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DAVID HALLEnd Piece...AMBIKA P3 University of Westminster, 35 Marylebone Rd London NW1 5LS 16 MAR - 22 ABR 2012 A exposição de David Hall assinala a passagem no Reino Unido para a transmissão televisiva de sinal digital. O tÃtulo dramático reflete o evento importante, mas, principalmente, anuncia a teatralidade caracterÃstica da sua obra, onde a análise do media serve como instrumento para uma profunda investigação do lugar do espetador. O nome da exposição tem origem em 1001 TV Sets (End Piece) (2012), instalação constituÃda por mil e um televisores que transmitem em simultâneo os canais de sinal analógico do paÃs e ocupam por completo o espaço central da Ambika P3. Este interesse no objeto e na sua disposição espacial relaciona-se com a formação do artista como escultor. Hall participa, por exemplo, na exposição Primary Structures, momento seminal da arte minimalista nos Estados Unidos que acontece no Jewish Museum de Nova Iorque em 1966. Em 1001 TV Sets (End Piece) os aparelhos de televisão acompanham a mudança tecnológica e progressivamente passam a emitir o ruÃdo, visual e sonoro, caracterÃstico da ausência de sinal, mas que aqui marca a interrupção permanente da transmissão analógica. A partir de dia 18 de Abril todos os aparelhos emitem este ruÃdo e a instalação ganha a sua forma final, que é apresentada durante os últimos quatro dias da exposição. End Piece... inclui ainda sete TV Interruptions (1971), Progressive Recession (1972) e Stooky Bill TV (1990), um grupo de trabalhos que se encontra unido pelo interesse no universo da televisão, interpretado como media e objeto. 1001 TV Sets (End Piece) questiona a relação do espetador com a televisão e o mundo exterior. A televisão, embora seja uma presença habitual no espaço público, em salas de espera e cafés por exemplo, encontra-se extremamente relacionada com o espaço privado da sala de estar. É esse sentimento de familiaridade que se promove com a inserção do aparelho em espaços públicos, tornando-os, presumidamente, mais Ãntimos e agradáveis. Esta oposição encontra-se também no interior do próprio media que se apresenta como um retrato do mundo produzido de forma industrial para consumo privado, individual e/ou familiar. 1001 TV Sets (End Piece) representa uma mudança tecnológica com consequências económicas e sociais. O novo formato de transmissão quebra o monopólio das emissoras televisivas e assinala uma mudança em termos de consumo. Este nova tipologia de receção expande exponencialmente as possibilidades do formato cabo mas, principalmente, aproxima-se do formato da internet, que absorve o media mais antigo na sua linguagem. A realidade fictÃcia da televisão homogénea termina com a suposta democratização do consumo, e é esta transformação que Hall encena em 1001 TV Sets (End Piece). A peça é, ainda, uma reformulação de 101 TV Sets (1972-75), que foi apresentada pela primeira vez utilizando 60 televisores em 1972. Este lado volátil na estrutura e simbologia da obra, e o facto de constituir uma actualização do passado, torna a obra num monumento à passagem do tempo que inclui o próprio devir, um hÃbrido de luto e celebração. Stooky Bill TV, que recria a primeira transmissão televisiva do mundo, realizada por John Logie Baird em Londres, encontra-se no interior de 1001 TV Sets (End Piece), rodeada por televisores que emitem a programação de vários canais. Stooky Bill TV constitui uma interpretação pessoal da experiência de 1926. A conversa original entre o ventrÃloquo e Stooky Bill, o boneco, torna-se, aqui, uma discussão sobre a função da televisão no futuro-presente da época em que Hall constrói o trabalho, que se tornou passado do contexto actual. Stooky Bill prevê que a televisão se irá tornar um mundo de fantasia, enquanto que a voz humana opõe a vontade de ver o mundo real. A figura do duplo torna-se elemento central em Stooky Bill TV. Para além do eixo ventrÃloquo-boneco, a conversa descreve a dicotomia realidade-fantasia que domina o media, visÃvel, por exemplo, nos constantes diretos dos telejornais e na produção de um mundo fictÃcio através da sua programação e publicidade. Em oposição a Hollywood, onde o cinema é fábrica de sonhos, a televisão nasce como uma máquina de realidades construÃdas. A própria composição visual do trabalho, onde Stooky Bill aparece isolado, lembra os programas