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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Raymond Hains, "D'après le néo dada emballé ou l'art de se tailler en palissade", 1998. Collection du Frac Champagne-Ardenne, Reims. André Morin


Vista geral


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ARQUIVO:


COLECTIVA

La Force de l’Art




GRAND PALAIS
Avenue Winston Churchill
75008 Paris

10 MAI - 25 JUN 2006

O Cavalo de Tróia não fala francês

Que cette exposition soit une fête de la liberté, l’afirmation que l’on ne se repose pas sur nos lauriers avec notre seul patrimoine, mais que nous voulons entretenir la fièvre de la création artistique.

Renaud Donnedieu de Vabres, Ministro da Cultura francês


Edificado em 1900, por ocasião da Exposição Universal de Paris, o Grand Palais foi, desde o princípio e como o indica a inscrição gravada num dos seus frontões, «um monumento consagrado pela República à glória da arte francesa». Passados cem anos, o que se lê actualmente no lugar da épica inscrição – entaipada por motivo de obras – é que «o Estado financia a recuperação da fachada e dos elementos decorativos do Grand Palais»: exemplar grandioso da arquitectura do ferro, a cobertura envidraçada do Grand Palais é hoje permeável à água das chuvas. Esta é, sem dúvida, uma das figurações da angústia da França contemporânea: se Paris foi, nas palavras de Benjamin, a capital do século XIX – centro de convergência de múltiplas culturas, capital de um extenso império colonial, foco de irrupção das movimentações democráticas modernas – é hoje uma enorme cidade-museu, a um tempo guardiã orgulhosa de um património cultural que define o Ocidente (e a história da arte ocidental) e a imagem duma secundarização face à matriz anglo-saxónica, o outro dos termos daquela definição.

Primeira edição de um evento que se prevê trienal, “La Force de l’art“ – o título é retirado da obra de Jean-Luc Chalumeau, “La Force de l’art – Histoire de l’art en Occident de l’an mil à nos jours“ (1993) – é uma grande operação de propaganda (sendo conhecida em França como a “exposição de Villepin“), promovida pelo Ministério da Cultura francês e organizada pela Delegação de Artes Plásticas e pela Reunião dos Museus Nacionais, que visa demonstrar a efeverscência criativa da arte contemporânea francesa e inscrever Paris no roteiro das mais importantes mostras internacionais de arte contemporânea – definido, em grande medida, pela Trienal de Londres e pela Bienal do Whitney Museum, em Nova Iorque –, pretendendo-se ainda responder àquela que a organização diz ser uma das principais inquietações do público: où est la création française, aujourd’hui?.

E é assim que, contradizendo a declarada manifestação de força, todo o dispositivo se concentra na ideia de uma democratização da arte contemporânea – em rigor, a mesma ideia de democratização que, convocada fora do seu tempo histórico e destituida de conteúdo, serve hoje de álibi para todas as operações políticas, por mais contraditórias e opressivas (e impressivas). Este imperativo de democratização verificar-se-ia então tanto ao nível das proposições expositivas – aos artistas é assegurada total liberdade criativa, apesar da instrumentalização evidente (sacrifica-se o horizonte experimental dos trabalhos – tanto ao nível da proposta, como da recepção – ao efeito espectacular do conjunto); aos 15 comissários, responsáveis pela concepção de outros tantos núcleos de apresentação (nalguns casos verdadeiros petits cabinets de l’art contemporain: a mostra é definida como uma “exposição de exposições“) é pedida a afirmação de uma perspectiva pessoal sobre a arte contemporânea francesa, resultando uma polifonia discursiva, falsamente plural, não dialógica nem ruidosa –, como no que se refere, já se vê, à recepção pelo “grande público“ (a quem se dá “carta branca“ na interpretação dos objectos apresentados, apesar da organização admitir a nublosidade dos códigos estéticos da arte contemporânea). A proposta de “La Force de l’art“ resume-se, pois, à celebração da actualidade e de uma suposta pluralidade da criação artística em França – que se diz guiada pelo polimorfismo resultante do fim das ideologias (políticas e artísticas), pela libertação da criação face a um discurso dominante, pela singularidade irredutível das expressões individuais (um truísmo, dizemos nós), pela interposição como qualidade cultural da contemporaneidade, enfim, por uma boa disposição que é outro nome para a abertura simplificadora (porventura a gaiola dourada da arte contemporânea, refém de todo o conformismo estético e político e de uma repetida desmontagem demagógica dos seus próprios mecanismos) –; à celebração da paridade entre todos os domínios da criação; à celebração de uma possível especificidade da arte francesa – defendida não tanto pela nacionalidade, como pela diversidade cultural, numa reafirmação do seu cosmopolitismo oitocentista –; à celebração, resumindo, da instituição de uma renovada centralidade artística em Paris que, querendo conservar um determinado lugar histórico de acolhimento e legitimação da arte internacional, está, pelo seguidismo do modelo anglo-saxónico do salon de arte contemporânea, desde logo a perder a batalha.

Volvidos cem anos sobre as primeiras exposições-feiras (de arte, de automóveis, de máquinas agricolas e hortículas, aeronáuticas, etc..) realizadas no Grand Palais (construído no sítio onde até 1896 existira o Palais de l’Industrie), o paradigma expositivo continua, depois das experiências radicais das primeiras e das segundas vanguardas (aquelas mais anárquicas, estas mais institucionais), a ser o meio de apresentação privilegiado pela maior parte da pesquisa estética contemporânea, condicionando – como modelo aparentemente inquestionável – não só as proposições artísticas, mas também o seu possível alcance político e social: a composição modular a que estão votadas a maior parte das grandes exposições institucionais impõe ao espectador uma grelha onde este já sabe de antemão como agir e comportar-se, uma estrutura onde o desafio proposto pela incoincidência entre forma e função está absolutamente ausente e se transforma em produto de consumo imediato. Dentre os 15 comissários de “La Force de l’art“ apenas dois assumiram a história do lugar onde decorre a mostra como princípio de reflexão. Bernard Marcadé, responsável pelo espaço intitulado “Je ne crois pas aux fantômes, mais j’en ai peur“, debate-se com o aspecto fantasmático e ilusório da exposição (entendida na sua relação com a feira, seja desordenada, comercial ou festiva); Xavier Veilhan, propositor do espaço “Le Baron de Triqueti“, centra-se na dimensão comemorativa da manifestação e, relacionando-a com a estatuária, produz uma estrutura de apresentação que, de modo irónico e convocando alguns chavões do léxico formal da arquitectura moderna e do minimalismo dos anos 70, confronta o espectador com a história da arte, convertida num plinto escalonado (isto é, num tabuado pintado de amarelo). No entanto, nenhum dos dois foi capaz de responder ao canto do cisne: quando se acredita, como Eric de Troncy (outro dos comissários da exposição), que a questão central da arte, “durante muito tempo esquecida em França“, é a criação “de objectos de prazer e de pensamento“ susceptíveis de seduzir e de “reter o olhar“, não se está a reduzir a criação estética à montra da indústria cultural? Será essa a força da arte?



António Preto