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ZOE LEONARDObservation PointCAMDEN ARTS CENTRE Arkwright Road London NW3 6DG 31 MAR - 24 JUN 2012 O trabalho de Zoe Leonard utiliza a fotografia como ferramenta privilegiada para questionar a perceção humana. Em Observation Point o medium é analisado de uma forma aparentemente simples, investigando os processos de construção da imagem e a influência desses mecanismos no significado das representações produzidas. Os três conjuntos da exposição exploram diferentes modalidades de perceção, questionando ainda o papel da galeria como ferramenta de regulação sensorial. O primeiro conjunto, Available Light, apresenta uma série de fotografias a preto e branco que retratam o sol. O título de cada fotografia corresponde ao dia em que a imagem foi produzida e à sua ordem na sequência de imagens. Ao representar o elemento fotográfico primordial, a luz, Available Light formula uma meta-reflexão sobre o funcionamento do medium. Esta meditação sobre a natureza da fotografia contém ainda uma contradição que se torna extremamente relevante no contexto da exposição. As imagens desfocadas e pouco definidas caracterizam o medium como uma ferramenta imperfeita (visível na inclusão do enquadramento na própria imagem - o frame negro), que não permite um retrato exato do objeto, embora crie uma representação muito próxima do visível. O espelho entre mecanismo de representação e objeto representado encontra um novo elemento no paralelismo criado entre o medium e sujeito observador, que partilham uma perceção alterada. Leonard parece também ter interesse em sublinhar a existência da sala de exibição. As imagens são pregadas diretamente na parede sem qualquer moldura. Esta materialidade da imagem como objeto no espaço também apresenta ecos do tema retratado. A sala é constituída por uma série de janelas, que, a partir do teto, introduzem luz natural no interior da galeria. A flutuação da luminosidade exterior e, consequentemente, interior, altera as fotografias, criando um diálogo entre a imagem representada, o objeto físico, e o seu espaço de apresentação. A sala seguinte apresenta You see I am here after all, instalação constituída por uma coleção de cartões postais, que, à exceção de dois elementos pregados à parede, são colocados numa mesa no centro do espaço. A mesa apresenta diferentes vistas das cataratas do Niagara. Os diversos tipos de coloração dos postais lembram as diferentes modalidades de luz das imagens de Available Light. You see I am here after all também inclui o interesse demonstrado em Available Light na materialidade da imagem. Para além da inserção direta na parede de dois postais, os restantes elementos são colocados em pilhas de diferentes dimensões, criando uma topografia de perceções que obedece a uma perspetiva impossível do espaço das cataratas. Estes conjuntos funcionam como índex do olhar dos visitantes e, em simultâneo, da negação desta multiplicidade pela representação normativa que cada postal recria. Esta regulação cultural de um espaço natural é assinalada diretamente nos dois postais de parede que retratam um ponto de observação do Grand Canyon, enquadrando e recriando a vista ideal. You see I am here after all torna concreta a dimensão política da materialidade da imagem que se encontrava latente em Available Light. A terceira galeria apresenta Camera Obscura, uma reconstituição do dispositivo óptico que antecede a fotografia e o cinema. Este trabalho parece funcionar como súmula de Available Light e You see I am here after all reposicionando questões relacionadas com a normatividade visual e o relacionamento com o espaço de exibição. Leonard transforma por completo esta sala do Camden Arts Centre caracterizada por grandes janelas sobre Finchley Road. Camera Obscura reconfigura o espaço ao esconder as janelas embora continue a mostrar a vista que é reconstituída na parede oposta. O funcionamento do dispositivo leva a que a imagem apareça invertida, reconstituindo a cena banal e quotidiana, enquanto que estimula uma análise cuidada das suas partes constituintes através da novidade visual desta representação. Em Camera Obscura, para além do exame ao mecanismo fotográfico e da demonstração dos seus processos, Leonard também questiona a utilização contemporânea deste dispositivo óptico, utilizado, entre outros, em contextos turísticos onde é apresentada uma vista panorâmica, como acontece, por exemplo, no Castelo de São Jorge. Neste ponto Camera Obscura apresenta várias ligações com You see I am here after all, especificamente no que diz respeito à regulamentação do olhar através da definição/imposição de uma perspetiva. A recriação visual de Camera Obscura não é contida numa única superfície de representação, contrariando a utilização habitual deste dispositivo. O espaço da sala é completamente ocupado pela imagem, que se expande, em diferentes graus de concentração, do centro para as extremidades. O jogo de luz e sombra, o sublinhar dos limites representacionais do mecanismo e o interesse na materialidade da imagem (visível também na inclusão das características arquitetónicas da sala no seu interior), lembram ainda os processos de Available Light em termos do relacionamento com o espaço de apresentação. Em Camera Obscura, Leonard cria um espaço onde mecanismo e representação (processo e resultado) ocupam um mesmo espaço e tempo, questionando a imagem artificial enquanto constrói um locus ilusório a partir dessa mesma realidade mediada, assinalando a ação da galeria e do museu na representação de qualquer trabalho. Esta é a primeira exposição individual de Zoe Leonard em Londres. O seu percurso inclui a seleção para o prémio Deutsche Borse Photography em 2010, participações na Documenta 9 (1992), Documenta 12 (2007), e na Bienal Whitney em 1993 e 1997. O seu trabalho foi ainda apresentado em retrospetivas no Museu Reina Sofía em Madrid e Museu Ludwig em Viena, entre outras.
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