de talking heads, onde convidados reais difundem as suas narrativas subjectivas. A inclusão desta peça no interior de 1001 TV Sets (End Piece) sublinha o lado fúnebre-celebratório e de reformulação de toda a exposição: de dia 18 a dia 22 os únicos aparelhos que continuam a emitir mostram exclusivamente Stooky Bill TV, a primeira emissão televisiva. O conjunto TV Interruptions é produzido para a televisão escocesa, que transmite, entre Agosto e Setembro de 1971, as dez interrupções sem qualquer tipo de mediação. Esta utilização do contexto televisivo como uma plataforma de experimentação artÃstica era novidade no Reino Unido, mas tem antecedentes na Alemanha e nos Estados Unidos, onde a Boston Public Television WGBH é exemplo importante. As TV Interruptions foram criadas para um contexto televisivo e Hall sublinha, à época, a necessidade da televisão (media e aparelho) como local de exibição e testemunho destas obras. No entanto, a apresentação em End Piece... é justificada pelo facto das interrupções incluÃrem a referida análise sobre o posicionamento do espetador, tema central da exposição. A mudança de significações inerente a este novo contexto parece de certa forma ter paralelo na reformulação de 1001 TV Sets (End Piece) e Stooky Bill TV. Aqui, as TV Interruptions são instaladas em sete televisores colocados em plintos negros. Cada aparelho emite, em ordens diferentes, as sete interrupções que se sobrepõem e, de certa forma, se interrompem, ecoando, novamente, 1001 TV Sets (End Piece), neste caso, o seu caos sonoro e visual. A disposição dos aparelhos em cÃrculo também retoma o interesse de Hall na dimensão espacial dos seus trabalhos. TV Interruptions -Tap Piece retrata uma torneira que uma vez aberta inunda o ecrã, onde a água sobe na horizontal. Depois de ocupar todo o espaço interior do aparelho, o lÃquido começa a desaparecer e assinala, através do seu nÃvel, a nova posição diagonal da câmara. Esta instabilidade referencial, construÃda de forma impercetÃvel, indica ao espetador a dimensão fictÃcia e ilusória do media bem como a possibilidade de novas interações com o objeto. O humor metafórico de Hall utiliza ferramentas simples, num tipo de apropriação próxima do universo Surrealista e Dada, sobrepondo realidade e fantasia. Progressive Recession apresenta um circuito fechado de vÃdeo constituÃdo por nove monitores e respetivas câmaras. As imagens são captadas e imediatamente reproduzidas sem qualquer gravação. O visitante ao percorrer a instalação observa a sua imagem distanciar-se progressivamente do local onde se encontra. Esta estrutura reflexiva constrói uma situação onde o observador é também o observado, sublinhando o poder inerente à ação de ver e ser visto, e anunciando os mecanismos de controle que se tornaram comuns na atualidade. A instalação apresenta contactos com o trabalho de Dan Graham, principalmente Present Continuous Past(s) (1974), e com experiências de Vito Acconci e Bruce Nauman que questionam o espetador-visitante, tendo como base uma localização espacial e temporal instável. Progressive Recession põe em contato mundos e temporalidades paralelas, indicando novas valências para a tecnologia e a existência de outros espaços no interior do media, ocultos mas omnipresentes. End Piece... constitui um corpo paradigmático da obra de Hall. A apresentação conjunta destes trabalhos aponta para temas e metodologias centrais como o efémero e a repetição. As diferentes dimensões temporais que cada peça incorpora torna-as documentos da passagem do tempo, e, em particular, do efémero, que se torna visÃvel, por exemplo, nas diversas personificações dos trabalhos. De forma semelhante, a quantidade de aparelhos de 1001 TV Sets (End Piece), a recriação da experiência de 1926 em Stooky Bill TV, a série de TV Interruptions, e a criação de personagens e espaços duplos em Progressive Recession, demonstram a forma como o artista utiliza a repetição como método de destruição imediata que possibilita um segundo momento construtivo. Estas estratégias têm como fim alertar o espetador para a possibilidade de um outro tipo de televisão, ou para novas aplicações do objecto-media. O cemitério que acolhe o visitante nos últimos dias da exposição assinala o final do primeira etapa do processo e o inÃcio de um segundo momento que Hall espera ser construtivo.
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