológico através de um diálogo quase platónico. A perceção do isolamento humano está expressa de um modo mais evidente na obra que se segue: uma tenda armada na parede da sala, iluminada no interior, sugerindo que está habitada. A tenda, sendo um espaço solitário, é-lhe intrínseca uma constante mobilidade. O modo como a tenda está exposta representa um desenraizamento total do mundo, pois que nem a gravidade aqui existe – é lugar de um homem só, e move-se com ele, pois que não somos mais que o corpo que habitamos, e o esqueleto é a nossa eterna morada. E somos por fim devolvidos à gravidade e à materialidade rochosa da Terra. O não-humano que nos é tão próximo, pois que a pedra está para a Natureza como o osso está para o Homem. Uma pedra obsidiana (vidro vulcânico) sobre um quadrado negro encerra a exposição. Também a pedra, na sua presença inexorável, parece conhecer o isolamento, e um foco de luz que ilumina a obra cria uma sombra na parede na qual o quadrado preto que serve de base à pedra se torna branco, como que num processo de revelação. Mais uma vez parece ser a luz, através da sombra que desenha, a causa do desvelamento: o duplo que a sombra cria parece revelar mais do objeto do que ele próprio, como que pedindo para o olharmos mais atentamente. Esse é o fio condutor de toda a exposição: trazer a verdade à luz; iluminar as trevas para que, no fim, possamos ver o que se esconde, e aceitá-lo, simplesmente porque é a verdade. NOTAS [1] Excerto de Dark Star (1974) de John Carpenter.
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