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MICHAEL E. SMITHMichael E. SmithCULTURGEST EdifÃcio Sede da Caixa Geral de Depósitos, Rua Arco do Cego 1000-300 Lisboa 25 FEV - 13 MAI 2012 As obras de Michael E. Smith levam-nos à s ruÃnas da contemporaneidade. Uma desertificação museológica parece apresentar os dispersos despojos de uma cidade mutilada, ainda que os contemplemos no seio da ambiência venerável de um espaço onde habitam obras de arte. O artista personifica o arauto da catástrofe. Objectos da quotidianidade metropolitana e materiais industriais, como plástico, metal ou fios eléctricos, sofrem um processo de manipulação mediante o qual são arrancados ao seu território e à sua funcionalidade, dá-se a mortificação do objecto e este devém ruÃna. O seu reconhecimento fica cancelado e a sua presença parece testemunhar um acto de violência extrema. “O modo rarefeito como o artista instala o seu trabalho acentua uma impressão de abandono, de perda, de ruÃna.†[1] Peças ligadas ao corpo e ao uso humanos, como umas calças de fato de treino, um casaco ou uma bola de basquete, parecem ser vestÃgios da desumanização que é parte do massacre. Uma bola de basquete ou uma máscara, não sabemos ao certo de qual se trata, se ambos num só novo objecto que, criando uma máscara usando uma bola de basquete, não deixa de ser apenas uma bola com um rosto. O limiar entre o humano e o objectual é aqui uma linha ténue, sendo que não sabemos de que lado está a obra, reconhecemos apenas a fusão das duas naturezas. O elemento humano está presente, mas enquanto indÃcio, sempre para sublinhar a ausência do Homem e o despovoamento do espaço. A exposição parece configurar um mapeamento paradoxal: um não-lugar onde habitam objectos que parecem querer contar uma história – objectos-lugares. Ainda que algumas das obras pareçam ser meros objets trouvés, outros foram claramente manipulados pelo artista, ou aliados a outros, remetendo os mesmos para uma ambiguidade de sentido, da qual é exemplo uma obra na qual a um poste de caixa de correio encontrado é adicionado um garrafão de leite e magnetos de disco rÃgido, como que num processo de colagem, dando a impressão de que, de certo modo, os diferentes objectos foram submetidos a uma força de atracção que os unificou, originando uma só obra. A cada objecto é atribuÃda uma singularidade própria, e, pela simplicidade dos mesmos, agora que sofreram um deslocamento relativamente ao seu território e à sua funcionalidade e que estão desprovidos de tudo o que lhes é essencialmente extrÃnseco, tudo o que vemos são as cores que através dele parecem gritar, as rudezas e os reflexos das superfÃcies, a forma geométrica que este desenha no espaço, as texturas e resistências que apelam ao toque. O objecto existe agora per se, e a sua existência no espaço define este último, povoa-o, pois que o objecto, na sua essência que ali se revela, espraia-se no lugar que ocupa. “O espaço define a forma de representação que produzimos do mundo. Não só: o espaço e a nossa forma de representação do mundo.†[2] Existe apenas o espaço – uma brancura côncava a habitar – e objecto que o ocupa e que parece afirmar apenas Aqui estou, contempla-me. Michael E. Smith nasceu e viveu em Detroit, uma cidade marcada pela pobreza e pela degradação, o que nos leva a compreender o seu trabalho artÃstico enquanto reflexão de um cariz muito pessoal. A urbanização e o caos a que esta por vezes leva, com um crivo quase apocalÃptico, são explorados pelo artista, que parece simular as ruÃnas da metrópole contemporânea no interior de um espaço vácuo, receptor de sentido. Deste modo, Michael Smith parece integrar-se no núcleo de “artistas para os quais não existe outro destino para a obra de arte senão a sua inserção num real que é o da polÃtica e da cidade, a ideia de que a obra de arte se deve imiscuir no quotidiano é inseparável de uma viragem no sentido da espacialidade, do edificado†[3]. NOTAS [1] Miguel Wandschneider, Michael E. Smith, Culturgest, Lisboa, Fevereiro – Maio 2012, p. 3 [2] Delfim Sardo, “Quando a Arte fala Arquiteturaâ€. In: Marte nº 4, Da Intervenção ArtÃstica à Intervenção Espacial, Lisboa, 2011, p. 78 [3] Idem, p. 77
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