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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Hans-Peter Feldmann, David. Vista da instalação, Serpentine Gallery, Londres © 2012 Jerry Hardman-Jones


Hans-Peter Feldmann, Curtain with Golden Rings © 2011 Hans-Peter Feldmann


Exposição Hans-Peter Feldmann, Serpentine Gallery, Londres © 2012 Jerry Hardman-Jones


Hans-Peter Feldmann, Shadow Play. Exposição Hans-Peter Feldmann, Serpentine Gallery, Londres © 2012 Jerry Hardman-Jones


Hans-Peter Feldmann Two Girls With Shadow © 2011 Hans-Peter Feldmann


Exposição Hans-Peter Feldmann. Vista da instalação. Serpentine Gallery, Londres © 2012 Jerry Hardman-Jones


Exposição Hans-Peter Feldmann. Vista da instalação. Serpentine Gallery, Londres © 2012 Jerry Hardman-Jones


Exposição Hans-Peter Feldmann. Vista da instalação, Serpentine Gallery, Londres © 2012 Jerry Hardman-Jones

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ARQUIVO:


HANS-PETER FELDMANN

Hans-Peter Feldmann




SERPENTINE GALLERY
Kensington Gardens
London W2 3XA

11 ABR - 05 JUN 2012


A ideia que a realidade se constrói subjectivamente é um dos pilares da obra de Hans-Peter Feldmann e permeia toda a retrospetiva que apresenta na Serpentine Gallery. Os trabalhos incluídos investigam o processo de construção da realidade, principalmente a mediação entre o indivíduo e o seu meio social. Feldmann encontra-se particularmente interessado na exploração do espaço entre o significado e significante das imagens e objectos utilizados neste processo. O seu interesse pelo quotidiano, considerado um local mediático e mediante, é consequência da exploração deste intervalo. Para Feldmann é na vivência diária do espaço público (entendido como o oposto de espaço privado), que o indivíduo negoceia a sua construção de significados, e, por isso, a intervenção nessa esfera é a forma mais eficaz de reanimar esses processos e de abrir novos campos interpretativos. O seu trabalho assinala a possibilidade de novos entendimentos e utilidades para imagens e objectos, que desestabilizem a cristalização dos significados construídos socialmente. Esta investigação apresenta contactos com a arte conceptual e, em simultâneo, a sua utilização de produtos mediáticos aproxima-a da pop art.

A ideia de projeção, definida como um processo pelo qual o sujeito constrói a sua própria realidade, pode ser dada como ferramenta de leitura para a sua obra. Projeção, aqui, é entendida como o método pelo qual o indivíduo dota a imagem ou objecto de significações relacionadas com a sua própria vivência individual e interação com o mundo social, não correspondendo, de forma estrita, com o conceito de psicologia. A abertura interpretativa do trabalho de Feldmann funciona como uma forma de potenciar o processo de projeção e de problematizar a estabilidade das dimensões significativas que existam a priori.

Shadow Play parece personificar este processo. A obra é constituída por dois elementos: uma mesa tosca de contraplacado onde várias estruturas rotativas exibem brinquedos, souvenirs, esqueletos de dinossauros, ou bibelôs, e as sombras em movimento desses mesmos objetos criadas por projetores de luz, construídos a partir de latas. Na mesma mesa encontram-se também utensílios utilizados no fabrico da estrutura como um martelo e um metro. Em Shadow Play, o espaço entre significante e significado é assinalado pela apresentação simultânea do material que produz a sombra e a própria sombra, representação das construções subjetivas. A dicotomia positivo/negativo pode, deste modo, ser utilizada como um desdobramento da ideia de projeção. Personifica o espaço entre o significado e o significante dos objectos utilizados por Feldmann; o elemento positivo correspondendo à dimensão concreta e visível (significante) e o negativo ao lado imaterial e psicológico (significado). A fotografia, medium privilegiado por Feldmann, encontra-se baseada neste tipo de polaridade, tanto a nível material como simbólico. Two Girls With Shadow formula um exercício próximo de Shadow Play. A fotografia retrata duas figuras e respetivas sombras; a figura do lado direito foi recortada da imagem e a sua forma apresenta a cor da parede da galeria: branco.

