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EXPOSIÇÕES ATUAIS


José Luís Neto, Open In Total Darkness, # 15. Impressão a jacto de tinta sobre papel de algodão, 88,3 x 61 cm


José Luís Neto, Open In Total Darkness, # 10. Impressão a jacto de tinta sobre papel de algodão, 150 x 112 cm


José Luís Neto, Open In Total Darkness, # 3. Impressão a jacto de tinta sobre papel de algodão, 88,8 x 61 cm

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ARQUIVO:


JOSÉ LUÍS NETO

Open in Total Darkness




ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA | FOTOGRÁFICO
Rua da Palma, 246
Lisboa

25 MAI - 06 JUL 2012


José Luís Neto, artista cuja obra tem vindo a enriquecer e complexificar a fotografia enquanto meio de criação artística, promovendo, consequentemente, uma reflexão em torno do real enquanto imagem iminente, sempre passível de constituir um momento de contemplação, expõe o seu mais recente trabalho no Arquivo Municipal Fotográfico.


Em Open in Total Darkness, a imagem fotográfica é alvo de uma depuração cuja intensidade se reflecte na simplicidade das imagens. As cores parecem emergir da moldura que a imagem recorta na parede branca, numa plasticidade por vezes líquida, por vezes rochosa, mas que sempre assalta a sua bidimensionalidade. O paradoxo surge quando nos apercebemos que, não obstante a honestidade das imagens, temos a ilusão de estar perante pinturas sem qualquer ligação à realidade. O fotógrafo usa os seus meios como se fossem pincel e paleta e devolve-nos as cores do mundo; é na sua escrita de luz que nos dá a ver o que a escuridão vela.


As três séries de imagens que se nos apresentam constituem, cada uma, uma totalidade de Espaço e de Tempo. Parece mesmo ser a antiguidade a emoldurar e limitar cada imagem, pois que nelas podemos ver os vestígios da passagem do Tempo: este torna-se co-autor da obra. Cada uma das imagens é parte de um díptico que representa algo de frente e no verso, questionando uma vez mais o carácter bidimensional e imagético do que contemplamos – vestígio de uma existência quase escultórica, real e palpável. Cada rectângulo parece ambicionar ser ode a uma tonalidade sensitiva onde nos perdemos; pois não é mais que isso, uma cor e uma certa melancolia que lhe atribuímos. A exposição assevera, para aqueles que ainda duvidavam, que realismo e realidade são coisas totalmente distintas. Porque o que vemos habita, de facto, a realidade. Mas quem poderá deixar de associar um abstraccionismo àquelas obras, cujo fundamento está em serem parte do mundo e do tempo? O real deixará de o ser no momento em que o começarmos a ver sob a égide do realismo.


A par da inauguração da exposição, ocorre a publicação de um caderno de imagens de dois trabalhos do artista, High Speed Press Plate (2006) e July 1984 (2010). Integrado no projecto Imago, que tem vindo a dar proeminência a textos e autores responsáveis por um repensar da imagem, e agora publicados pela editora KKYM. José Luís Neto dá-nos agora a ver, em suporte de livro, de um modo bastante peculiar e com uma simplicidade que está em coerência com a sua obra artística, dois dos seus mais recentes trabalhos.


A obra de José Luís Neto constitui uma abordagem da e através da fotografia que entra num confronto directo com os argumentos desenvolvidos por Baudelaire no seu texto O Público Moderno e a Fotografia [1], asseverando a invalidade dos mesmos através de imagens fotográficas: criadas, artificiais, muitas vezes dispensando um referente a representar, elas representam-se a si mesmas, constituem o seu próprio referente. Aquilo que Baudelaire julgava estar intrinsecamente ancorado nas imagens do mundo, torna-se um novo dispositivo de criação de imagens. O espelho estilhaça-se e o que vemos agora é uma imagem transfigurada, autónoma. A fotografia parece assim reconciliar o Homem com as imagens do Mundo, dizendo-lhe, aqui há algo digno de contemplação.





Nota

[1] In Baudelaire, Charles, A Invenção da Modernidade (Sobre Arte, Literatura e Musica), Lisboa: Relógio D’Agua Editores, trad. de Pedro Tamen, 2006, p. 152


Maria Beatriz Marquilhas