De forma semelhante Pictures from car radios taken while good music was playing (2004) assinala a necessidade do ato imaginativo para interagir com a série fotográfica e, simultaneamente, o humor característico da obra de Feldmann. O comentário que o seu trabalho produz sobre o circuito de circulação da arte e o posicionamento do artista em sociedade, pode, também, ser dado como outro exemplo desta exploração interpretativa. David, cópia de gesso pintada de cores fortes, questiona o ideal de perfeição intemporal personificado pela escultura original. Este simulacro para além de pôr em causa a ideia de arte e de gosto, aponta ainda para o seu desinteresse em participar no modelo artístico de autonomia disciplinar. À semelhança da série que retrata fatias de pão, que entre uma multiplicidade de leituras inclui uma referência à figura do padeiro, David aponta, através da simplicidade da sua intervenção e da aproximação ao universo kitsch, para a prática artística como algo natural e pertencente à vida quotidiana em sociedade, mas que apenas alguns desempenham profissionalmente. A capacidade e interesse de Feldmann em cruzar a sua prática comercial, a sua loja em Düsseldorf, com o seu trabalho artístico, as exposições em galerias ou museus, é uma outra forma de assinalar o seu entendimento do artista como um produtor e a sua convicção na estreita relação entre o trabalho artístico, a sua época e localização. O facto de os seus trabalhos geralmente não terem data, assinatura ou título, sublinha o seu desinteresse nos mecanismos habituais de circulação artística, principalmente na vertente comercial.

A exposição apresenta também novos trabalhos. Cinco vitrinas exibem o interior de malas de cinco mulheres. Feldmann joga com a construção de significado através da uma recolha fortuita de informação. A identidade de cada pessoa é construída especulativamente pela fricção dos objectos/significante que ganham uma narrativa/significado criada por cada indivíduo, que produz as suas associações de acordo com os seus esquemas de referência. Este processo tem antecedentes na série fotográfica realizada nos anos setenta All the Clothes of a Woman, onde se apresentam todas as roupas pertencentes a uma mulher, e Bed with a Photograph (2000), instalação, onde Feldmann apresenta uma cama desfeita, vários objetos e uma fotografia de uma mulher. Ainda nesta sala são apresentadas três imagens que exploram a representação do corpo feminino. Feldmann apropria The Origin of the World de Gustave Courbet e coloca a pintura em diálogo com outras duas imagens onde também se representa o corpo feminino. Uma destas imagens apresenta barras negras por cima das zonas sexuais das mulheres representadas. A segunda mostra um corpo feminino com setas que identificam cada zona anatómica. Este conjunto constrói uma critica à utilização e normatização do corpo feminino no espaço social, ao qual a arte também pertence, sem abandonar uma postura humorística que fortalece toda a análise.

Esta investigação da figura e representação feminina é um objecto recorrente da obra de Feldmann e continua, por exemplo, em uma das Time Series patentes na exposição. A dimensão narrativa destes trabalhos, onde são documentados momentos concretos embora não identificados, convida a uma leitura cinemática das imagens. A análise temporal de Time Series, no entanto, baseia-se na imobilidade e não na ilusão de movimento própria do cinema. A projeção do indivíduo é, também, subtilmente levada para essa posição estacionária: a insuficiência de informação convida a um perscrutar atento de cada imagem, não a um recriar da deslocação. Os retratos destas séries, entre outros, uma mulher que fala com alguém fora de campo ou o barco que se movimenta no Reno, são indicações de uma representação material do tempo, e da importância destes momentos concretos na percepção do mundo. As Time Series funcionam como fotocópias do tempo, simulacros que contrariam a possibilidade de um ideal intemporal externo ao seu momento de produção, e potenciam a referida interação subjetiva.

Embora apresente de forma conjunta algumas séries fotográficas e os seminais Bilder, livros editados por Feldmann onde são apresentadas séries do mesmo tipo de imagens, a exposição na Serpentine não cria grupos demasiado coesos, deixando o espaço necessário a uma apropriação pessoal. A sala central onde são exibidos David, e, entre outros, as séries de fatias de pão, o conjunto de flores de plástico, e os retratos do mar, personifica o seu humor iconoclasta e a influência Dada cuja origem remonta a uma exposição que Feldmann visitou nos anos cinquenta. A fraqueza, que Feldmann aponta como causa para o seu regresso ao meio artístico em 1989 depois de um afastamento de cerca de dez anos, parece ser fruto da sua vontade de participar e comentar a vida social, um ato que hoje continua a ser de extrema importância.


João Laia